Sentidos possíveis para uma bienal

© MAM RJ

Foi, sem dúvida, um outro Brasil aquele que assistiu à primeira edição da Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. Ruralizado ainda, com uma população na casa dos 52 milhões de habitantes, o país consololidava em passos lentos seu processo de modernização. Um país pré-Bossa Nova.

Alavancada pelo espírito empreendedor e pela vaidade de Ciccillo Matarazzo, a Bienal tinha como propósito explícito inserir o Brasil no circuito artístico internacional e consagrar a cidade de São Paulo – quase trinta anos depois da Semana de Arte Moderna – como centro da produção e do debate vanguardista. Mas tinha, ainda, a ideia de tornar conhecida a produção internacional, em um tempo em que as fotos eram em preto e branco e as viagens internacionais, privilégio de pouquíssimos.

Hoje, com o aumento da circulação mundial de pessoas, obras e capital, a ida e vinda de nomes internacionais deixou de ser um acontecimento digno de nota. Rebecca Horn vem ao CCBB, Cildo vai à Tate Modern, Ernesto Neto, ao MoMA. A busca por uma “arte nacional”, questão fundamental para Ciccillo em 1951 (“Tudo contribuiu para que, nesta primeira grande manifestação artística no Brasil, pudéssemos ter uma consciência maior e mais explícita dos valores artísticos nacionais em confronto com as realizações artísticas de outros países”, escreveu), deixou em grande medida de fazer sentido em um mundo declaradamente internacionalizado. Que sentidos, então, atribuir à Bienal atualmente?

Em termos econômicos, mais importante neste momento parece ser a capacidade da Bienal em atrair para a cidade curadores ou galeristas internacionais. Vindos para o evento, estrangeiros encontram, para além dos limites da marquise do Ibirapuera, um país que estabeleceu outros modos de pensar e exibir arte: Inhotim ou a arte urbana/graffiti, para citar dois exemplos.

Em um artigo intitulado “A importância da Bienal de SP para o Brasil”, publicado na Folha de S. Paulo de 11 de julho de 2010, o presidente da Fundação Bienal Heitor Martins enfatizou justamente a importância do evento para a consolidação do mercado de arte: “A produção artística é uma das atividades de maior valor agregado na economia. A obra de arte materializa o capital intelectual. Quanto maior valor as obras de arte de nossos artistas adquirem, maior a riqueza gerada para o país, e tal riqueza acaba sendo distribuída entre todos no mundo das artes – artistas, galerias, instituições culturais etc.”. Martins também mencionou o caráter educativo de um evento que atua como “instrumento de educação e inserção social e servindo de alavanca para estimular a produção e o consumo de bens culturais”.

Nada contra o fato de que a Bienal sirva como “instrumento” econômico e educacional. Mas parece pouco a desejar. Para que recupere o impacto do passado, é preciso que ela desempenhe seu papel crucial de ser uma vitrine de experimentação conjunta. Talvez, nestas três palavras – “vitrine”, “experimental” e “conjunta” –, esteja ainda guardado o sentido possível de uma Bienal que intrigue e instigue, que impressione, que estimule e que assuste. Se as formas expositivas, o conteúdo de cada obra e o diálogo entre elas for ousado o suficente para fazer ecoar e ressoar as ideias ali apresentadas, talvez isto consiga fazer da Bienal algo diferente das feiras de arte que se reproduzem a todo vapor.

A Bienal é um dos poucos eventos artísticos brasileiros que tem a capacidade de atrair o grande público, aquele que não frequenta museus ou galerias porque não tem o hábito ou porque se sente intimidado. Trata-se de uma festa mais aberta, que serve a muitos como uma introdução ao universo da arte. Como a Copa do Mundo, que mobiliza até quem não gosta de futebol, a Bienal atrai por seu gigantismo, por seu nome, por seu apelo. É este “largo alcance” que não pode ser perdido de vista, daí a preocupante diminuição de público nas últimas edições. Foram 535 mil visitantes em 2006, não mais que 120 mil visitantes em 2008.

Mas há esperança. Do “vazio” que assolou a última edição, passamos à “política” como tema, à arte entendida “como meio privilegiado de apreensão e simultânea reinvenção da realidade”, nas palavras do curador Moacir dos Anjos. Em tempos de Tiririca e Mulher Pera em campanha eleitoral, a promessa não deixa de soar alentadora.

Gabriela Longman é jornalista especializada em arte e cultura.

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