© Pablo Mehanna / Coleção Ignacio Liprandi, Buenos Aires

A exposição retrospectiva que o Museu de Arte Moderna de Buenos Aires dedicou ao artista Sebastián Gordín (Buenos Aires, 1969) supõe o reconhecimento necessário a um criador que, durante sua trajetória, transitou por um caminho paralelo ao seguido pela maioria dos que desenvolvem suas carreiras no circuito da arte contemporânea. Gordín é um artista atípico, que questiona o próprio conceito de artista e prefere se definir mais como construtor a escultor, apesar de a maior parte de sua obra estar em formato tridimensional. Suas peças podem ser entendidas como o resultado dessa obsessão comum às crianças, de reproduzir em pequena escala o mundo que nos envolve. Pintura, escultura, arquitetura ou instalação são utilizadas pelo artista de diversas formas para conseguir seu objetivo, que não parece ser outro que o de construir pequenos mundo, para provocar o interesse do espectador ou compartilhar com ele determinada visão da realidade.

Nos finais dos anos 1980, Gordín começou a abandonar a pintura e centrou a produção na criação de maquetes, onde reproduzia cenários reais ou imaginários, misturando referências cinematográficas com alusões às revistas antigas de crime e mistério ou presença de elementos e personagens do mundo do circo. Não são obras narrativas, mas parecem aludir a momentos congelados de uma história que nunca chegou a existir, mas que poderia ser relatada em qualquer época. Cada um dos espectadores convidados a contemplar a obra pode criar sua própria versão do que vê. Gordín não trata de dogmatizar nem ditar sentenças. Permite que cada pessoa possa vê-las do ângulo que deseja.

Nos finais dos anos 1980, Gordín começou a abandonar a pintura e centrou a produção na criação de maquetes, onde reproduzia cenários reais ou imaginários, misturando referências cinematográficas com alusões às revistas antigas de crime e mistério ou presença de elementos e personagens do mundo do circo. Não são obras narrativas, mas parecem aludir a momentos congelados de uma história que nunca chegou a existir, mas que poderia ser relatada em qualquer época. Cada um dos espectadores convidados a contemplar a obra pode criar sua própria versão do que vê. Gordín não trata de dogmatizar nem ditar sentenças. Permite que cada pessoa possa vê-las do ângulo que deseja.

O universo inquietante e muitas vezes absurdo que vai sendo construído por Gordín ao longo de sua obra se intui na pintura que abre a exposição, Sem pão e sem salame, de 1989, mas alcança sua máxima expressão em uma das salas principais, onde estão um grande número de vitrines com diferentes cenas. Cada uma delas parece corresponder a um pensamento ou sonho do artista e, de alguma forma, confronta o espectador com esse canto escuro da memória, onde se conservam lembranças do passado ou do futuro. Em algumas delas, o artista recria uma biblioteca ou sala de um museu, lugares que são equivalentes a cápsulas do tempo.

Embora consiga se expressar com clareza em sua obra, Gordín se preocupa em garantir que ela não seja elitista; daí as peças serem adequadas a todos os públicos. A cultura popular é sua principal fonte de inspiração e ele confessa não gostar do rumo que a arte contemporânea tomou nos últimos anos. Suas obras não parecem criadas para serem expostas em um museu, mas para serem apreciadas na intimidade do lar de cada espectador. Ela perde deliberadamente boa parte da sua condição de espetáculo público para se converter em algo mais íntimo entre artista e plateia.

Gordin foi criticado por alguns por não ter inventado coisa alguma e apostar em uma estética enraizada na recriação do passado; mas talvez aí esteja a originalidade e a força de sua linguagem, que se apoia no rompimento com os clichês da arte contemporânea e introdução de objetos cotidianos ou esquecidos, como as revistas dos anos 1940. Também daí vem sua posição como um provocador mais do que um vociferador. O humor e a ironia estão muito presentes, mas sem estridências, apenas como um elemento a mais que o artista utiliza para procurar a conexão com o público: “Procuro referências em materiais manuseados, gastos, lidos e relidos. Porque procuro aí, por onde o mundo passou? Talvez porque não sinto esse compromisso de ser artista visionário, um iluminado que vê tudo antes. Prefiro ir sempre atrás, buscando e revisando o que ficou, tratando de descobrir se alguém não esqueceu algo perdido por aí”. Provavelmente, essas palavras de Gordín sejam a melhor definição do trabalho de um dos artistas argentinos com uma das evoluções mais interessantes nos últimos anos.

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