© Paulo Innocêncio

Thiago Rocha Pitta faz intervenções morosas, contemplativas com a natureza. Praticando há pouco mais de uma década, criou um corpo de trabalho substancial –pinturas, esculturas, bem como vídeos performáticos e fotografias – que investiga as preocupações da passagem do tempo vivenciada como eventos singulares em ambientes naturais. A dele é uma prática de desenrolar lendo, da mesma forma que seus trabalhos têm um lento e cadenciado ritmo: a obra de Pitta nos torna agudamente conscientes da passagem do tempo e de nossa percepção pessoal de tempo e local.

A primeira vez que vi uma obra de Thiago Rocha Pitta – uma série de aquarelas reminiscentes de Turner de nuvens chuvosas e um vídeo que mostrava fumaça descendo a face coberta de selva de uma montanha – foi há oito anos, em meio a uma agitada feira de arte de Miami. Eu não conhecia o artista e muito menos a galeria que o representava ou seu dono – A Gentil Carioca, de Marcio Botner – mas algo sobre aquele estranho vídeo de fumaça sendo levada pela encosta esmeralda de um penhasco… algo sobre a explosão de nuvens chuvosas em aquarela me atraiu para o estande e lá começou uma conversa que levou a uma visita ao ateliê do Rio de Janeiro quatro semanas mais tarde. O estúdio de Thiago fica em Santa Teresa e, por algum motivo, caminhei desde o metrô da Glória, 20 minutos subindo por uma das clássicas ruazinhas cheias de curvas do bairro para chegar até o endereço, onde ele me convidou para subir mais alguns lances de escada. E lá, em seu estúdio, pela janela, estava a vista mais magnífica da baía com o Pão de Açúcar a distância.

A caminhada subindo a ladeira até o ateliê de Thiago – pela viela escura e cercada de hera terminando na sala com vista para a marina – tornou-se, misteriosamente, parte da forma como vejo seu trabalho. Elementos-chave dele estavam ao longo daquele caminho. A arte dele, pelo desdobrar lento do tempo, une natureza e cultura e o agente de união é uma melancolia amorosa que desde então passei a conhecer como “saudade”.

“Saudade” é uma palavra única à língua portuguesa, sem tradução direta para o inglês. A Wikipédia diz que saudade “descreve um profundo estado emocional de desejo nostálgico por algo ou alguém ausente a quem se ama. Com frequência carrega a certeza reprimida de que esse objeto de desejo não retornará. Está relacionada a sentimentos de desejo, de querer. Uma forma mais forte de saudade pode ser sentida por pessoas e coisas cujos paradeiros são desconhecidos, como um amante perdido ou um membro da família que desapareceu.”

Como estrangeiro – um americano sem entendimento précio do termo “saudade” –, passei na última década, com mais de 60 viagens ao Brasil, a conhecer em primeira mão o sentimento pessoal da saudade. O Brasil se tornou meu lar emocional, se não literal. Então agora, quando parto para Nova Iorque, sinto falta de meus amigos, meu amante, o calor, a cozinha, o caos, a beleza, um passeio. Nascido em 1980, Thiago Rocha Pitta cresceu na pequena cidade histórica de Tiradentes. Ainda adolescente mudou-se para a montanhosa Petrópolis e então, em 1999, como estudante universitário, veio para o Rio de Janeiro. Mas, apesar de um adulto urbano, são a proximidade com a natureza e o amor pela terra de um jovem menino que permeiam seu trabalho. É a saudade que literalmente invade seu magnífico e humorado vídeo em câmera lenta do voo de 45 minutos entre Santos Dumont e Congonhas, que ele desacelerou para três horas e meia, sugerindo o tempo que se leva para viajar por terra entre Rio e São Paulo. Instalado de forma estarrecedora pelo curador Neville Wakefield na exposição Time Frame, no PS1/MoMA de Nova Iorque, a obra Rio de Janeiro x São Paulo, viagem aérea em tempo de estrada ou carta de amor sem endereço (2005) é uma meditação sobre a atmosfera, a paisagem, mas para o artista também tem uma dimensão pessoal, já que na época ele viajava regularmente a São Paulo ver uma namorada, raramente tinha dinheiro para a passagem de avião e estava sempre em um ônibus.

A presença recente de Rocha Pitta na Bienal de São Paulo Bienal – uma instalação site-specific de terra cor de sangue seco sobre a qual foi posicionado um agrupamento de esculturas de gesso em arquitetura de tenda – são uma referência literal às viagens de acampamento de Pitta, mas também me remetem a mortalhas e cinzas… Certamente, essas esculturas são lembretes fortes da natureza temporal desse momento e de nosso ser tão passageiro. Em toda sua magnificência temporal, é a saudade que infiltra uma das metáforas em forma de paisagem de Pitta: um barco flutuando no oceano com duas mudas como passageiros. Como aparato surrealista, tem humor e perspicácia. E, claro, é uma ponderosa metáfora livre para todos os observadores. Um barco vazio enviado ao mar aberto como oferenda tem muitas referências clássicas, bem como em religiões africanas e na cultura nórdica, mas também me fala com uma particularidade da vida do artista: Thiago e o irmão, o artista Matheus Rocha Pitta, sozinhos à deriva em um mar de melancolia após a morte do pai, um artista. Os barcos de Thiago – ora enterrados, ora queimados; ora madeira, ora alumínio – são oferendas. São a manifestação da saudade. E porque ele é um alquimista, a saudade de Thiago Rocha Pitta dialoga com a nossa.

Seis perguntas para o artista

Fale sobre sua carreira.

É difícil precisar quando comecei, pois fui criado dentro de um ateliê. Oficialmente, minha primeira participação em uma exposição foi em 2001, com o trabalho Abismo sob Abism, no extinto projeto de interferências urbanas em Santa Teresa.

Você começou com as aquarelas e logo passou a transitar por diversas mídias. Com qual suporte você mais gosta de trabalhar? Existe algo que ainda não tenha feito e que tenha vontade?

Na verdade, não comecei com aquarela, o primeiro trabalho que expus foi uma escultura. Não tenho predileção por um suporte, posso dizer que o fazer da escultura é, sem dúvida, muito mais intenso e sensual do que o fazer de um desenho, por exemplo. Mas meus vídeos foram esculturas antes de se transformar em vídeos, colocando-os na mesma intensidade. Tenho muita vontade de trabalhar com cinema e acho que um dia isso vai acontecer naturalmente.

Qual é o seu próximo projeto?

Acabo de regressar de uma viagem a San Francisco, EUA, onde farei uma individual no Yerba Buena Center of Arts em julho de 2013. Minha ideia é não fazer algo objetivo nos próximos meses. Pesquisar no ócio, eu diria, é meu projeto.

A natureza em seu trabalho parece frequentemente se apresentar em um âmbito da catástrofe. Há, frequentemente, a presença de elementos como o fogo, a fumaça, o desabamento. Qual foi o processo de desenvolvimento dessa estética?

Não vejo catástrofe presente no meu trabalho, muito menos na natureza. Acredito que o uso que faço, por exemplo, do fogo é moderado, mais próximo do fogo culinário do que do fogo destrutivo. O fogo que apresento pretende transformar o objeto que sofre sua ação, cozinhá-lo, ou seja, tirá-lo do âmbito “natural” para o âmbito “cultural”. Há também um fogo ritual, religioso, mas nunca destrutivo. Em relação ao desabamento ou ao enterro – naufrágio interior –, penso mais em tragédia do que em catástrofe. Na tragédia, o herói sofre uma ação.

Em 2002, você fez o trabalho Homenagem a William Turner. Costuma usar elementos da história da arte como fonte de inspiração?

Não só da história da arte, mas, sobretudo, da literatura e da história natural. A ideia do filme me trouxe à memória o célebre quadro Burial at the sea e quis fazer essa referência.

O que você acha que o mercado de arte espera das novas gerações de artistas?

Prefiro inverter essa pergunta. Que tal “o que as novas gerações esperam do mercado”?

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