© Santiago Calatrava

Desde a exposição no Museu de História da Arte de Viena, em que seus prédios eram comparados a esqueletos de pássaro, Santiago Calatrava vem sendo apelidado de homem-pássaro. Basta olhar para um de seus projetos para perceber que a alusão não é em vão. As estruturas, cheias de leveza e movimento, parecem prestes a alçar voo.
O arquiteto espanhol tem sido uma presença constante no Rio de Janeiro, onde vem desenvolvendo o Museu do Amanhã, iniciativa da Fundação Roberto Marinho e da Prefeitura do Rio, que está no centro de um ambicioso projeto de revitalização da região portuária. Após uma palestra na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Calatrava falou com exclusividade para Dasartes.

 

Alguns de seus projetos parecem ir contra as regras básicas da arquitetura, valorizando mais a beleza que a estrutura. Você se considera mais um engenheiro ou um artista?

De acordo com um dos mais antigos arquitetos do mundo, Vitruvius, as três virtudes da arquitetura são firmitas, utilitas, venustas. Arquitetura deve buscar firmeza, funcionalidade e beleza. A funcionalidade é parte essencial da arquitetura. Como arte, a arquitetura é diferente da escultura porque tem que funcionar, escadas têm que ser acessíveis, portas e janelas deixar entrar ar e luz, deve fazer nossa vida mais fácil , confortável e saudável. Arquitetura deve dar às pessoas uma vida melhor, o arquiteto deve amar as pessoas, e o segredo dessa filantropia na arquitetura está na funcionalidade.

Falando em Vitruvius, você também parece ter uma relação com o corpo humano.

Eu tento fazer uma ponte entre a qualidade do prédio e a qualidade das pessoas e de suas vidas, como sugeria Daniele Barbaro, patrono do arquiteto renascentista Palladio. Ele escreveu que, assim como um prédio deve ser firme, a pessoa deve ter tenacidade, deve ser dura. Assim como um prédio deve ser funcional, uma pessoa deve ser boa. E, finalmente, assim como um prédio deve ser belo, um arquiteto deve ser inteligente, pois a beleza na arquitetura nasce da sabedoria e da informação, da matemática, da capacidade de tomar as proporções do corpo humano e trazê-las para a concepção do projeto. Talvez a expressão máxima desta tríade esteja no sistema Modulor de Le Corbusier, que definiu proporções baseadas no corpo que, aplicadas à arquitetura, tornariam as construções mais humanas.

Como a localização afeta seus projetos?

Já que estamos falando tanto dos clássicos hoje, os romanos falavam do genius loci, o espírito do local. Você deve abrir sua mente, sua alma, seus olhos e ouvidos para sentir o lugar e aprender com as pessoas dele, saber como elas o percebem. A relação com o local também é importante para definir os materiais usados. Hoje, vivemos em uma cultura em que os prédios em Hong Kong ou Nova York são muito similares, isto é o fruto do nosso tempo. Mas como podemos construir coisas diferentes e mais integradas em seus locais? Estando lá. Usando os materiais do local. Pensando no local em termos físicos e também metafísicos.

E sobre o local para o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro?

Eu estive muitas vezes no Rio e conclui que é mesmo uma das cidades mais bonitas do mundo, privilegiada pela natureza. Então visitei o mosteiro de São Bento e isso abriu minha mente sobre a praça Mauá e sobre o impacto da perimetral (pista expressa construída sobre um elevado, que contorna a região portuária da cidade). Por isso, o projeto nasceu sobre a decisão de que a perimetral deveria desaparecer e que o prédio teria que ser horizontal, não poderia ser alto e atrapalhar a vista. Deve-se enfatizar o fato de que a praça Mauá poderia ser uma das mais bonitas e frequentadas do Rio, como um dia foi. Tenho orgulho de fazer parte do movimento que vai sublimar a perimetral, pois tenho certeza de que será melhor em muitos sentidos: para o trânsito, para a região do porto – que tem prédios lindos – e para as pessoas em geral.

Como artista, você se aproxima mais dos barrocos, na simples busca pela beleza, ou como um artista mais moderno em busca de expressão?

Barroco e expressionismo são escolas de arte que eu respeito, mas sempre tento ser parte do meu próprio tempo. Gosto muito do uso da luz no barroco, mais do que do senso de decoração, apesar de admirar a criatividade. No expressionismo, admiro a paleta de cores e a monumentalidade de artistas como Rothko. Mas, na minha criação, tento partir da compreensão do espírito do momento.

É uma crença comum que tempos de crises abrem portas para grandes avanços na arte. Acha que isso vale também para a arquitetura, que depende não apenas de criatividade, mas também de suporte material? 

Eu penso sobre Nova Iorque e alguns de seus prédios icônicos, como o Empire State, que foi construído em pouquíssimo tempo, quase sem máquinas, na época da Depressão. São exemplos de como, em tempos de crise, as pessoas têm que se superar para vencer as dificuldades, ter mais cuidado no uso dos materiais, e daí surgem as soluções criativas. A pior coisa que uma sociedade pode fazer em tempos difíceis é sentar e esperar. Em períodos de prosperidade, é mais fácil repetir as mesmas soluções do que achar tempo – em nossas vidas atribuladas e cheias de trabalho – para criar.

Você acredita que a obsessão atual com sustentabilidade vai mudar a arquitetura?

Penso que sustentabilidade é uma parte da funcionalidade. Há muita prudência e senso comum na busca por sustentabilidade. O senso comum é parte da bonitas (?) de que Daniele Barbaro falava, da bondade. Sou muito a favor. E vejo que é um movimento geral, que já está sendo ensinado à nova geração em sua formação.

Você já concebeu algo que não foi possível realizar por limitações da tecnologia de hoje?

Engenharia é a arte do possível (risos). O resto é utopia. Em alguns domínios da tecnologia, como na aeronáutica ou astronomia, as coisas estão evoluindo muito rápido, mas a arquitetura não é um foco de desenvolvimento da tecnologia. Talvez em outras épocas tenha sido, mas hoje não mais.

Você desenvolveu um prédio de penthouses para Nova Iorque que ainda não foi construído. Pode falar desse projeto?

Qual a contribuição de uma cidade como Nova Iorque ao urbanismo do século 20? É a linha do horizonte (skyline). Agora, imagine se essa linha do horizonte fosse um prado, cheio de flores. Meu prédio seria mais uma flor. Talvez um pouco diferente, talvez uma violeta africana (risos), mas uma flor a mais.

 

 

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