© Fundación Gala-Salvador Dalí, Filgueres

“A diferença entre os surrealistas e eu, é que eu sou surrealista”. A frase do pintor catalão Salvador Dalí resume a ambivalência de sua produção e a dificuldade em fixá-lo em um lugar único na história da arte, tendo que lidar com sua dupla persona: por um lado, expoente do Surrealismo, por outro, figura pública de comportamento peculiar e exibicionista.

Dalí entendia-se surrealista por natureza: sua vida e produção estavam pautadas pelo encontro entre sonho e realidade. Surrealismo, o movimento, era o nome do grupo liderado por André Breton e composto por Marx Ernst, Man Ray, Joan Miró e Luis Buñuel, para citar alguns. Surrealismo, o conceito, pode ser definido de muitas formas, mas, desde sua menção no manifesto de 1924, refere-se a uma atitude que desafia padrões morais e estéticos ao minar os princípios da razão lógica.

Essa atitude, difícil em sua execução, levou os surrealistas à tarefa de criar táticas para burlar a própria racionalidade. A mais célebre e difundida dessas táticas baseia-se no automatismo do pensamento: tudo que for contemplado pela mente é imediatamente transposto para a obra – uma criação desordenada em que raciocínio e gesto estão diretamente ligados, como partes de uma engrenagem. É nesse ponto que Salvador Dalí se distingue do grupo surrealista. Ele estava mais interessado em se aprofundar na exploração e no mapeamento do inconsciente, partindo das pesquisas desenvolvidas pela psicanálise de Sigmund Freud e também de estudos científicos avançados, principalmente no que diz respeito à física nuclear, aos princípios ópticos e ao descobrimento de uma quarta dimensão.

Assim, com referências diversas e indistintas temáticas, Dalí explorava o universo do inconsciente, do desejo e do trauma, muitas vezes passando pela figura de Gala, sua esposa e musa. Grande parte do vocabulário simbólico e processo criativo reiterados em inúmeras de suas pinturas reflete o desejo de representar as associações e metamorfoses do pensamento, sobretudo aquelas involuntárias e tantas vezes incontroláveis.

A partir de seu período surrealista, esse conjunto de ensaios sobre os funcionamentos internos do pensamento ficou associado com o que ele chamava de método paranoico-crítico. E é justamente em torno dos trabalhos desse período que se concentra a maior parte das pesquisas, críticas e exposições realizadas recentemente sobre o artista. Foi o caso, por exemplo, da grande mostra realizada em 2013 no Centre Pompidou, em Paris, e no Museu Reina Sofia, em Madri. Nessas iniciativas, revela-se o esforço de Dalí em contribuir com as vanguardas modernas e a forma singular com que abordou os problemas do surrealismo.

Tal também será a abordagem da exposição Salvador Dalí, apresentada pelo Centro Cultural Banco do Brasil e pelo Instituto Tomie Ohtake, em que se poderá conhecer a obra do artista e as diferentes linguagens que utiliza: pinturas, ilustrações, fotografias, reproduções de documentos, litografias. Integram a mostra obras como o Autorretrato cubista (1923) e Retrato de minha irmã (1925), do início de sua formação como estudante da Escola de Belas-Artes, as surrealistas O sentimento de velocidade (1931) e As sombras da noite declinante (1931), além dos filmes Un chien Andalou (1929), clássico de sua colaboração com Luis Buñuel, e Spellbound (1945), realizado em parceria com Alfred Hitchcock.

O que fica um pouco à sombra nos estudos recentes de Dalí é o período em que o artista, apelidado pelo anagrama de Avida dollars, fez de sua personalidade excêntrica o mote para a comercialização de sua obra. Ora tido como louco, ora como megalômano, suas ações, ainda que ancoradas em um forte anseio de capitalização, partiam de uma interpretação subversiva da realidade, o que fez dele personagem popular e expressivo da história da arte. Mas esta já é uma outra história.

 

O método paranoico-crítico e obra Monumento imperial à mulher-criança

Como outros pintores surrealistas, Salvador Dalí frequentemente representou de maneira realista, quase ilusionista, personagens mais ou menos fantásticos, habitantes de paisagens misteriosas em situações enigmáticas. O que destaca o artista espanhol de seus companheiros é que ele abordava seu processo criativo como uma espécie de alucinação controlada. Em seu método paranoico-crítico, que desenvolveu enquanto frequentava o círculo dos surrealistas, Dalí explorava imagens duplas, espécies de trocadilhos visuais, representações de um objeto que corresponde simultaneamente à imagem de outro objeto, mesmo sem sofrer qualquer modificação. Com um forte embasamento na teoria da psicanálise, tratava-se de analisar e interpretar as associações e o estado de espírito no qual o artista se coloca durante a realização da obra.

A composição de Monumento imperial à mulher-criança exemplifica esse jogo visual. O agregado de figuras que constitui a massa informe em destaque é formado por um conglomerado de rostos e corpos, vestígios arquitetônicos, objetos, elementos naturais e até reminiscências de outras obras, tudo em relação orgânica e fluida. Nessa tela, que Dalí apresentava como uma catarse de suas angústias infantis, ora percebemos alguns detalhes, ora outros, como se estes respondessem a nosso próprio estado de espírito. É o resultado de uma abordagem ativa, que interpreta seus processos psicológicos e cognitivos, ao mesmo tempo em que desencadeia processos de associação e embaralhamento.

 

Provocando o provocador

Por mais que se fale das qualidades do trabalho de Dalí, sempre haverá o interesse, justificável inclusive, pelas anedotas de sua biografia – algumas cômicas, outras chocantes; algumas de fundo psicológico, outras truques de publicidade. E isso sem contar as fofocas e os rumores. As especulações são diversas: sua relação edipiana com Gala, o constrangimento declarado com o próprio falo, sua megalomania justificar-se por uma profunda insegurança identitária, a polêmica simpatia por regimes totalitários, a assumida avidez por riqueza. A pergunta que fica é em que medida suas confissões são autobiográficas e o quanto são versões dos textos psicanalíticos que estudou para o personagem que criou?

Por mais que se fale das qualidades do trabalho de Dalí, sempre haverá o interesse, justificável inclusive, pelas anedotas de sua biografia – algumas cômicas, outras chocantes; algumas de fundo psicológico, outras truques de publicidade. E isso sem contar as fofocas e os rumores. As especulações são diversas: sua relação edipiana com Gala, o constrangimento declarado com o próprio falo, sua megalomania justificar-se por uma profunda insegurança identitária, a polêmica simpatia por regimes totalitários, a assumida avidez por riqueza. A pergunta que fica é em que medida suas confissões são autobiográficas e o quanto são versões dos textos psicanalíticos que estudou para o personagem que criou?

 

Três perguntas para a curadora Montse Aguer

 

1. Esta mostra propõe “um olhar que nos ajude a entender Dalí em todas as suas vertentes”. Como foi o processo de escolha das obras?

Queremos mostrar a trajetória, a evolução e a experimentação constante de Salvador Dalí, e também seu desejo de inovação, sua curiosidade, sua busca incessante por novas linguagens artísticas. Esta exposição dá especial importância à etapa surrealista, na qual ele elabora seu método paranoico-crítico de interpretação da realidade. Destacamos, ao mesmo tempo, a ideia de artista total, como Leonardo da Vinci. Dalí é um artista com conhecimento profundo do passado da história da arte, que se imbuiu de todas as novidades que o presente lhe oferecia e que também se projetava ao futuro, especialmente por meio da ciência, para encontrar novas linguagens de expressão artística.

 

2. Dalí destaca a importância do método paranoico-crítico. Qual o papel dessa atividade quando nos voltamos para todo o conjunto de obras de Dalí?

Dalí, com a formulação de seu método paranoico-crítico, faz uma contribuição substancial à tradução das ideias surrealistas em termos visuais. Apresenta esse método como um recurso espontâneo de conhecimento irracional baseado na associação crítico-interpretativa de fenômenos delirantes. Dalí queria “confundir” o espectador, que este se aproximasse da realidade por outras perspectivas. Essa compreensão imaginativa da realidade se dá em toda a obra dele. A vontade de conhecimento de Dalí passa pelo olhar.

 

3. Além do interesse pela ciência, Dalí também possuía uma forte identificação com o misticismo e a magia. Como se manifesta essa duplicidade na sua produção dele?

Em sua autobiografia, Vida secreta de Salvador Dalí, o artista expressa seu desejo de mudança, manifestado como vontade de adquirir uma nova pele. Daí a orientação mística e ao mesmo tempo científica de suas criações. A proporção áurea, tão cara aos pintores do Renascimento ou a dupla-hélice do DNA são exemplos de diagramas que Dalí utiliza nessa nova etapa.

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