© Rubens Gerchman, 1970

O ano era de 1975. o Brasil vivia mais de 10 anos sob Ditadura Militar e dava início a uma lenta abertura política com o governo de Ernesto Geisel.

Em meio a esse cenário, o carioca e artista múltiplo, Rubens Gerchman (1942-2008) recebe o convite do dramaturgo e diretor de cultura da Secretaria de Educação do estado da época, Paulo Afonso Grisolli, para dirigir o então Instituto de Belas-Artes do Rio de Janeiro. Não convencido da ideia, o artista convida a amiga, a arquiteta Lina Bo Bardi, para ajudá-lo a escrever uma carta de renúncia, para ser usada em caso de necessidade. Ele aceita o convite mas ao longo de sua gestão mantém a carta guardadinha em seu bolso.
“Era um mecanismo de defesa, ele não sabia se ia dar certo porque não tinha experiência na área, não era um educador, era um artista”, disse Clara Gerchman, filha do artista e diretora do Instituto Rubens Gerchman.

O fato curioso foi parar no título da exposição “Rubens Gerchman: com a demissão no bolso”, que acontece na Casa Daros, no Rio, até fevereiro de 2015, e tem curadoria do diretor de arte e educação da instituição, Eugenio Valdès Figueroa, e da própria Clara. A exposição esmiuça a fundo os quatro anos (1975-1979) em que Rubens Gerchman esteve a frente da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), nome escolhido por ele no lugar de Instituto de Belas-Artes, e promoveu uma transformação pedagógica radical.

“Esse é um período importante e encantador mas que não está tão bem registrado na história da arte brasileira”, comenta Eugenio. Os curadores reuniram fotos, trabalhos, documentos, matérias de jornais e as chamadas “pranchas”, onde eram divulgadas as atividades artísticas e os acontecimentos futuros na escola, que nos guiam por esse período tão curto mas tão intenso. Para ajudá-lo na gestão, Gerchman convidou amigos de diversas áreas de atuação, como Roberto Magalhães, Hélio Eichbauer, Lygia Pape, Xico Chaves, Celeida Tostes, Marcos Flaksman, entre outros, que dariam aulas naquele espaço onde a premissa era a liberdade de expressão e a formação transdisciplinar. A proposta não era nada acadêmica, os veteranos traziam novas formas de exercício do pensamento crítico com trabalhos em oficinas práticas, e os temas mudavam a cada semestre. Não havia regras de freqüentação em uma turma fixa, os alunos podiam transitar entre uma aula de desenho, por exemplo, e depois outra de corpo ou de grafismo. Os alunos eram chamados de “usuários”, e os professores de “educadores”. A partir de então, as artes plásticas conviviam com música, cinema, poesia, dança, e cada oficina “auto-alimentava” a outra. Além das oficinas, havia eventos como shows de música de Jards Macalé, Caetano Veloso…“Para Gerchman, a diversão e o lazer eram ferramentas educativas fundamentais”, comenta Eugenio. Ele conta que experimentos de ensino parecido como esse, existe apenas a Escola Bauhaus (1919-1933) , na Alemanha, e a “Black Mountain College” (1933-1957), nos Estados Unidos, mas no Brasil essa foi uma ideia inédita.

Como em qualquer projeto experimental, nem todos se encantam. O artista Gonçalo Ivo contou que o pai, o poeta e acadêmico Lêdo Ivo, para quem Gerchman já tinha ilustrado alguns livros e era amigo, o levou para conhecer a escola, mas Gonçalo não se identificou. “Queria uma educação mais rígida e acabei indo estudar na Escola de Belas Artes do Museu de Arte Moderna do Rio”, disse Gonçalo Ivo, e acrescentou que apesar disso, reconhece o valor inegável de Gerchman como um artista muito criativo e de grande importância histórica.
A exposição na Casa Daros não se resume aos quatro anos da gestão na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Os curadores montaram uma linha do tempo, começando pelo ano de 1966, quando é realizada a exposição coletiva “Pare”, na Galeria G4, que reuniu Gerchman, Antonio Dias, Carlos Vergara, Roberto Magalhães, entre outros, e deixava explícita a posição dos artistas de vanguarda contra a ditadura militar. A partir desse ano até chegar no período de 1975-1979, Clara e Eugenio escolheram alguns dos principais trabalhos e fatos marcantes na vida do artista, como a viagem a Nova York e, paralelamente, acrescentaram informações relevantes na história brasileira e mundial. São cerca de 30 obras originais, entre elas o “O Amor Impossível – A Bela Lindonéia”, as “caixas de morar”, os “poemas-objeto” (pocket stuff), fotos de algumas “cartilhas do superlativo”, capas de LPs de artistas do movimento Tropicalista, e as três versões originais das únicas versões que existiram da revista Malasartes, fundada por ele. A linha cronológica termina no ano de 1979, quando teve a mudança no governo e Paulo Afonso Grisolli e todo o grupo de professores da EAV foram demitidos.

Imperdível para complementar o rico material que a exposição nos fornece, é um documentário inédito sobre Rubens Gerchman, de Bernardo Pinheiro Motta e Pedro Rossi. Nele, podemos assistir ao artista falando abertamente sobre a gestão na EAV. A entrevista foi feita alguns meses antes dele morrer, um pedido dele próprio às filhas Clara e Verônica. Os cineastas também acrescentaram depoimentos de pessoas ligadas as formação da escola, e trechos de alguns curtas-metragens do próprio Gerchman e de outros artistas das décadas de 60 e 70. Mas para Clara Gerchman, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, que em 2015 completará 40 anos de criação, foi a grande obra de arte de seu pai.

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