Rubem Grilo: uma aposta na xilogravura

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Marcando uma consolidação, Museu Nacional de Belas Artes recebem 500 xilogravuras da perspicaz obra que vem sendo construída com afinco ao longo das últimas quatro décadas.

Por mais de 40 anos, Rubem Grilo vem investindo, de modo intenso, na xilogravura como meio de expressão. Recentemente, 123 de suas impressões foram reunidas em uma das salas do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) na exposição Rubem Grilo – A Trajetória do Artista, Aquisição de 500 Obras, uma síntese da produção desse gravador. A mostra foi uma etapa do projeto pelo qual o artista fora contemplado, em 2011, com o Prêmio de Artes Plásticas Marcoantonio Vilaça, e se conclui com a doação de 500 de suas obras ao MNBA. Esse novo conjunto vem somar-se às 900 outras obras que Grilo, generosamente, doou ao museu anteriormente, e que, ao lado de trabalhos de Carlos Oswald, Lasar Segall, Oswaldo Goeldi, Lívio Abramo, Ana Leticia e Edith Behring, entre outros, afirmam o Gabinete de Gravura do MNBA como o mais importante e numeroso acervo de gravuras em instituição pública no país.

Os trabalhos que agora terão preservação e visibilidade garantidas pela transferência para o museu são parte de uma obra que é produzida com consciência sobre as questões da própria linguagem. Grilo trouxe para seu percurso como gravador aquele espírito crítico em relação ao seu meio que os artistas modernos legaram às gerações seguintes. A autonomia que daí decorre opera na sustentação de uma criatividade que não esmorece, mas, ao contrário, revigora-se na maturidade da experiência, e encontra no vazio mais que uma zona de conforto, um solo fértil. E é aí que se move a linha de Grilo.

As gravuras desse artista configuram-se como a materialização do percurso de uma linha insaciável e destemida que tem no profundo interesse de Grilo pelos diversos aspectos da condição humana, seu substrato. Partindo do branco papel que vai ser conquistado pelo desenho, a linha estende-se, desdobra-se, multiplica-se e se reinventa na superfície plana da madeira, escavando um mundo cujas fronteiras estão além da racionalidade e orbita alguma instância do inconsciente. Ali, na madeira que se transfigura em espaço sem limites para a criação, o fantástico é convocado para abordar a situação do homem e seu embate com o que o rodeia, e, então, tudo é devolvido ao papel.

A trajetória de Rubem Grilo pode ser pensada em dois, ou talvez três momentos. O primeiro, entre 1972 e 1984, período em que o gravador contribuiu como ilustrador para diversos jornais, é marcado por uma produção na qual temas do âmbito do trivial são explorados em composições subjugadas por uma espécie de horror ao vazio. Criaturas que transitam entre a caricatura e o grotesco são trazidas para atuar em cenas que apresentam uma vontade surrealista, e o resultado é, quase sempre, um espelho social caótico e desconcertante, como em O mundo em desencanto, A praça, Fast-food e Aldeia global. A partir de 1985, quando a contribuição para os jornais foi interrompida, a produção passou para um novo momento, em que o aspecto subjetivo ganhou ênfase. A obra avança em direção a uma densidade introspectiva na medida em que o artista passa a buscar em si, nos assuntos em que gostaria de se aprofundar, que quer retomar, ou que, de algum modo, o inquietam, o tema para suas xilogravuras.

Uma substancial mudança na visualidade das imagens começou a apontar em fins da década de 1990 e pôde ser observada, sobretudo, nos trabalhos feitos a partir dos anos 2000. Não apenas as criaturas que flertam com o caricatural e o grotesco vão cedendo lugar a figuras de outro modo contundentes, que ostentam corpos mais lânguidos, ora estriados, ora filamentosos, mas sempre desejosos de desconstrução; como o excesso de elementos vai se dissipando nas composições, que ganham enriquecimento no contraste, com áreas de preto e branco mais bem definidas. São mudanças que implicam uma intensificação dramática que faz cada trabalho propor uma investigação acerca do que vai no íntimo de cada indivíduo.

Ainda por volta desse segundo momento, Grilo também começou a desenvolver todo um repertório de xilogravuras que nos apresentam objetos imaginários tangenciando tanto o absurdo quanto o desejável. Apropriando-se da forma de itens ordinários, o artista os transforma, com marcante ironia, atribuindo-lhes novas funções. Assim foram concebidos, por exemplo, os Óculos para ver o futuro, a Tesoura de rosca, o Auscultador de pensamentos, e a Chave do labirinto.

Um aspecto que não deve deixar de ser mencionado quando se trata da obra de Rubem Grilo é a qualidade da técnica. O esmero se evidencia já na escolha da madeira que praticamente não deixa vestígios dos veios na impressão, mas é enfatizado também pela precisão e delicadeza do entalhe que denuncia um domínio, ou melhor, uma parceria de plena harmonia com a hostil ferramenta cortante. Esse aspecto, certamente, foi um dos principais fatores a viabilizar o plausível terceiro momento: nos últimos cinco anos, em paralelo às gravuras, Grilo vem produzindo colagens que têm ampliado o trabalho por meio da introdução de cores que resultam tanto do recorte rigoroso de papéis coloridos, quanto da preservação do desenho que, na xilogravura, cede sua existência para madeira. E assim o artista tira proveito da conquistada consolidação de sua produção para reinventá-la.

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