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DASARTES 29 /

Rosana Ricalde

O trabalho da artista plástica está em consonância com uma série de práticas estéticas contemporâneas que aposta na dissolução das fronteiras entre os campos específicos.

O trabalho da artista plástica Rosana Ricalde está em consonância com uma série de práticas estéticas contemporâneas que aposta na dissolução das fronteiras entre os campos específicos e em um movimento intenso de intercâmbio – trocas, apropriações e pilhagens –, no entrecruzamento dos meios, na expansão das linguagens que ultrapassam os muros e as barras de contenção propostos pelo paradigma modernista. Essas práticas testemunham uma crise da especificidade do meio, consistentemente questionada na arte contemporânea, na exploração da sensibilidade em que noções diferentes de pertencimento e individualidade são continuamente colocadas sob suspeita, bem como a própria ideia de arte como uma coisa específica.

Glória Ferreira, curadora da mostra individual Poemas pendurados, na galeria Laura Alvim, em cartaz entre 29 de maio a 11 de agosto, fala a respeito disso no catálogo da exposição:
G.E. Lessing, do século 18, teria cólicas se se deparasse com o trabalho de Rosana Ricalde. A intenção do escritor era delimitar o mais nitidamente possível a poesia e a pintura e precisar os objetivos de cada arte por meio dos signos que lhes servem de meio – separando, assim, as artes do tempo e as do espaço.

A mostra é uma panorâmica da produção da artista, entre 2005 e 2013, que reúne ao todo 16 trabalhos, quatro deles inéditos: pintura, escultura, objeto e instalação. Quase todas as obras são construídas a partir da interseção entre literatura e artes plásticas, evidenciando a intensa influência que sua produção recebe do texto como conteúdo e forma. Ora privilegiando seu caráter semântico, ora detendo-se na materialidade das palavras ou do objeto-livro, a artista põe em relação palavra escrita e imagem, costurando o aspecto visual ao seu valor discursivo. Nesse sentido, destaca-se a instalação As palavras e as coisas, um conjunto de dezenas de pequenos cubos, feitos com tiras trançadas de texto do livro homônimo de Michel Foucault, dispostos sobre uma mesa.

Os livros são recortados, descosturados, destruídos e reconstruídos em formas plásticas diversas. O espectador, por sua vez, é convidado à experiência tanto inteligível como sensível da obra, a partir de seus signos pictóricos e linguísticos. Desestabilizam-se, assim, as noções canonicamente construídas do que seja literatura, de um lado, e artes plásticas, de outro, na formação de um produto híbrido. Como indica o comentário de Rosana: “Na minha obra, a literatura está totalmente dentro de cada trabalho, acho que, por vezes, estou fazendo literatura”. No entanto, essa confluência, outrora considerada contaminação, apresenta-se, na obra de Rosana Ricalde, como um terreno fértil para a experimentação e a discussão sobre a atividade artística.

Questionada a respeito do papel da arte no mundo contemporâneo, Rosana responde: “Acho que a arte pode ter muitos papéis nos dias de hoje. Gosto de pensar no artista como criador de uma nova língua; preciso conhecer seu vocabulário e entender com que palavras novas ele está falando do mundo. Assim, ele me apresenta um mundo paralelo ao que estou vendo”.
Artista niteroiense com ateliê em Rio das Ostras, Rosana estudou gravura na Escola de Belas Artes da UFRJ e, desde 2002, vive de sua arte. Já exibiu seus trabalhos em cerca de 20 exposições individuais e mais de 60 coletivas. Realizou residências artísticas em São Tomé e Príncipe, na Croácia e na Holanda.

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