© Foto: Mônica Zorzanelli

Umas das experiências culturais mais notáveis da última década no Brasil, e que ganha cada vez mais prestígio internacional, responde pelo nome de Museu Vale, em Vila Velha (ES).

A aposta desta instituição em trabalhos site specific ou em mostras de qualificado padrão artístico, além da implantação de um efetivo projeto educativo, nada classista, mostra uma fé e uma estratégia especial na transformação das condições humanas, digna de exemplo, e que vai além da estética. Grande responsável por essa aventura, que não deixa de ser coletiva, do compromisso adquirido pela Fundação Vale é o seu diretor, Ronaldo Barbosa.

Designer de formação pela Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), Rio de Janeiro, professor da UFES durante 27 anos, artista plástico, também cenógrafo (Museu Ferroviário, Vila Velha, e Ano do Brasil na França), desde 1998, ele vem trabalhando na ampliação de dimensões da arte contemporânea, a favor de uma maior proximidade pública e pertinência humanista, sempre com rigor e generosidade, na produção e curadoria. Desta forma, Vitória (ES) vem se transformando em um novo eixo descentralizador da cultura brasileira, e o Museu Vale, instalado em um grande galpão, em um emblema paradigmático, porque, precisamente, ultrapassa os muros do Museu.

A entrevista foi feita no próprio local, em janeiro de 2009.

O Museu Vale acaba de completar uma década, o que é significativo para o Brasil, sobretudo, em se tratando de um museu particular. Você poderia fazer um balanço das nuances e mudanças do período?
Eu resumiria esses dez anos com a palavra transformação. Penso que ela cabe neste contexto territorial onde o museu se insere, pois é uma transformação de valores, de ideias, de projetos, de vida. Jovens que chegaram aqui com nove anos, e hoje têm 19, atuaram e assistiram a trinta exposições e também um projeto de arte-educação muito efetivo, democrático, com grande diversidade temática e envolvendo diversos arte-educadores do país. Vejo que isso transformou de certa forma alguns deles. Tenho, aliás, absoluta certeza disso. Insistiria, portanto, nesta palavra: transformação.

A ressonância dos trabalhos que estão sendo feitos aqui em Vitória, fora do eixo Rio-São Paulo, chegam aos quatro cantos do mundo. Isso coloca em pauta a dicotomia local/global, cada vez mais flexível. Como você vê essa situação?
O Museu Vale foi criado para suprir uma demanda que existia na cidade. Estamos localizados no município de Vila Velha, no bairro de Argolas, numa área portuária, naquela época abandonada. Hoje pertencemos à comunidade. O trabalho que o museu executa é feito com competência, seriedade e, principalmente, com muita generosidade. Generosidade de ambos os lados, da parte do Museu e da parte do artista. Todo esse trabalho é dirigido aos bairros da Grande Vitória. Desta forma, o que é exercido localmente com seriedade tende a ser universal. É o caso do museu. Trabalhamos esse tempo todo pensando na formação de público, na construção de uma formação estética, de cidadania, da valorização do indivíduo, do ser humano, da capacidade que cada um tem de se renovar. Estamos pensando sempre nesse público que nos frequenta. Isso que você coloca é um fato! Produzimos Babel, de Cildo Meireles, aqui. Pela primeira vez esta obra foi construída no Brasil, e seguiu para a retrospectiva do Cildo, no Tate Modern, inaugurada em outubro de 2008. Isso é uma resposta a esse trabalho territorial, local. Estar fora do eixo Rio-São Paulo não é um impedimento, pelo contrário, é um circuito transversal, num território onde normalmente esse produto não circula. Tanto a demanda como o consumo são extremamente legítimos.

Parece claro que a experiência artística não está muito distante de um desenvolvimento humano. O que você pensa a respeito?
Nós acreditamos, cada vez mais, que a arte é fundamental para o ser humano e não é somente uma informação residual de cada pessoa. A função estética é um item primordial na educação. Tão importante como a alfabetização, a saúde e a cidadania. Por outro lado, acho que o Museu Vale tem um caráter muito específico: o de deixar o artista atuar livremente dentro do espaço, interferindo na arquitetura do galpão, na sua estrutura, na convivência com a paisagem, o que é muito desafiador para eles. A possibilidade que o museu oferece, da criação de um novo trabalho, site specific, totalmente pensado a partir deste espaço, permite novas experiências estéticas, tanto para os artistas como para o público, criando assim uma nova possibilidade do público relacionar-se com a obra dos artistas; e, portanto, permitindo essa importante formação do desenvolvimento humano.

Em que momento você posicionou o Museu Vale como um site specific, que remete à noção de arte pública, realizada fora dos espaços convencionais?
Esta posição foi sendo consolidada com o tempo, com a nossa própria experiência. Entre 1998 e 2000, recebemos itinerâncias, numa pequena sala que não era o galpão ainda. Fizemos várias exposições, na hoje chamada Sala de Exposições Temporárias, que ocupava o prédio antigo do museu. A primeira exposição de fato que fizemos nesta sala foi Os Multiplos de Joseph Beuys – determinante para o núcleo de arte contemporânea que queríamos criar aqui. Depois fizemos Fantasma, de Antonio Manuel, e tantas outras, de artistas como José Damasceno, Artur Omar e Leda Catunda. Foram situações muito particulares, em que os artistas se encantavam por ser uma nova proposta dentro do contexto de um Museu Ferroviário. A Sala de Exposições Temporárias tornou-se hoje muito especial, pois além de sua escala ser interessante, está no prédio da antiga Estação. Há nove anos, inauguramos o galpão, e já estávamos entrando numa outra dimensão, com uma demanda do próprio espaço. O caráter do espaço – sua escala portuária, os materiais de revestimento, etc. – demandou sites specifics, e a partir daí ele foi se construindo como um lugar próprio, com uma identidade própria, razão pela qual é tão desejado pelos artistas cujos trabalhos se enquadram nesta vertente da arte contemporânea. Além de, sem dúvida, ser um lugar de experimentação e desafio para os artistas.

Neste contexto, o artista faz a leitura do espaço, da arquitetura e também das características ambientais e sociais que só existem aqui. E é interessante ver os trabalhos contaminados pelo contorno.
Sem dúvida, o universo portuário é uma grande questão para os artistas. O contexto e a escala em que o trabalho se desenvolve são fatores importantíssimos para a criação. Além disso, nossos vizinhos e toda a equipe do museu gostam muito de ver as montagens. Na montagem do Eduardo Frota, por exemplo, chegamos a um ponto em que, nos finais da tarde, ele dava verdadeiras palestras para todos: jardineiro do museu, os operários do porto, assistentes de montagem, funcionários do museu… Todos os dias havia um público novo. Existe, portanto, um caráter específico, tanto do ponto de vista da condição territorial quanto dos artistas que passam por aqui. Nas intervenções do espaço arquitetônico, alguns absorvem bem este contexto portuário.

O programa educativo do Museu Vale inclui as classes sociais menos favorecidas e vai além do politicamente correto, de contratar alguns monitores e um pouco mais. Gostaria que você falasse um pouco sobre isso, que vem sendo apontado como um dos alicerces de todo um projeto.
Temos um projeto educativo muito efetivo, que desde o início vem se transformando com a maturação diária. Este programa é muito democrático e nós não temos um modelo de projeto impositivo, pois cada artista que pisa aqui determina como gostaria que seu trabalho fosse absorvido e entendido pelas crianças e jovens que dele participam. Sendo assim, ele indica um arte-educador ou um artista que tenha uma familiaridade com sua obra, ou ele mesmo faz o projeto, ou nos deixa livres para propor. Neste caso, não temos uma metodologia específica, e é daí que vem a riqueza deste sistema. Isso nos traz uma dinâmica muito interessante. O museu tem que se reposicionar no seu núcleo de arte-educação, junto aos seus monitores, constantemente, pois a cada exposição surgem questões com linguagens próprias de atuação. Quem ministra os workshops são sempre estudantes universitários, orientados por esses diferentes artistas ou arte-educadores. A monitoria fixa recebe o público em geral e também escolas não inscritas nos workshops. Recebemos em média 3.500 alunos por mês, dos quais 1.500 participam dos workshops. Antes de começar os workshops, recebemos também os professores, cujo encontro com os arte-educadores é fundamental. Ao final fazemos uma exposição do resultado desses trabalhos, com uma museografia tal e qual exigem os padrões de qualidade que seguimos em nossas exposições.

O Programa Aprendiz define muito essas intenções?
Esse programa é realizado com jovens dos bairros vizinhos ao Museu Vale que acompanham as montagens das exposições junto às equipes de profissionais. Os aprendizes participam de todos os itens que envolvem uma montagem expositiva, como pintura das paredes, carpintaria, iluminação, montagem das obras e cenografia, entre outras etapas. Alguns deles já foram absorvidos por equipes de montagens e outros, após esta experiência, começaram a trabalhar em outras áreas.

Surpreende o fato de tudo isso estar sendo feito com arte contemporânea em vez de arte graficamente clássica?
Isso nos surpreende e nos transforma muito. Eu mesmo sou um elemento que participou dessa transformação. Nestes dez anos, o meu modo de pensar a arte contemporânea mudou muito. A minha maneira de ver e de senti-la é outra e, por isso, me incluo totalmente nesta transformação. Hoje acredito que existem dois paradoxos muito claros, o verdadeiro e o falso. Penso que para ser entendida e consumida, a verdadeira arte não precede de história, de informação.; E não é necessário o entendimento do processo universal da história da arte para que uma família de periferia goste e interaja com a verdadeira criação artística aqui exposta. Penso que se ela é verdadeira, atinge de alguma forma. O que fazemos aqui é tentar achar este caminho, é tentar mostrar esta verdadeira obra, este verdadeiro artista para que com o seu trabalho, possa nos ajudar a transformar as pessoas, o mundo, dando um sentido melhor e mais gratificante àquilo que chamamos de vida.

Em 2008, participei de um evento do Museu Vale e vi que houve uma reclamação de não haver obras de acervo. Deixar os eventos, as publicações, as experiências artísticas no imaginário do público, mas não sendo algo fisicamente permanente, representa um problema?
Ultimamente essa questão do acervo de arte contemporânea em museus vem sendo discutida amplamente em todo o mundo, visto as mutações da própria arte contemporânea, assim como a materialidade das obras. No caso do Museu Vale, não o vejo como um museu para construir acervo. Somos um conjunto de elementos que estão ligados entre si, tais como o Centro de Memória da Estrada de Ferro Vitória a Minas, o acervo ferroviário, educação patrimonial, os programas de arte-educação e Aprendiz, os Seminários Internacionais, que buscam uma reflexão atual sobre arte e filosofia, as exposições de arte contemporânea produzidas especialmente para o galpão. Enfim, vejo o museu como um espaço fomentador de conhecimento e informação, vivendo novas experiências estéticas no campo da arte contemporânea, com uma perspectiva de futuro muito clara e objetiva, com resultados significativos de transformações, inclusão social e cidadania. O Museu Vale está fisicamente permanente em todas as suas ações.

Como vocês organizam os Seminários Internacionais Museu Vale e de onde veio a demanda por esta atividade de pensar a arte de forma contemporânea?
A necessidade de falar com o mundo acadêmico primeiramente, veio de uma demanda legítima da própria comunidade que não tinha um evento como este – que formulasse questões do universo da reflexão da arte e da filosofia. Veio também da necessidade de falar com os professores do ensino médio e fundamental, além dos universitários. Acreditamos que pensando juntos tornaríamos nossas questões cotidianas

mais compreensíveis; ou pelo menos isso nos daria um distanciamento melhor para atuarmos nas escolas. E assim começamos o primeiro Seminário, puramente filosófico, chamado ‘Arte no Pensamento’, que consistia em estudar como o Ocidente, em suas épocas Antiga, Moderna e Contemporânea, pensou a arte. Os Seminários são hoje um evento inserido no calendário nacional com grandes nomes da atualidade e com uma diversidade de temas muito interessantes. Estamos agora na sua quarta edição, onde vamos discutir ‘Criação e Critica’. A predominância do público jovem e atento cada vez mais nos atesta a falta desta discussão na cidade. Todos os eventos são coordenados pelo filósofo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Fernando Pessoa, em parceria com um organizador convidado. Para este evento as 500 vagas foram preenchidas em seis horas de inscrição. Isto é motivo de muita satisfação para a Fundação e para o Museu Vale, acreditar que estamos cumprindo com nosso papel social em todas as camadas da sociedade.

O museu faz parte da Fundação Vale, certo? Gostaria de saber como funciona essa articulação.
O Museu é um projeto da Fundação Vale, que tem inúmeros projetos nas áreas de economia territorial, educacional, cultural e de esportes. O Museu Vale é um eixo de um dos objetivos da Fundação Vale na área cultural. A Fundação Vale tem projetos em vários pontos do país, onde trabalha pelo desenvolvimento das comunidades em que está inserida, contribuindo para fortalecer os indivíduos e respeitando as identidades culturais de cada região, reforçando sua postura na cultura como meio de expressão da identidade, da história e da alma de cada região do país.

Uma última pergunta: Você considera que a cultura por extenso vem sendo tratada de forma diferente no país, contemplada oficialmente com outro objetivo?
A arte é essencial à vida. Nossa experiência de dez anos nos mostra claramente que as transformações que o nosso público vem passando são extremamente importantes e benéficas em todos os sentidos, por mais subjetivas que sejam. Fazem bem à criança, ao jovem, assim como à sua família. Todos vêm ao museu e são beneficiados com as experiências vividas aqui. Estou falando de uma visitação espontânea, cujos dois terços são das classes C, D e E. São os chamados valores intangíveis, tão importantes num projeto como o do Museu Vale. É claro que o desenvolvimento cultural brasileiro ainda deixa muito a desejar, mas vejo algumas mudanças, como as descentralizações que o governo vem propondo. Isso é saudável! Vivemos num país continental, com grandes diferenças culturais. É de fundamental importância também que a iniciativa privada participe desta mudança, levando informação para os quatro cantos do país.

 

 

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