Obra: Red Sand, 2012

“Gosto de uma frase do Jean-Luc Godard, em que ele diz: ‘Se o cinema desaparecesse, eu me resignaria e passaria à televisão. E se a televisão desaparecesse, eu voltaria ao papel e ao lápis.’ Antes de se referir a qualquer forma, ele enfatiza a intenção. Esta como uma necessidade anterior ao objeto, que é, indubitavelmente, uma consequência. Comecei minha formação pensando em trabalhar com pintura e desenho, mas, aos poucos, passei a me interessar por intervenções urbanas e performance: um dos meus primeiros trabalhos começou com intervenções sutis na minha casa e na cidade, que se desdobraram em um projeto chamado Museu invisível, cuja ideia central era questionar formas de apresentação e veiculação da arte. A fotografia veio depois, de maneira um pouco tímida, como registro de ações e outros trabalhos, e aos poucos foi tomando um papel central.

Minhas referências vêm de campos diversos, como literatura e cinema. Jorge Luis Borges e Bioy Casares – estou lendo a Invenção de Morel – são dois escritores que atualmente estão na minha cabeceira; e, no cinema, meu interesse é uma mistura de nouvelle vague com sci-fi. Também tenho olhado para alguns artistas da Escola de Fotografia de Düsseldorf e para o Giotto. Gosto de contrapor certos sistemas e pensar em perguntas que ainda estão sendo respondidas por diferentes artistas e sistemas de representação.”

Obra: Lost Utopia, 2012

“Fordlândia é uma cidade nas margens do rio Tapajós e foi palco de uma das maiores aventuras de Henry Ford, que construiu nos anos 1920 não apenas uma fábrica de borracha mas também uma pequena cidade para recebê-la. Impondo modos de vida americanos, criou uma cidade diferente do contexto local, com ruas pavimentadas, escolas, campo de golfe e até mesmo hidrantes. Mas a utopia amazônica durou pouco. Os operários brasileiros não se adaptaram às severas condições de trabalho e ao modo de vida importado dos Estados Unidos e, em poucos anos, as plantações de seringueiras foram extintas pela falta de planejamento. Não posso produzir um trabalho e ser apenas uma observadora, interesso-me por lugares, reais ou fictícios, que impulsionam minhas próprias utopias. Ford trouxe para a Amazônia não só uma cidade inteira, mas também um modo de vida americano que os trabalhadores brasileiros tiveram que se adaptar. Por exemplo, em vez de caçar e pescar, eles tinham que comer enlatados trazidos os Estados Unidos. Claro, essa adaptação não aconteceu e um dos fracassos de Fordlândia também foi a dificuldade de encontrar operários para trabalhar nas fábricas, pois a maioria não se submetia a esse colonialismo.”

Obra: Aparatos naturais, 2013

“Pra Frente Brasil foi uma obra comissionada para o projeto Encontros na ilha, da 9a Bienal do Mercosul (2013). A ideia do projeto foi reunir um grupo de artistas e intelectuais para produzirem reflexões e trabalhos sobre a ilha da Pólvora, em Porto Alegre, que foi, entre outras tantas coisas, um presídio na época da ditadura no Brasil. Quando recebi o convite para participar do projeto, as especulações sobre a Copa do Mundo de Futebol cresciam exponencialmente e a homogeneização midiática da imagem do Brasil como o país do futebol me causava repulsa, principalmente por essa estratégia já ter sido utilizada pela ditadura. A vitória da seleção brasileira em 1970, na Copa do México, foi utilizada como instrumento de propaganda do regime militar. Enquanto o povo festejava com a melhor seleção de todos os tempos, os presos políticos eram torturados e mortos, e a censura à qualquer manifestação contra o governo era reprimida com violência.”

Obra: Para frente Brasil, 2013

“Em um site meteorológico encontrei relatos de que a aurora austral foi vista no interior do Rio Grande do Sul, em 1870. Essa hipótese, sem evidências científicas plausíveis, levou-me a criar um projeto chamado Notícias sobre o fim do mundo, no qual procuro reconstruir ficcionalmente territórios e situações geográficas. Em Aparatos naturais, um desdobramento desse projeto, misturo fotografias de dioramas de paisagens do Sul do Brasil com fotografias de dioramas de paisagens glaciais e vulcânicas. Essas paisagens ficcionais representam geografias impossíveis que existem como ficções de territórios inventados.”

 

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