© Edouard Fraipont

Rommulo Vieira Conceição
Por Agnaldo Farias

O currículo do artista Rommulo Vieira Conceição não omite sua formação em geologia, seu doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em associação com a Australian National University, de Canberra, mas exclui por completo sua atuação como professor na área de Geociência junto à instituição gaúcha. Aparentemente, esse cuidado se deve ao desejo de diferenciar as duas carreiras, tornar nítida suas diferenças, tratar sua dupla formação como mais um caso de dissociação profissional, como o poeta Wallace Stevens, que era presidente de uma companhia de seguros, ou o maestro Klaus Dieter Wolff, que ganhava a vida como dentista. Lido diagonalmente, a insipidez do texto curricular de Rommulo faz crer que suas duas faces não se comunicam, mais um caso de xipofagia profissional em que as partes não entram em acordo, de resto um fenômeno dos mais comuns neste mundo onde somos levados a associar sobrevivência e bem-estar com consumo excessivo.

O exame da pesquisa poética de Rommulo, contudo, leva a uma conclusão muito diferente, dado que se fosse necessário buscar uma palavra para sintetizá-la, a primeira delas talvez fosse interdisciplinaridade, junto com ela seguiria sobreposição, justaposição, dobra, espelhamento, camadas, tudo quanto possa sugerir uma convivência complexa de sistemas de naturezas, funções e significados distintos, como arte e ciência, instalação e design, projeto e produto, matéria e imagem.

No âmbito da sua intrincada produção tridimensional, o artista nos oferece um vasto conjunto de ambientes interpenetrados: cozinhas, escritórios, quartos de dormir, parques de diversões, bancos, supermercados, todo um repertório de espaços domésticos e equipamentos públicos embaralhados, trespassados, como submetidos a uma pressão violenta e súbita.

Como desvendou Baudrillard em seu O sistema de objetos, famílias de móveis e objetos se articulam na constituição de ambientes que nada mais são que a ordem social de uma época devidamente materializada. A sintaxe de uma cozinha, de um playground ou de um quarto pode se estender em uma infinidade de componentes, dispositivos, ferramentas, objetos, todos continuamente reprojetados no ritmo das descobertas e depurações das funções que prestam, dos novos programas de necessidades, ou simplesmente das mudanças estilísticas que decorrem da moda e, consequentemente, da lógica implacável da obsolescência programada. Mesa, cadeiras, fogão, armários, pratos, copos, talheres, parede, ladrilho, fórmica, tijolos, piso vitrificado; gangorra, balanço, trepa-trepa, cerca, madeira, metal, grama; cama, escrivaninha, guarda-roupa, mesa de cabeceira, luminária, papel de parede, tapete etc., os objetos vão se ajeitando, encontrando seu espaço, empilhando-se, engatando-se, guardando distâncias entre si de modo a salvaguardar os passos, trejeitos, poses e posições, enfim, os movimentos e as posturas relativas aos corpos dos usuários. São, por isso mesmo, antropomórficos, razão pela qual Roland Barthes defendia os objetos como “a assinatura do homem no mundo”.

Em lugar de se destruírem em virtude dos abalroamentos propostos pelo artista, em vez deles restarem destroços e estilhaços, os ambientes se atravessam para se reorganizarem em novas configurações, físicas e simbólicas. O resultado é semelhante às formidáveis colisões de placas tectônicas, às tensões de cisalhamento ensinadas aos alunos ingressantes do curso de Geologia; às forças inauditas que encrespam a superfície da terra ao longo de séculos e que depois adormecem sob a capa de vegetação, fazendo-nos esquecer as furiosas tensões entranhadas.

Rommulo desfuncionaliza, inviabiliza os objetos afastando-os do design e fazendo-os rumar em direção à arte, uma aproximação reforçada pelo recurso a um excesso de estetização, expresso em cores intensas, exclusivamente primárias e complementares, aplicadas em superfícies laqueadas, reluzentes e irreais como maquetes eletrônicas. Maquetes que ele constrói na qualidade de etapa e produto de um processo rigorosamente calculado. O artista chega até elas como desdobramento de delicados desenhos executados digitalmente. E é justamente nesses projetos que reside o germe do seu singular raciocínio projetual: elaborados em camadas de folhas de papel transparente, primam pelo mesmo acabamento rigoroso dos objetos e também, como não poderia deixar de ser, pela mesma sorte de incongruências, incorreções, subversões da perspectiva geométrica, enfim, perturbações dos padrões de representação com os quais intervimos no mundo. Trabalhando no corpo das representações, Rommulo Conceição, cientista e artista, demonstra a maleabilidade e as imponderabilidades passíveis daquilo que o senso comum tem na conta de exato.

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