© Cortesia do artista

Como você encontrou esse lugar e como se deu o processo de transformação no Ateliê Mata Adentro?

No antigo ateliê, fiz uma exposição chamada Mata Adentro, que já foi o resultado de uma coleta gigante de materiais das ruas com os quais fui construindo suporte para pinturas, instalações e objetos. Essa exposição teve a presença de vários músicos que frequentavam minha casa, literatura, poesia, todos os elementos vivos, muita interação com o hip hop, com a cultura de rua. Conforme fui me aprofundando na cultura de rua, foi se formando a ponte com esses elementos vivos, e me dei conta de que nada existe independentemente – a coexistência é a palavra-chave. A partir daí, o ateliê cresceu e tive que buscar uma oficina para estocar essa abundância de materiais que existe na rua. Mudei para esse grande galpão na Lapa, um prédio trabalhado em peroba, telhas de cerâmica, e com muita luz natural. Acabei quebrando o chão para poder ver a terra, pois queria ver brotar a força da natureza debaixo daquele cimento. Na verdade, o trabalho vem dessa inspiração, dessa rachadura do concreto de onde brota essa espontaneidade de vida.

Sendo espaço de trabalho e também sua casa, como você se organiza quanto ao que é rotina do âmbito doméstico e o que é trabalho?

Reduzi minha casa a um espaço bem retraído, que é o mezanino. É a parte mais íntima à qual pouca gente tem acesso – um quartinho monástico, banheiro e uma cozinha em estilo loft. A parte de ateliê é grande, onde posso experimentar as instalações e tem uma oficina ampla. O espaço é sempre mutante e tudo vai se renovando de acordo com os projetos ou com a exposição.

Com relação aos materiais com os quais trabalha, você sai pesquisando, buscando por eles ou recolhe o que vai encontrando? Que aspectos nesses materiais costumam lhe interessar mais?

No começo, davam-se encontros com esse material. Eu virava a esquina e me deparava com dejetos enormes, árvores caídas, caçambas. Mas as pessoas veem essas coisas, reconhecem meu trabalho e acabam me avisando, como alguns arquitetos que me ligam de obras para falar que vão desmontar um armário e a madeira vai para a caçamba, então recolho. Prefiro materiais de qualidade, como madeira de lei, maciça. Mas mesmo as lascas dos tapumes e o bolor começaram a fazer parte da situação, e sua própria fragilidade, a vida que o material tem, desde o simbólico até a aparência. Quanto mais solidez e mais história, melhor.

Fale um pouco sobre a interação entre planta e objetos, como em Mobília Tomada.

Quando a gente vê uma mobília plantada, há uma coerência estranha, pois parece que tudo se pertence. E como não estava lá antes? A primeira surgiu em um insight, quando encontrei uma cadeira na rua com um estofado tão colorido e bonito quanto uma planta que eu tinha acabado de adquirir. Parecia que a estampa estava brotando. Juntei uma coisa com a outra e fez todo sentido. Comecei a regar a planta e nasceram cogumelos espontaneamente, então resolvi adicionar insumos, instigar e proteger para ver se um sistema de vida surgia.

Em que momento se encontra sua pesquisa? O que você está produzindo?

As esculturas têm me chamado a atenção. Estou com vontade de trabalhar com as imagens de santos, que estão sendo frequentemente destruídas por evangélicos. Mas tenho uma pesquisa voltada para iniciativas socioambientais, e há uma responsabilidade educativa no trabalho, então fui convidado pelo SESC Interlagos para montar um programa para educadores sobre como aplicar as diferentes iniciativas ambientais na vida prática.

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