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A primeira coisa que você falou quando eu entrei no seu ateliê foi: “bem-vinda! Aqui está o túnel do tempo”.

Sim, em virtude das pinturas que você está vendo aqui. Quando saíram as pinturas para a exposição, o ateliê ficou vazio. Foi uma oportunidade para eu tirar algumas antigas e ver o estado delas. Duas precisavam de restauração e, como havia clientes da galeria querendo ver outras obras, tirei algumas coisas e ficaram telas de períodos muito diferentes entre si. Tem telas de 1983 a 2002, várias épocas. Ver todas ao mesmo tempo está interessante.

Ontem, na galeria (durante uma apresentação feita ao Núcleo Contemporâneo do MAM), você estava contando que gosta muito de trabalhar hoje com one shot painting. O que é isso?

Essas pinturas que eu faço são figurativas e têm dois momentos. Eu faço a pintura, passo o rodo em uma mancha e faço a onda, e é em um gesto só. Eu deposito a tinta, de acordo mais ou menos com as variações de cores que eu desejo, e depois é em uma passada de rodo só que a onda se forma. Nesse sentido que é one shot, é em uma passada, uma “tacada”.

Com essa espessura que usa de material, você cria um corpo em suas obras de um jeito que elas passam a ser, na minha percepção, uma transição entre um objeto e uma tela. É proposital essa alteração física de espaço?

Sim, eu tenho essa noção de como funciona espacialmente meu trabalho, e acho que você está falando de espaço mesmo. Essa coisa física que traz um resultado. Nas minhas pinturas, as imagens têm um poder ilusionista forte, até pelo realismo, por serem baseadas em fotografias, e isso dá à imagem o poder de ilusão, onde ela cria um mundo virtual, que é impalpável. E a coisa corpórea rompe isso. A interseção entre o objeto e a imagem tem a ver. A imagem, uma fotografia, e a imagem que é luz com a materialidade do objeto.

Como você trabalha a luz dentro de suas telas? Você falou de escuro, monocromático, falando de mata e da escuridão que a própria fotografia traz para você, e como a luz tem que ser recolocada em uma abstração de escuridão. Você planeja isso?

Não, eu imagino tudo antes. É o que faz um pouco a ideia dos quadros, como vai funcionar a massa de preto lá com as áreas de luz. É como transformar uma imagem em uma pintura. A imagem você pode ter em uma tela, uma coisa virtual, mas a fotografia, por exemplo, quando muda a luz, fica igual aos olhos; já a pintura, quando muda a luz do ambiente, ela muda, é sensível à luz do local, um corpo dentro do mundo real.

Com quantos anos você começou a pintar? Quem foram seus professores?
Com uns 8 anos já fazia minhas primeiras telinhas. Eu já me imaginava nesse caminho, nunca tive problema vocacional, eu queria ser artista desde criancinha. Só tinha dúvida se eu queria ser pintor ou desenhista de história em quadrinhos. Eu cheguei a fazer uns quadrinhos na adolescência. Não estudei arte, mas frequentei o ateliê de um artista chamado Sergio Fingermann, que foi meu professor dos 15 aos 18 anos, e foi com ele que entrei no mundo da arte. Eu vim de uma crise, saindo de história em quadrinhos, de um desenho graficamente com muita técnica, e ele puxava um lado poético, a poética de fazer arte. Isso me deixou ao mesmo tempo encantado e com valores diferentes. Depois, fui tendo referências como o Felipe Guston, acho que um dos mais importantes e a influência mais perene, alguns da transvanguarda, como Julian Schnabel, Anselm Kiefer, Jean-Michel Basquiat, Markuz Lubertz, que teve um momento na Bienal de 1983 forte pra mim.

Quem foram suas referências quando começou?

Então, tenho algumas afinidades, como Correaux, desde sempre viajo e procuro coisas dele. Tenho muitas referências, gosto de muitas coisas, e essas referências vêm do amor pela pintura. Minhas obras falam claramente desse meu amor pela arte.

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