Nascida em Belo Horizonte, Rivane Neuenschwander faz parte do primeiro grupo de artistas contemporâneos brasileiros cuja projeção internacional ocorreu junto com o reconhecimento de sua obra no Brasil.

Em 1996, a jovem artista, ainda cursando seu mestrado em Belas Artes na renomada escola Royal College of Arts de Londres, produziu uma exposição individual na galeria de arte Triângulo em São Paulo e, em seguida, na Stephen Friedman, em Londres. Após mais de uma década de produção intensa, com exposições ao redor do mundo, a artista é consagrada com uma exposição individual no New Museum em Nova Iorque.

A obra de Rivane seduz pela simplicidade, sensualidade e poética. A artista busca dar um novo significado e ordem a pequenas coisas do cotidiano utilizando a linguagem, isto é, códigos de representação como palavras, mapas e calendários. Rivane utiliza diversos meios artísticos como filmes, instalações, fotografias, objetos, colagens ou desenhos ao longo de sua prática.

Love Lettering* [2002) , co-autoria com Sergio Neuenschwander, é um filme cujas imagens são capturadas num aquário repleto de peixes que carregam recorte de papéis. Cada pedaço de papel contêm palavras de afeto, tais como Love, Sweet, Dear, Mouth. Ao primeiro olhar do espectador, as palavras não estão correlacionadas, mas, aos poucos, com a movimentação dos peixes, as palavras começam a formar frases ou significados, revelando o teor de uma carta de amor num vai e vem de significados. Ditados pelo movimento dos peixes, isto é, pela forçaa da natureza, a artista deixa um espaço ao acaso e as surpresas da vida para formar uma memória literal envolvendo o espectador de forma altamente poética e sensual.

Na sua prática, também existe uma relação muito importante entre linguagem e comida, percebida em Alfabetos Comestíveis (2001). A obra é composta por pinturas abstratas feitas de linhas horizontais constituídas de pó de variados alimentos como açafrão, mostarda e pimenta, ordenados alfabeticamente. O espectador experimenta os alimentos com os olhos, pois não existe nenhum sinal evidente das qualidades dos materiais, a não ser a variação de cor. De uma forma mais explícita, em Carta Faminta (2000) as lesmas são o agente devorador. Colocadas pela artista em uma caixa coberta de folhas de papel de arroz, estas consomem devagar e irregularmente o material. O resultado final são mapas imaginários produzidos pela ingestão do papel pelas lesmas. Dessa relação, fica evidente o diálogo da artista com os neoconcretistas e conceituais como Lygia Clark, Lygia Pape e Cildo Meireles, relacionando sua obra com o canibalismo, a antropofagia e sensorial. Mas sua obra não se limita a essa relação, a artista busca usar os elementos mais simples para sugerir questões complexas, permitindo ao espectador a percepção de alguns detalhes de nosso mundo que nos podem passar desapercebidos.

A exposição do New Museum incluirá mais de 250 desenhos, fotocolagens, pinturas e instalações. Em muitas destas obras, a natureza é central. Nela, e através dela, a artista encontra uma forma de expressar e propôr as questões de temporalidade e mobilidade, como em Rain Maps, em que mapas são expostos às chuvas fortes do verão brasileiro. A água dissolve fronteiras, forma rios e faz desaparecer terras, lembrando quão frágeis são os territórios demarcados pelo homem frente à potência da natureza. A chuva reaparece em Chove Chuva, mas desta vez para demarcar o tempo: o lento gotejar da água que pinga de baldes pendurados no teto para outros, no chão, marca sua passagem, com o barulho das gotas mudando à medida em que os baldes de cima esvaziam, enchendo os de baixo. O tempo, aliás, dá o nome à mostra: Um dia como outro qualquer. Relógios espalhados por vários ambientes marcam meia-noite e despertam no espectador a ideia de que nosso tempo é definido pelos eventos de nosso cotidiano, e não pelas horas demarcadas pelo calendário.

Outra questão abordada em sua prática é a da autoria da obra, seja pela co-autoria ou pela participação do próprio publico. Eu desejo o seu desejo (2003) é uma instalação composta por milhares de fitas coloridas do Senhor do Bonfim alteradas e que incorporam desejos de pessoas. Presas em buracos da parede da sala expositiva, a artista convida o espectador a “desejar o desejo de outra pessoa” no momento que ele passa a usar a fita. Da mesma forma, ele é convidado a colocar um papel no buraco da parede com seu desejo, para que em futuras instalações, seu desejo seja impresso em uma fitinha de cetim e uma nova pessoa passe a desejar o mesmo. Dessa forma, os visitantes completam o trabalho, oferecendo meios de interação e ativação do público com a obra, ao mesmo tempo em que é gerada uma relação de intimidade.

Entre as outras obras expostas no New Museum, estão a famosa As mil e uma noites possíveis (2008), as colagens de pedaços do livro Arabian Nights que formam constelações, e A Queda, um filme que mantém o espectador em constante tensão ao mostrar o ponto de vista de alguém que equilibra um ovo em uma colher. As muitas obras ocupam o terceiro e quarto andares do museu, um vasto espaço invadido pelo desejo desta brasileira tão internacional de apresentar, de forma sutil e delicada, a importância das pequenas coisas da vida.

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