© Estrutura Arquitetônico escultórica, 2014

Tenho interesse em perceber como o visitante se move no espaço expositivo. Mais do que isso, criar diretamente modulações em seu caminho – portas, obstáculos, elementos de repouso e utilização –, de modo que o espectador seja imediatamente confrontado com a necessidade de empreender ações físicas (“atravessar, saltar, sentar”, por exemplo), sendo conduzido a uma condição de “performance compulsória”, sem a qual não há fruição. A experiência estética se confunde com ação motora, muscular e o espectador se vê no risco de esbarrar nos trabalhos, encostando a pele no metal frio. Fico na expecativa de que esse visitante seja assim arrancado de um anestesiamento qualquer e se deixe ativar pela pulsação rítimica do trabalho. A sensorialidade aí envolvida não é 100% amigável; é importante provocar o visitante já na entrada da exposição para que conduza sua visita sob o impacto do percurso proposto – seguindo mais lento ou mais acelerado, mas nunca com o mesmo ritmo com que chega da rua. Nesta imagem pode se ver ao fundo um texto para ser vocalizado, envolvendo a possibilidade de fala – penso a obra de arte como dispositivo para provocar discurso, conversa manifestações vocais.

Esta imagem mostra uma situação muito especial: todos os três elementos da sala estão inter-relacionados – a peça de metal (em primeiro plano) foi construída como módulo de escuta, onde se pode ouvir a peça sonora, que por sua vez está em diálogo direto com o diagrama na parede. Colocar as três camadas de linguagem funcionando em conjunto é uma situação que me interessa, por permitir que os elementos visuais deslizem e sejam modulados pelo impacto do som, ao mesmo tempo que o módulo de escuta acomoda o corpo, posicionando-o no espaço da sala, fazendo com que se olhe ao redor, integrando o diagrama na arquitetura. A utilização dos fones de ouvido promove uma ação de escuta de olhos abertos, com as diversas camadas de linguagem rebatendo umas nas outras. Tenho utilizado as interjeições “oh!” e “ah!” em alguns diagramas recentes, como modo de indicar reções básicas de surpresa e espanto, antes mesmo da articulação de qualquer outra palavra. Mas, desta vez, tanto no diagrama quanto na peça sonora, decidi homenagear Hélio Oiticica (oh) e Alex Hamburger (ah), fazendo referências cruzadas a ambos e propondo que se perceba de que modo cada um se inventou como artista, discutindo a imagem e a mitologia do artista contemporâneo.

Penso os trabalhos da série “eu-você: coreografias, jogos e exercícios” como ações em torno de dinâmica de grupo: as atividades propostas se iniciam com situações a partir das quais se pode constituir um grupo; em seguida, o trabalho se desenvolve e se torna mais intenso a partir do momento em que cada um se percebe imerso na prática coletiva. Muitas vezes desenvolvemos coreografias a partir de diagramas: há uma série de nove diagramas que utilizo especialmente na série “eu-você”. Além disso, uma câmera circula de mão em mão, permitindo que se produza um vídeo das ações – não como simples registro, mas enquanto trabalho autônomo, derivado das ações. Já realizei etapas desta série no Brasil, na Espanha, Inglaterra, China, nos Estados Unidos, na Holanda, sempre com resultados interessantes. As camisas com os pronomes “eu” (vermelha) e “você” (amarela) já foram impressas em português, inglês, chinês, bengali e árabe, sendo esperadas novas traduções à medida que o trabalho se expande.

As conversas coletivas surgiram da necessidade de reconduzir questões da área da música e som para regiões centrais de minha prática. Trabalhei com música nos anos 1980, junto com Alexandre Dacosta, quando formávamos a Dupla Especializada; mas, depois disso, a sonoridade permaneceu um pouco lateral, sendo reconstruída aos poucos. Inicialmente, fui ativando a pulsação rítmica das instalações, a partir da condução do visitante pelos percursos propostos pelas estruturas arquitetônico-escultóricas. Depois, passei a mobilizar camadas de texto, principalmente enquanto oralidade, nos revezamentos texto/voz. São três as etapas envolvidas nas conversas coletivas: (1) produção conjunta de um documento; (2) leitura pública e gravação; (3) finalização de peça sonora e seu retorno à instalação. Esse procedimento é um modo de se produzir uma mediação discursiva coletiva, enquanto ativação do trabalho e região de multiplicação de fala.

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