Ricardo Basbau, ampliando experimentação

© Ricardo Basbaun

Penso que “o exercício experimental da liberdade”, anunciado por Mário Pedrosa em 1970, tem encontrado obstáculos no repertório das poéticas contemporâneas. Confundida entre obras interativas que lembram parques de diversão, bienais que “expõem” o vazio como espaço (infundado) de reflexão sobre as práticas curatoriais ou performances que dialogam com o insosso tema da comercialização do discurso do corpo, a experimentação está correndo o risco de ter o seu repertório diminuído ou questionado. Por outro lado, as investigações sobre a natureza do objeto de arte e a mobilidade entre ficção, verdade ou mentira por meio da escrita criando um campo ilusório de impermanência fazem com que a obra do artista Ricardo Basbaum dialogue com um território de probabilidades ou uma ambiguidade de situação capazes de estimular o sentido da experimentação.

Na década de 1990, Basbaum desenvolve a ideia das Novas Bases para a Personalidade (NBP x Eu-Você). Nessas jaulas convidativas ao descanso, onde relações interpessoais são disseminadas com a presença de almofadas e bate-papos, não se tem uma contradição, mas uma consonância com pesquisas artísticas que estavam pensando o lugar do corpo, do espectador, do mercado e do objeto. Apesar de o contexto ser diferente, essas obras-propostas adotam o corpo como entendimento participativo e emancipador da arte (possibilidade estética apontada por Oiticica, Clark e Pape nos anos 1960). No caso de Basbaum, mais do que uma investigação sobre a natureza da Arte, seus objetos promovem um estado híbrido de coexistência na medida em que o “habitante da cápsula” transmite uma possibilidade de vivência ao objeto; este deixa de ser um monolito que ocupa um espaço na galeria, funcionando na contramão do seu modo de invenção, e passa a ser um meio para uma mudança de consciência. Imersa em diagramas, palavras e enunciados, essa estrutura membranosa (aqui, faz-se uma referência à sua instalação na Luciana Brito Galeria em 2009) cria passagens, entrelaçando lugares. Como obra em suspenso, não cumpre um programa prévio. Opera combinações e deslocamentos, que acabam articulando unidades provisórias, suscetíveis de se fragmentarem indefinidamente.

As associações com Lygia Clark e Hélio Oiticica não param por aqui. O conceito de transferência poética encontrado nas proposições dos dois artistas serve de arcabouço poético e teórico para Basbaum. Em NBP x Eu-Você, encontramos os dois pronomes que estão na série Roupa-corpo-roupa de Clark. Descoberta, investigação, corpo, sensório: conhecer a si mesmo por meio do contato com o outro. Muito mais do que uma simples participação ou remanejamento de espaços ou elementos, as propostas de Clark e Basbaum fundem-se no indivíduo; nas suas fragilidades, medos, na relutância em tocar no desconhecido. A exploração desses “sujeitos” amplia-se na proposição de Basbaum denominada Superpronome (2000), com a conexão invisível ou a cola entre os pronomes pessoais. Aquilo que outrora Basbaum havia representado por meio do “hífen”, agora é expresso sem intermediários: euvocê vocêeu

Partindo-se da conexão desses pronomes – que une o “eu” ao “você” e o “você” ao “eu” –, podemos analisar que se trata “de um elemento que sugere a experiência de uma comunicação cristalina, inequívoca, entre subjetividades”, como assinala Renato Rodrigues da Silva. Os pronomes também desviam suas ações para o espaço urbano. Por meio de diagramas, Basbaum orienta a prática do público na construção da palavra como campo autônomo de criação artística e na interface entre proposição e performance. Suas mais recentes ações se desenvolveram na Bienal de Xangai (2008) e na sua residência artística em Ipatinga (2009).

Com Oiticica, essa ligação percorre o coletivo: acentuam-se os nossos questionamentos sobre a posição que ocupamos no mundo e as estratégias de circulação dessa obra, que questiona a sua própria função. Em Você Gostaria de Participar de uma Experiência Artística?, essa pergunta/obra é formulada em relação a um dos desdobramentos do projeto Novas Bases para a Personalidade (NBP), por meio do qual um objeto é enviado a alguém para que seja utilizado durante um período de tempo. Por esse procedimento, a “experiência artística” torna-se uma mediação necessária e, assim, o elo entre o eu (do artista) e o você. Agora, você pede pela obra; não precisa mais ir ao encontro dela. Depois da “morte da pintura”, a questão mais discutida no campo da teoria da arte é a da arte infiltrando-se na vida e vice-versa. Posição já muito desgastada, com alguns teóricos tentando identificar qual seria o primeiro artista a tratar disso, e outros perguntando: mas não foi disso que a arte sempre tratou? Passando ao largo dessas questões, podemos afirmar que essa posição amadurece nas NBPs. O trabalho deixou de pertencer ao artista e passou a ser do mundo. Ele é requisitado em todos os lugares: é usado como piscina, forma de bolo, barco, cama, mesa de jantar… É um “não-objeto” e um pluriobjeto. Desconhece a sua função, porque ao mesmo tempo são todas.

Basbaum realiza atualmente a exposição Sistema-Cinema (CCSP) no Centro Cultural São Paulo (com encerramento em 14 de março), onde microcâmeras instaladas captam imagens em tempo real de espaços inacessíveis e/ou em que raramente prestamos atenção. As imagens são exibidas em um telão, ao mesmo tempo em que são editadas como um cinema ao vivo, colocando o espectador como protagonista e observador de si mesmo e do espaço que ocupa. Em 2010, Basbaum participará do projeto Valparaíso: Intervenciones Urbanas, no Chile, no qual dará sequência ao projeto NBP. A intervenção em uma praça pública consiste na criação temporária de uma estrutura arquitetônico-escultórica que se configurará como um espaço de encontros (nas palavras do artista, “uma praça dentro da praça”). Um local de (troca de) vivências em área pública, acompanhado de um sistema de som, que permitirá o anúncio da realização desses encontros a quem tiver interesse.

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