Residência artística: Novos ares para novas ideias.

© Setor fotografia FAAP

A residência artística destaca-se, na atualidade, como uma instituição de relevante papel para o apoio, fomento e desenvolvimento das práticas artísticas contemporâneas, e podemos identificar sua proliferação, em todas as partes do mundo, a partir da última década do século 20 como um fenômeno a ser estudado sob as diferentes perspectivas relativas ao processo de produção.

O crescimento do número das residências em escala global – não planejado, porém fruto das condições e necessidades dos profissionais e instituições – tornou imperativo organizar, identificar e divulgar propostas. Surgiu desse contexto a criação de redes a elas relacionadas, mais evidentes a partir do início da década de 1990, como a Res Artis, da Alliance of Artists Communities (AAC), e, mais recentemente, da Intra Ásia; temos também o desenvolvimento de outras plataformas de ação e suporte, como a rede Peppinières; e a participação de organismos e instituições de apoio, entre outros, como a Transartis, Triangle, o Programa Aschberg da UNESCO, constituindo-se, dessa maneira, em uma das formas mais ágeis e rápidas de acesso à informação relativa a residências artísticas e programas de residência. Neste sentido, o panorama atual das residências vem se alterando em uma escala vertiginosa.

 

Uma história do deslocamento em nome da arte

Uma busca pelas origens das atuais residências artísticas nos levaria às academias de arte e possibilitaria percebê-las como – além de uma estrutura de formação artística – uma possibilidade de diferencial de estudo, quando, em 1664, a Academia francesa propôs a criação do Prix de Rome – uma bolsa de residência na Academie de France, em Roma.

Outro significativo momento, em uma mirada histórica, se dá no século 19, quando, em paralelo aos questionamentos da instituição acadêmica, surgem tentativas de criar meios alternativos para a formação e difusão da produção artística, incluindo-se, nesse contexto, o surgimento das colônias de artistas, que tiveram um desenvolvimento, sem precedentes, ao longo daquele século.

Em um panorâmico olhar sobre as origens e possível história desse mecanismo relacionado com os processos de formação artística, é preciso ainda estabelecer um vínculo com uma das mais significativas e renovadoras instituições instaladas nos Estados Unidos da América na década de 1930 – o Black Mountain College1 – e que perdurou até 1956.

Continuando o percurso, na década de 1960, podem ser identificadas duas vertentes representadas, de um lado, por uma busca de isolamento, em uma postura de retomada das utopias que propugnam por transformações e, de outro, pela proposta de vida em comunidades urbanas, nesse último caso em particular nos EUA – e uma especial atenção pode ser dirigida ao que se desenrola no cenário nova-iorquino até a década seguinte. Os galpões industriais e espaços comerciais deteriorados e abandonados foram ocupados por artistas que criaram, naquela região não residencial, comunidades e as “AIRs”, ou artist in residence, como foram denominadas oficialmente. Significativamente em condições e contextos sociais, políticos e econômicos diversos, mas na mesma década, começa a se erguer, no centro de Paris, às margens do rio Sena, a Cité Internationale des Arts.

O que poderia ser denominado uma nova onda da mobilidade artística ocorre a partir de inícios da década de 1990 e ganha os contornos da globalização ao se disseminar, por intermédio das associações e networks, por redes sociais que articulam esses espaços a partir desse período. Se, nas etapas anteriores, pode-se identificá-las geograficamente distribuídas, fundamentalmente, pela Europa e Estados Unidos da América, agora elas já surgem nos quatro cantos do mundo, estendendo-se dos lugares mais inóspitos às grandes metrópoles.

 

Brasil em perspectiva

Um panorama sobre o tema das residências artísticas precisa enfrentar a situação brasileira, mesmo que sob o viés da fragilidade de estrutura na área, uma vez que o número efetivo de residências artísticas em território nacional é bastante reduzido, se comparado ao cenário mundial. Devem ser mencionadas as iniciativas pioneiras no país e as experiências relevantes de criação e implantação de programas, como o Capacete Entretenimentos, no Rio de Janeiro, um dos espaços mais ativos no que concerne aos processos e práticas artísticas contemporâneas, e a residência mantida em Itaparica, na Bahia, pelo Instituto Sacatar, uma fundação que mantém um conjunto de edificações para receber criadores do mundo inteiro para períodos de pesquisa e criação em uma situação de isolamento, contato com a natureza e com a comunidade local.

Nessa leitura, é preciso mencionar que em São Paulo, entre fevereiro de 2003 e outubro de 2006, a exo residências acolheu 33 artistas, sociólogos, escritores, cineastas e arquitetos provenientes de várias cidades e países, que ocuparam apartamentos no Edifício Copan, nos quais residiram por até três meses, desenvolvendo seus projetos.

Ainda em uma visão panorâmica, a partir de 2005, momento de início do funcionamento da Residência Artística da FAAP, quase uma centena de artistas residiram e desenvolveram suas propostas, em sua maioria associados a projetos desenvolvidos institucionalmente, entre outros, com a 27ª e 28ª Bienal de São Paulo, o Museu de Arte Moderna de São Paulo e o da Bahia, a Videobrasil, o FILE, o SESC e o Instituto Goethe.

Outros programas brasileiros de residência começaram a ser articulados e, a esse rol de projetos brasileiros, em franca atividade, pode-se acrescentar o prêmio Bolsa Pampulha, em Minas Gerais, programa que propõe residências de artistas, no período de um ano, em Belo Horizonte, ao fim do qual são apresentadas uma série de mostras, decorrentes desse processo de trabalho e acompanhamento.

Pode-se afirmar, ainda que em reduzida escala se comparado ao cenário internacional, ser o fenômeno das residências, no Brasil, também manifestação e reflexo das discussões e articulações em torno dos espaços e campo de atuação da arte contemporânea. O crescimento significativo, bem como a visível diversidade das propostas de atuação e o processo inicial de inserção nas redes e networks globais permitem perceber um movimento em direção a essa internacionalização.

Como uma leitura possível das ações de um programa de residências artísticas, ele pode ser pensado como uma forma de responder a um sintoma contemporâneo de isolamento. E, a partir da experiência de vida coletiva, as relações de troca são potencialmente capazes de inventar propostas para um tempo novo, configurando-se assim como possibilidade para o viver junto, ponto relevante para a discussão das residências artísticas e que balizou as discussões, propostas e reflexões da 27ª Bienal de São Paulo, marco fundamental no desenvolvimento do programa da Residência Artística da FAAP, e seu sentido da convivência e vida em residência.

 

Residências para a contemporaneidade

Contemporaneamente, é possível identificar as residências artísticas como espaços específicos de criação artística, que se convertem em lugares de trocas e reconhecimento, nos quais os artistas/criadores, com seus trabalhos/intervenções, recuperam a complexidade e a diversidade, o significado e o valor das relações entre arte e vida. Neste sentido, pode-se pensar sobre processos de criação, em deslocamento, como forma contemporânea de produção, na qual conceitos como participação, troca e vida coletiva se tornam peças fundamentais em uma estratégia de atuar. A residência é, nesta perspectiva, um instrumento de transformação ao promover o estabelecimento de relações mais amplas, ao mesmo tempo em que permite apontar alguns dos conflitos e contradições da relação entre a arte e seus espaços, incluindo os de formação como a escola.

Para aqueles que passaram pela experiência da residência, alguns conceitos são fundamentais – e frequentemente mencionados – para a discussão sobre as relações que se desenvolvem nesses locais específicos. Entre eles, o tempo e o espaço identificam-se, de imediato, com a própria definição desses ambientes. O oferecimento de tempo e espaço diferenciados para a criação é a proposta, em sua grande maioria, das instituições que se denominam residência artística.

O tempo merece destaque dentro da concepção das residências na medida em que se tem um redimensionamento dele, quando colocado à disposição do artista, e uma nova dimensão dele se apresenta, com a retirada e o deslocamento do artista de seu dia-a-dia, imprimindo outro ritmo e outro olhar ao seu processo de trabalho. Um tempo absolutamente distinto do habitual e quotidiano se configura, apesar do aparente paradoxo, pois o que o artista busca – ou lhe é oferecido – é um tempo para o trabalho. Não há as demandas, ou interrupções habituais, que atuam em uma vida diária, ainda que se pense em algumas delas como meios facilitadores de comunicação – telefone, celular e internet. Entretanto, ainda há a distância, como que a proteger essa momentânea, porém eficiente, condição de trabalho.

A residência artística tem fundamentalmente o sentido de troca, associado ao de um tempo e espaço que são diferentes e especiais para quem vai trabalhar dentro desse novo contexto. Um espaço específico de criação, como o lugar – o tópos – do artista em deslocamento, permite repensar a dimensão da produção em sua relação com o “onde” a arte é produzida. Em um mundo interligado e de mobilidade, a concepção do espaço tradicional de trabalho não é mais a única resposta: o escritório é móvel, como o computador de mão e o telefone celular, que permitem manter-se em contato, em qualquer tempo, com o mundo.

Um tipo particular de sociabilidade pode ser percebido nos espaços denominados residência artística. Com o deslocamento de seu círculo de relações sociais habituais e com o isolamento para estar em contato com o outro, a perspectiva do artista em residência não é a da mítica “solidão de um Robinson Crusoé na ilha deserta”, em um embate com a natureza, na busca pela sobrevivência.

Ponto importante, ainda, na discussão sobre a residência é a relação de cada artista com o desconhecido, o que se apresenta a ele ao aceitar um convite para viver uma situação, e que rapidamente pode converter-se em adversidade. Não apenas visitar ou estar, mas estabelecer vínculos com as pessoas, espaços e lugares, permitir-se relacionar para produzir a partir desta interação. É preciso pensar, ainda, que a ansiedade e o medo, peculiares ao seres humanos e muitas vezes motivadores dessa forma de relação com o mundo, são, neste caso, elementos importantes como parte desse desafio de estar deslocado e viver junto. Inserido em outro contexto, o artista não tem mais o controle absoluto e, percebendo-se como incapaz de deter isso em suas mãos, lança-se em uma experiência – e não em uma aventura – que o toma por inteiro.

É possível apreender, dessa afirmação, a importância das trocas que ocorrem em residência – pelo convívio com a comunidade –, o que se torna, dessa forma, relevante para pensar sua relação com os processos de formação artística.

Ao refletir sobre a complexidade da condição contemporânea e a necessidade de todos os esforços na compreensão desta, um projeto que busque expandir fronteiras e romper os limites nacionais, geográficos e culturais se constitui em uma das formas de reagir à globalização e findar soluções conflituosas e isolacionistas. A experiência da residência artística afirma-se como forma de questionamento dos sistemas de conhecimento e de pensamento totalizantes, ao permitir o compartilhar.

1 Escola fundada em 1933 na Carolina do Norte, EUA, e que permaneceu em atividade até 1956, caracterizada por sua postura experimental, valorização da vida em comunidade, proposta de reunião de distintas formas de conhecimento e por colocar-se geograficamente deslocada dos centros urbanos de produção e ensino.

 

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