Residência artística: Novos ares para novas ideias.

© Rodolpho Parigi

Rodolpho Parigi sobre a Cité des Arts

“Nasci na capital de São Paulo, onde sempre morei. Eu tinha uma expectativa muito grande em relação à residência. Quando recebi a notícia, fiquei muito excitado, pois sabia que essa mudança seria intensa e necessária para minha relação com aquilo que eu estava fazendo.

Quando cheguei à Cité, no primeiro momento, percebi que eu deveria me situar em relação ao espaço e ao meu entorno, pois a partir disso eu poderia criar meu dia-a-dia. No final do primeiro mês, as coisas ficaram mais claras. Conheci algumas pessoas e isso facilitou muito.

Após esta adaptação, fui em busca de materiais que tinha em mente para realizar certos trabalhos, mas me deparei com outros. Eu não consegui produzir, já não conseguia ter a mesma relação que tinha dois meses antes com minha obra. Fiquei surpreso, era como não saber fazer aquilo que você já faz há algum tempo. Essa pesquisa de novos materiais, novas marcas e uma diferente situação e língua provocaram alguns acasos que se tornaram possibilidades pictóricas e conceituais. Nessas semanas, era tudo muito estranho.

O espaço onde eu durmo, me alimento e moro é o mesmo onde realizo minhas obras. Isto é um fato determinante para algumas características que apareceram nas novas pesquisas e obras. Existe certo agrupamento de coisas físicas que reflete nas possibilidades da criação, tudo se misturou. Uma compressão de informações dentro do espaço, que transborda quando estou fora dele nas relações com a cidade. Minha relação com a música erudita se tornou diária, pois existem muitos residentes de música aqui, que tocam todo o tempo.

Percebi que a situação de estar em um lugar desconhecido provoca um estranhamento inicial, mas é aí que novas possibilidades de se relacionar ou não acontecem. É uma mistura de íntimo e público, é a todo instante uma comparação das características próprias com as alheias – isso traz a questão do diferente, cabe aceitar ou não.

Esse deslocamento que aconteceu em minha vida me confundiu e me deu algumas interessantes opções. A casa está dentro de nós, e não tem um formato definido. A pesquisa tomou caminhos mais densos e utópicos, potencializando algumas características e abandonando alguns conceitos hipócritas e chatos. Também agora utilizo e acesso aquilo que faz sentido para o meu trabalho, sem preocupações formais. A pesquisa é mais sobre coisas do que sobre arte. Estar sozinho em um outro lugar é poder recomeçar ou mudar tudo, é o momento de desestabilizar algumas questões que já estão enferrujadas no corpo e na mente. É poder ser o espião de nossa própria vida e se deparar com um estranho em você.”

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