DASARTES 79 /

Resenhas

Confira as resenhas das exposições: Amsterdam Art Week; Millôr: Obra gráfica; Ser essa terra: São Paulo cidade indígena e Quilombo do Rosário.

Amsterdam Art Week
Museus e Galerias • Amsterdã • Países Baixos • 22 a 25/11/2018
POR SYLVIA CAROLINNE

Obra de Tyna Adebowale

Diversas foram as aberturas ao longo da Amsterdam Art Week. Grandes mestres à venda na PAN Amsterdam, incríveis exposições nos museus, nomes conhecidos nas galerias e uma boa quantidade de eventos ao longo dos últimos dias de novembro. Tudo como manda o figurino de uma temporada como essa.

Um dos pontos altos foi o evento Rijksakademie Open, o “open day” de uma das mais antigas residências de artistas, com mais de 30 anos de existência. Quarenta e cinco artistas abriram seus estúdios e apresentaram trabalhos, interagindo com o público e aproximando-o mais. O contato mata um pouco a curiosidade de conhecer por dentro, tornando-se esta grande ferramenta de aprendizado e troca para artistas de múltiplas nacionalidades.

Na Rijksakademie, estudaram renomados artistas como Piet Mondrian e Karel Appel, e em tempos de residência já recebeu nomes como Dora Longo Bahia, Raul Cordero e Maurício Limón de Leon, entre outros. A boa organização e a administração do espaço resulta em uma residência de excelência, com todo tipo de apoiadores, tanto no setor público como privado. Dentre os artistas que se apresentaram, certamente veremos alguns deles em feiras internacionais, em um futuro muito breve.

A diversidade das experiências culturais e as trocas locais nos permitem perceber diferentes abordagens aos principais temas em pauta, como sexualidade, consumismo, identidade, ou ainda, ver belos trabalhos seguindo os passos de grandes mestres abstratos.

Obra de Riet Wijnen

Entre os artistas que se exibiram, a nigeriana Tyna Adebowale apresentou seu “alter ego” usando a herança cultural da terra natal. Além dos desenhos, a artista expôs uma série de vídeos no estilo Nollywood para discutir temas como imperialismo, gênero e identidades periféricas. A obra de Che Onejoon, um documentário, traz-nos a história de Mônica, marcada pela separação e pela fragmentação de si. A beleza da fotografia e o primor da execução não nos deixam esquecer, nem por um momento, o drama relatado e a angústia do desfecho.

Finalmente, no trabalho de Riet Wijnen, podemos ver o desenvolvimento de diferentes teorias de arte por meio de conversações sobre o abstracionismo. Na série contínua de esculturas de madeira, a cor tem seu papel na tradução de contextos, temas e conceitos fundamentais ao código da obra. Enfim, observamos o abstracionismo pela apresentação de um sistema estrutural lógico composto por cores, trazendo certa leveza ao final da visita.

Millôr: obra gráfica – Instituto Moreira Salles
São Paulo: 18 de setembro a 27 de janeiro de 2019.
POR MICHELE PETRY

“Pois era cinza”, a antiga capital do país, a favela, o dia, os anos de chumbo, a arte gráfica de Millôr Fernandes (1923-2012). Grafite sobre papel, desenhos que receberiam cor de lápis, giz, tinta guache, nanquim, recortes e colagens. Esboços sobre páginas de revista, impressos, que receberiam os seus desenhos e textos. Notas a lápis, quase sempre nas margens do papel, indicam o desejo de feitura, curadoria da própria obra: “igual”, “flores em azul”, “fora-a-fora”, “A”, “B”, “C”, “3,5 x 23”, “quadro em tipografia”, “pelo amor de deus, conservar as côres!”, “45,6 cm”, “sai fora!”, “atenção paginação, quadro em azul, texto deitado” são alguns comentários do artista para a edição de “Pif-Paf”, coluna e revista que concebeu; partes do seu processo criativo, da relação estabelecida entre desenho e lugar de exposição, como também faziam os artistas gráficos do Rio de Janeiro no final do século 19 e começo do 20. Considerada uma arte menor no sentido rabelaisiano do termo, por que mobiliza o baixo, material e corporal, a arte gráfica de humor encontrava nas revistas e jornais uma forma de acessar o público. A exposição de arte gráfica de Millôr no IMS, junto a outras exposições, como as de fotografias de Irving Penn e Maureen Bisilliat, com a curadoria compartilhada entre Loredano, Julia Kovensky e Paulo Roberto Pires, coloca a importância tanto do artista quanto desse tipo de arte que tem como potência o traço, o gesto da mão que pensa. Millôr por Millôr, Pif-Paf, Brasil e À mão livre são seções da exposição que deixam o artista à mostra, no divã, em autorretratos de si, em retratos do outro, de um país “descoberto”, com suas feridas expostas. As várias assinaturas de Millôr, mais do que várias facetas do artista, indicam o retrabalho constante do ser, a busca de uma identidade ou a fuga dela. Assinava como Vão Gôgo. Mas as referências visuais que chamam a atenção são, principalmente, de Picasso: composições infantis, presença infortuna da lâmpada, contornos pesados, inversões de bichos e pessoas. Em 1981, Millôr fez a sua Guernica, “um minuto antes” e “um minuto depois”, ele diz: “sem pressentirem os agressores, no céu azul”… Se a quantidade de obras expostas sinaliza, por um lado, o desafio de recorte sobre a sua vasta produção, composta por um acervo com mais de seis mil desenhos, por outro, suscita a experiência de capturar aquilo que é singular no conjunto da obra. Em contraponto à síntese esperada dos desenhos rápidos para publicações diárias ou hebdomadárias, há na exposição uma série de obras que, dispersa nas seções, dialoga entre si. A repetição de formas, incidindo em composições complexas, revela uma espécie de compulsão da escrita, grafia, arte gráfica do artista. Penas de aves em “Desenho para publicação em O Pasquim” (1973) e “em O Cruzeiro” (1956), folhas nas copas de árvores em “A compensação dos sentidos é muito relativa” (1957) e “O esforço do autor e a indolência do personagem” (1955) ou carros, cabeças e tudo o que mais existe no engarrafamento da cidade, no emaranhado de pensamentos, em “O nascituro” (1977). Essas imagens se esvaziam e enchem os desenhos, linguagem do autor. Millôr, obra gráfica, expressão gráfica de humor, de humores, instiga o público a compreender o tempo presente, as mazelas e misérias humanas, por meio das cinzas, as linhas, que ficaram e sobrevivem.

 

Ser essa terra: São Paulo cidade indígena
Memorial da Resistência São Paulo • 24/11/2018 a 22/4/2019
POR MANOEL S. FRIQUES

A exposição “Ser essa terra: São Paulo cidade indígena” oferece um rico retrato das etnias que povoam contemporaneamente a Piratininga de Sampã. Sob a consultoria de Casé Angatu Xukuru Tupinambá, os curadores Marília Bonas e Daniel Kairoz compartilharam suas tarefas com lideranças indígenas, resultando em uma exposição pautada pelo diálogo e pela negociação.

O melhor exemplo de tais negociações está na organização do espaço expositivo. A equipe dividiu a sala em três ambientes. Ao centro, observa-se um núcleo circunscrito por tapumes de madeira, sobre os quais se encontram retratos audiovisuais de seis líderes religiosos: pajé Virginia Guarani Mbya, Xeramõi Papa Guarani Mbya, Lidia Pankararu, Paulo Wassu Wassul Cocal, pajé Laguna Cariboca e pajé Guaíra Tupi Guarani. Compostos por sequências de quadros estáticos que recortam e revelam sutilezas dessas lideranças e de seus entornos, esses retratos em vídeo criados por Isadora Brant instauram uma atmosfera fenomenológica à exposição, permitindo que o visitante se desvie de um tempo acelerado de fruição.

A área externa a esse núcleo se divide em dois caminhos: de um lado, o caminho dos juruá (dos brancos), formado por uma constelação de frases, citações de documentos históricos e fotografias, que reconstitui, mesmo que não exaustivamente, o violento processo de silenciamento e invisibilização dos povos indígenas catalisado pela colonização. Aqui, o visitante não apenas está diante de rastros de genocídios e etnocídios perpetrados contra os habitantes originários. Ele também pode repensar alguns capítulos dessa narrativa, em especial, o da migração, por meio de frases como “O sertanejo é antes de tudo um índio”, “Todo bandeirante caça um parente no sertão” e “Nem tudo era italiano”. Os exemplos indicam explicitamente o desejo da exposição em redistribuir as cartas do jogo histórico, aproximando figuras consideradas até então antagônicas.

De outro lado, está a constelação indígena, composta por artefatos, imagens, citações, crenças, narrativas e vozes dos povos Pataxó, Guarani Mbya, Karibokas, Fulni-ô, Pankararé, Pankararu, Wassu-Cocal, Kaimbé, Kariri Xokó, Tupi-Guarani e Tupinambá. Além dos elementos da cultura material e imaterial das cosmovisões indígenas, ganham destaque duas figuras emblemáticas do circuito artístico paulistano: Surubim Feliciano Paixão, músico e artista visual integrante do Teat(r)o Oficina nos anos 1980; e Índio Badaróss, o Basquiat da Cracolândia, cujas pinturas circulam por exposições nacionais e internacionais desde 2014.

Os objetos e documentos são dispostos em estruturas que remetem a duas soluções expositivas de Lina Bo Bardi para o MASP: a expografia autoportante em madeira criada por ocasião da exposição “Cem obras-primas de Portinari”; e os cubos de concreto que servem originalmente de base para os cavaletes de vidro, mas que, nesse contexto, funcionam como suportes do “grid” em madeira. No encontro entre os três segmentos, está um altar religioso criado coletivamente pelas lideranças indígenas.

As veredas convergem para a constatação da riqueza dos povos indígenas brasileiros, sendo essa uma iniciativa que reforça a vocação política da produção cultural contemporânea. As constelações de “Ser essa terra: São Paulo cidade indígena” se inserem em uma ampla constelação de manifestações artísticas que questiona os regimes culturais vigentes de visibilidade e de inteligibilidade. Por meio dessa exposição, São Paulo deixa de ser vista sob a égide da propriedade, para ser compreendida sob os signos da re-existência e da relação.

Quilombo do Rosário
Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea • Rio de Janeiro • 22 a 25/11/2018
POR CHANDRA SANTOS

O artista plástico sergipano Arthur Bispo do Rosário Paes, conhecido como Bispo do Rosário, trabalhou na Marinha e no Departamento de Tração de Bondes da cidade do Rio de Janeiro. Também foi boxeador, biscateiro e empregado doméstico. Em 1938, movido por alucinações, peregrinou por diversas ruas e igrejas, foi detido, fichado e conduzido ao Hospício Pedro II, localizado na praia Vermelha. Desse local foi encaminhado para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, carregando o diagnóstico de esquizofrênico-paranoico, e de lá nunca mais saiu. Foi durante a internação que ele passou a produzir arte por meio de objetos encontrados no lixo. Suas obras foram comparadas com a arte vanguardista de Marcel Duchamp. E durante décadas ele produziu diversas obras, que estão hoje reunidas no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea e espalhadas em diversas coleções de arte particulares e públicas no Brasil e no exterior. Na exposição é apresentada pela primeira vez ao público a obra “África de Bispo”, que estava guardada para restauro no Museu Nacional de Belas Artes desde os anos 1990. Ela coloca em evidência a ancestralidade africana manifestada na produção artística de Bispo, reafirmando-o como uma personalidade negra da história da arte brasileira. Além disso, convida ao debate sobre a questão da arte produzidas por negros e da cultura afro-brasileira. Com curadoria de Roberto Conduru, “Quilombo do Rosário” apresenta obras de artistas contemporâneos em diálogo com as de Bispo. Rosana Paulino, Sonia Gomes, Mulheres de Pedra, Ton Bezerra, Atelier Gaia, Dona Tuca, Jayme Lauriano e Jorge dos Anjos estão entre os artistas que expõem. A exposição conta também com peças dos internos da antiga Colônia Juliano Moreira, Stela do Patrocínio e Antônio Bragança. A Colônia foi um dos maiores hospícios do país durante o século 20 e hoje serve como instalação para o Museu. Antes do manicômio, no século 17, existia no local o Engenho Nossa Senhora dos Remédios, cujas ruínas resistem ao tempo até hoje.

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