Vista da exposição de Sonia Gomes. Foto: Eduardo Ortega.

DASARTES 80 /

Resenhas

Veja resenhas das exposições Ultramar e Intempéries permanentes na Referência Galeria por Laíse Frasão e Sonia Gomes, Ainda assim me levanto no MASP por Michele Bete Petry.

Intempéries permanentes e Ultramar
Referência Galeria de Arte
Intempéries permanentes – visitação até 23 de fevereiro
Ultramar – visitação até 26 de janeiro
POR LAÍSE FRASÃO

Obra de Celso Orsini

A Referência Galeria de Arte que, em 1995, deu início a suas atividades com uma exposição individual de Amilcar de Castro, nesses seus 23 anos de atuação, vem destacando-se pela sua ininterrupta contribuição ao cenário artístico para além dos limites da capital federal. Seu diversificado acervo sinaliza, analogamente, o processo de conurbação promovido entre as tessituras artísticas local, regional (centro-oeste) e nacional. Conurbação esta que também se apresenta na conexão temática e, sobretudo, cromática das exposições Intempéries Permanentes e Ultramar, que encerram o ano da galeria.

A primeira, uma individual do artista Matias Mesquita, indicado ao Prêmio Pipa 2016, com curadoria de Cinara Barbosa, transita entre a sublimação simbólica e a materialidade da construção da paisagem, ladeando fronteiras  escultóricas espaciais, por meio da “expertise da pintura sobre materiais diversos [suportes também estruturais construtivos]” – aspecto destacado pela curadora. Assim, porosas placas de barro, concreto e cimento fundem-se à permeabilidade das nuvens e folhas de árvores retratadas. Já o peso visual dos blocos e tijolos cerâmicos e de concreto contrastam com a leveza das caixas de ferro e alumínio. Os trechos de horizontes retratados tendem a imensidão independentemente dos seus suportes estarem apoiados diretamente no chão ou suspensos nas alvenarias. Em especial, as obras Estabilidade Falida (2018) e Construção Irregular (2018) estabelecem entre si um diálogo pendular que, estilhaçando diretamente as ideias de densidade e racionalidade vinculadas à solidez dos volumes e operando com indícios de nossa frágil e contraditória realidade urbana, parecem sinalizar possíveis novos apontamentos da pesquisa do artista.

Já a segunda exposição, cujo título remete a cor azul ultramar, é resultado da produção dos artistas visuais Adriana Rocha, Ana Michaelis, Celso Orsini, Cris Rocha, Patricia Furlong e Reynaldo Candia que compõem a formação atual do grupo Em Branco, criado em 2004. Vale frisar que a palavra grupo, aqui, propositalmente, diferencia-se do termo coletivo, na medida em que demarca algo que vai além de um conjunto de profissionais envolvidos em um fazer artístico comum e/ou homogêneo: sinaliza um compartilhamento de produções múltiplas pautado no debate e ressignificação de ideias e poéticas contemporâneas. No caso da exposição em pauta, as obras são conectadas por meio de aproximações cromáticas, embora as composições pictóricas tenham concepções formais diferenciadas. “Ainda que não exista a interferência de um artista sobre a obra de outro, esta é uma linha que costura a organização da exposição. É uma cor [azul] recorrente em nossas obras, mesmo quando estão sob camadas de veladuras ou são apenas fios”, afirma Adriana Rocha.

Dessa maneira, as duas exposições têm mais em comum do que só a pintura como linguagem predominante. Por conurbação, o mar de intempéries permanentes que engloba o azul celeste é permeado e permeia o azul ultramar, em suas nuances nada permanentes. E essa imensidão azulada é inundada por fúlgidos tons terrosos que emergem, de maneira marcante, ora nos suportes e elementos compositivos de Matias; ora nos alaranjados (de Celso Orsini e Cris Rocha) e avermelhados (de Adriana Rocha e Reynaldo Candia).

Sonia Gomes: ainda assim me levanto
São Paulo – SP, Masp e Casa de Vidro/Instituto Bardi
(14.11.2018 a 10.03.2019) e (24.11. 2018 a 24.02.2019)
POR MICHELE BETE PETRY

Janelas expostas, sem cortinas, no subsolo do Masp e no alto da Casa de Vidro, como queriam Sonia Gomes (1948) e Lina Bo Bardi (1914-1992). Duas artistas de origens diferentes, uma europeia e outra latino-americana, porém, ambas ligadas ao universo da cultura popular brasileira. As artes de fazer do povo são valorizadas nesses espaços que convidam Sonia Gomes a expor e a criar com eles. Suas obras com e sem títulos da série Raiz, Pendentes e outras “costuras, amarrações, tecidos e rendas diversos sobre arame e madeira” (2018) são elaboradas a partir de uma estreita relação com a arquitetura do local: instalações que se fundem com a terra, no emaranhado de tecidos e troncos, também se impõem no concreto do edifício e no mobiliário que o habita. São como fragmentos de corpos em um balé, cristalizando posições. Lembram Pina Bausch e Niki de Saint Phalle, mas também algo de Klimt. Esparramam-se, contorcem, lançam, agitam, tencionam, resistem e prendem nos movimentos uma verborragia visual que quase explode, contida pelo fechamento das formas no interior da sua plasticidade. Contudo, funcionando como cavaletes de vidro, as obras de Lina, o Museu de Arte (1947) e a Casa de Vidro (1951), permitem a Sonia romper com os limites dessa materialidade, alastrando a completude dos gestos de modo integral para o exterior. Crescem com a arquitetura, do subsolo para os pavimentos superiores, das salas para os jardins. Os cavaletes de vidro pensados por Lina para a visibilidade das obras também se encrustam na cidade com a intervenção de Sonia Gomes. Há, portanto, um duplo movimento da exposição Ainda assim me levanto, com a curadoria de Amanda Carneiro, promovida em torno do ciclo temático História das mulheres, Histórias feministas, no museu. Por um lado, os cristais de Lina transluzem a potência da obra de Gomes; por outro, a obra de Sonia desvela o silenciado. Esse fazer artístico conjunto torna a série de obras absolutamente inédita na medida em que apresenta uma narrativa sobre violência (a forma fechada de Sonia) e visibilidade (a forma aberta de Lina). Lembra, ainda, o trabalho de outras artistas mulheres, notadamente, o de Rosana Paulino e o de Guerrilla Girls. Sob o número 222, uma obra de Sonia aparece no último corredor do Acervo em Transformação do Masp, ao lado de Mulheres (2017), Guerrilla Girls, respondendo e, ao mesmo tempo, devolvendo a pergunta sobre a presença de artistas mulheres em exposição.

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