Renata Lucas, intervenções sintomáticas

Para Cildo Meireles, chama a atenção no trabalho de Renata Lucas a sua ‘discrição explícita’. Os dois foram companheiros de exposição na Bienal de Veneza do ano passado, quando a artista apresentou Venice Suitcase. Nessa intervenção, um fragmento de asfalto pintado com faixas de sinalização, literalmente um pedaço de estrada, parecia emergir,,ou submergir, por entre as aleias de terra do Giardini. A mesma ‘estrada’ aparecia também no Arsenale, dessa vez como um achado arqueológico descoberto por debaixo do chão da cidade.

Até pela própria natureza de seu trabalho, Lucas vem se dedicando ao circuito internacional de residências e exposições. São frequentes as dificuldades técnicas e legais de suas intervenções, o que demanda apoio institucional. Daí um ponto importante: seu trabalho não é anti-institucional, mas se utiliza da plataforma institucional das artes para tecer um comentário crítico mais sutil e profundo. A questão, Lucas ressalta, “não é a instituição, mas tudo o que é instituído.”

Vale ressaltar certos desdobramentos que são desenhados em sua trajetória. Analisemos certos trabalhos iniciais, como Barravento (2001), Mau Gênio (2002), Cruzamento (2003) e Falha (2003), onde superfícies são duplicadas e/ou entregues a distorções provisórias. Sobressai um elemento em comum: o compensado, material anódino que conota o inacabado. São revestimentos que esmaecem a identidade desses lugares, mas que, ao mesmo tempo, sublinham-lhes bordas e junções. Não se trata stricto sensu de uma semiótica do espaço, e sim de infiltrar materialmente certos signos, ou passagens, de modo a reconfigurá-los no nível afetivo.

Em parte essa lógica permanece. Mas, a partir de intervenções como Venice Suitcase, Visitante (2007), Residente (2007) e Barulho de Fundo (2005), é possível dizer que essas infiltrações ganham um corpo diverso, mais violento, mais como ‘irrupções’. Pode soar contraditório: não são justamente trabalhos como esses que propiciam a fórmula de Meireles? Não se trata de pensar a violência como afrontamento, mas sim como um desajuste inerente à experiência do trabalho, e que é captado com acuidade pelo paradoxo de uma discrição explícita.

E o que exatamente irrompe nesses lugares? Uma cena, uma outra cena. O efeito de Visitante, por exemplo, não se resume na mera constatação de que o jardim da Tate Modern recebeu uma estranha faixa de vegetação silvestre. Não é uma simples alteração da paisagem existente, mas uma ‘interrupção’ dela. Mais curtocircuito que esmaecimento. Vale lembrar que Veneza e Tate Modern são, além de rotas de circulação artística, dois dos pontos turísticos mais visitados da Europa, verdadeiros ‘cartões-postais’. Não são apenas centros por onde imagens diversas circulam, mas também ‘imagens de circulação’. E, aqui, os trabalhos de Lucas propõem uma inversão: num tempo em que o norte nos é dado por meio de incessante produção, proliferação e consumo de imagens, a arte afirma seu potencial de intervir invocando – e aqui eu aproveito o conceito desenvolvido por Georges Didi-Huberman – ‘imagens sintomáticas’.

A imagem sintomática opõe-se àquela instrumental, meramente legível. Daí, talvez, a recorrência da discrição no trabalho de Lucas, pois não é parte da natureza do sintoma apresentar-se inequivocamente ao entendimento do sujeito. Pode-se demorar a notar a presença das árvores que, tão próximas, parecem caminhar em direção à galeria. E não é impossível surpreender-se já pisando na ’estrada’ de Venice Suitcase. Está aí o curtocircuito: o que irrompe por entre fluxo instrumental de coisas e pessoas, ao qual esses espaços parecem cegamente servir, é a temporalidade difícil de uma cena que precisa acomodar dentro de si o estranho. Eis o que há de explícito no discreto, ao menos no âmbito subjetivo: uma vez percebidos, esses trabalhos aderem desconfortavelmente ao seu entorno; aderem, portanto, ao nosso percebê-lo. Não tentam transformá-lo por completo, mas também recusam a largá-lo, a deixá-lo entregue ao seu fluxo cotidiano. É como se diz do sintoma: ele ‘insiste’.

Essa temporalidade da acomodação, ou incômodo, do estranho na cena é justamente a temporalidade do ‘trabalho’ – em sua acepção psicanalítica –, no sentido de que a cena torna-se prenhe de sobressaltos e articulações abruptas. Venice Suitcase é, de fato, uma via de mão-dupla. Em que lugar, senão em Veneza, poderia um elemento tão prosaico de nossas paisagens urbanas – a pista asfaltada – emergir carregado de estranheza? Aliás, é importante pensar essa breve distinção que acabo de sugerir sobre a obra de Lucas de maneira semelhante, a fim de evitar categorizações estanques. Afinal, há trabalhos recentes, como Sistema de Sobra ou Sistema de Falta (2008), que remetem diretamente a Barravento e Falha, por exemplo. E mesmo o olhar que lançamos sobre estes últimos é, e deve ser, informado pela perspectiva que Visitante e Venice Suitcase nos abrem. Pois essa perspectiva nos dá a dimensão da complexidade que a trajetória de Renata Lucas insiste em sustentar.

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