Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti

© Infinito ao Cubo

“Imagine entrar em uma máquina ótica que reage às variações da luz do ambiente e à presença do observador.” (Do vídeo feito pelos artistas sobre a obra Infinito ao Cubo)
“Imagine pisar em uma chapa de aço e produzir uma onda que, ao se deslocar, levante quem ou o que estiver em cima dela.” (Do vídeo feito pelos artistas sobre a obra Piso)
Imagine sentir.

A dupla de artista Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti potencializa arte e tecnologia em interfaces áudio-tátil-visuais capazes de proporcionar experiências sensoriais e cognitivas em que o visitante é o agente ou o motor da obra. Não existe o espectador, mas o “interator” ou o usuário de suas criações. As duas citações acima se referem respectivamente às obras Infinito ao Cubo e Piso, e, como todo trabalho da dupla, nasceram da abordagem de um conceito inicial. A partir deste conceito, os artistas desenvolvem dispositivos que possibilitam estimular diferentes mecanismos multissensoriais de interação e de imersão.

“Discutimos a questão da magia e da ciência. A maioria dos projetos são sistemas abertos, para que as pessoas possam descobrir o mecanismo das obras. Cada vez que explicamos esses mecanismos, ao invés de quebrar o truque da obra, ela se torna ainda mais cativante. Quem não se encanta ao abrir um relógio e ver o mecanismo dele funcionando? Às vezes é mais bonito que o próprio relógio.” – afirma a dupla.

A obra Túnel, exposta na mostra Agora Ágora, no Santander Cultural (de 26 de maio a 7 de agosto, Porto Alegre), é formada por uma sequência de 92 frames de alumínio que emolduram uma estrutura de seis metros. À medida que se caminha pela instalação, o interator desestabiliza aquele ambiente ao mesmo tempo em que gera, por um jogo de reflexo, uma imagem cubista de si próprio. Sua estrutura foi construída de forma que a obra responda a cada deslocamento dos usuários, trazendo o corpo do visitante para o centro do trabalho.
“O corpo é o agente ou o motor de nossas obras. Se você não interage com ela, nada acontece. Ela não funciona sozinha.” – diz Crescenti.

Infinito ao Cubo começou a ser estudado em 2005 e é o primeiro trabalho conjunto de Cantoni e Crescenti. Constituída de uma caixa quadrada de três metros suspensa por quatro molas, a parte externa é toda espelhada, refletindo tudo à sua volta. A parte interna, também revestida por espelhos, cria reflexões infinitas em todas as direções. O interator, dentro do cubo, experimenta a instabilidade daquele ambiente sobre molas ao mesmo tempo que vê sua imagem reproduzida ao infinito entre as linhas de um caleidoscópio virtual, formado pelo reflexo da fresta de três centímetros que distancia as paredes que formam a caixa. O infinito é vivenciado dentro do espaço pequeno e fechado do cubo. Uma contradição rica em sensações e quebras de paradigmas, proporcionando uma nova ideia de dimensionalidade.

“A sensação de um espaço fechado que explode ao infinito faz pensar a dimensionalidade. A compreensão do infinito é possível. Infinito ao cubo é apenas matematicamente impossível.” – comentam os artistas.

Infinito ao Cubo já participou de exposições em São Paulo, na Holanda, no México e na Espanha. Neste ano, recebeu a menção honrosa do Prix Ars Electronica.
A mais complexa criação dos artistas é a obra Solar, que consiste em uma instalação capaz de simular a incidência da luz do sol sobre a Terra. Por meio da voz e dos pés, o interator informa a posição geográfica, o dia e a hora em que deseja receber a incidência solar. Um sistema de luz percorre um arco em direção à posição solicitada e fornece para o usuário a mesma quantidade de luz que o sol neste tempo-espaço. A instalação utiliza diversos recursos tecnológicos sofisticados: plataforma de posicionamento, paredes de plasmas, sistema de luz, sistema de reconhecimento de voz e sistema de controle lógico. Estes dispositivos começaram a ser abordados a partir de pesquisas relacionadas ao tempo. Os artistas imaginaram uma máquina capaz de fornecer a sensação de calor que a luz do sol irradia em um determinado espaço-tempo: “Para tanto, desenhamos e implementamos Solar, uma instalação robótica, imersiva e interativa que simula qualidades e medidas da luz solar na relação humano/espaço-tempo.”

O processo de criação de cada projeto começa com uma questão inicial levantada pelos artistas. A partir dela, novas perguntas vão definindo os suportes, materiais, teorias e linguagens utilizados na obra. Neste processo, a experiência pessoal de Crescenti e Cantoni são complementares, por isso a criação conjunta é fundamental em seus projetos. Segundo Cantoni, o trabalho conjunto estende os limites do pensamento e da ação individual: “Há um limite para o corpo humano, e a combinatória de diferentes percepções, emoções e habilidades físicas potencializa muito nossa capacidade de processar e interagir com o mundo, com as pessoas, com as máquinas, com as ideias.”

Rejane Cantoni é pesquisadora de sistemas de informação. Com pós-doutorado em cinema, rádio e televisão pela USP, é também doutora e mestre em comunicação e semiótica pela PUC-SP e mestre em visualização e comunicação infográficas pela Universidade de Genebra, na Suíça.

Leonardo Crescenti é arquiteto formado pela USP. Atua no mercado publicitário como fotógrafo e diretor de fotografia. Realizou treze curtas-metragens que lhe renderam 21 prêmios nacionais e 14 internacionais. Desenvolve projetos em várias mídias e suportes.

“Nossos projetos são teimosias. Nos colocamos um problema e temos que achar soluções interessantes para ele. O projeto artístico é um projeto de vida. Tem que contaminar, abranger sua existência.” (Rejane Cantoni)

Compartilhar: