© Romulo Fialdini

DASARTES 12 /

Raymundo Colares – Ocorrência Em Uma Trajetória

Uma das maiores retrospectivas do MAM atrai olhares para este genial artista.

Ultrapassagem – Pista Livre – Ocorrência em uma trajetória – Ponto de mudança – Tentativa de ultrapassagem – Ultrapassagem – Pista Livre – Frequência com 225007 trajetórias – BK: X! … YZ? AELMX! YZ; AB – palavras – palavras – palavras – dinamismo – Superfícies – Modulações – Caminhos cruzados – Planos – Tempo – Espaço – Velocidade – Justaposições – Conexões – Desconexão – O Sol – A Poeira – A Morte na estrada – A Morte – I think it’s time to get back home. É com este poema, escrito em 1970, que Raymundo Colares fala sobre sua pintura. O artista, nascido em Grão Mogol (Minas Gerais) em 1944 e falecido precocemente em 1986, apesar de ser um dos principais artistas vindos da geração dos anos 1960 imediatamente posterior à Nova Objetividade Brasileira (que, aliás, seria a primeira exposição da qual participa), ainda permanece escassamente visto, mesmo com as boas mostras realizadas desde a grande retrospectiva a ele dedicada em 1997 no Centro Cultural Light, no Rio de Janeiro. Sua exposição agora em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com curadoria de Luiz Camillo Osorio, significa a oportunidade especial de um artista cuja obra resolve de maneira peculiar as transformações vividas pela arte brasileira entre o final dos anos 1950 e o decorrer da década de 1960.

Colares sintetiza, em suas pinturas, universos marcantes da parte final da modernidade brasileira (a abstração geométrica local da segunda metade do século 20), influências indiretas da Pop e aquelas mais explícitas da transformação urbana do país depois da era JK que desenhariam, mesmo que com ambíguo entusiasmo, temor e desencanto, nosso imaginário contemporâneo. Seus trabalhos, que, segundo o próprio artista, eram alimentados por seu interesse pelos futuristas, pelo cinema, por Duchamp (particularmente seu Nu Descendo a Escada) e, acima de tudo, Mondrian, falam a todo instante do movimento. Movimento este presente não apenas na imagem do ônibus como símbolo do deslocamento, da velocidade e das distâncias sentidas em um país ainda desajeitadamente metropolitano.

As obras do artista assimilam vivamente os contrastes deste novo espaço – tanto existencial quanto estético – ainda turvo para um país que nunca soube exatamente em que medida conseguiu ser moderno e quando deixou de sê-lo para tornar-se “pós-moderno”: suas estruturas formais evocam a geometria límpida do concretismo e do neoconcretismo; as cores também possuem a mesma concisão daquelas. No entanto, sua matriz vem das carrocerias metálicas. Aqui se atesta a distância entre o que era o fim da modernidade norte-americana e o impasse da nossa: o ícone da Pop é o carro, o jato, marcas de uma sociedade de consumo em expansão vertiginosa; aqui é o ônibus, menos símbolo de coletividade do que de uma vida em permanente baldeação precária, um mundo sem lugar, semiurbano. Uma cor é “cosmopolita”; a outra, “suburbana”. A superfície da chapa de alumínio contrai-se e projeta-se para fora da parede, fragmenta o ponto de vista do espectador, algo explorado de outro modo em suas pinturas sobre madeira, que optam por uma desconstrução quase “caleidoscópica” da imagem. O fato em jogo é mais do que uma visão dinâmica; é viver entre o deslumbre e o choque diante da cidade grande, querer se apoderar de seu ritmo, porém com um deslumbre e novidade que oscilam sinceramente entre o interiorano e o flâneur, a vertigem transbordante do novo, como ilustrariam na sua biografia as migrações para o Rio de Janeiro, Nova Iorque, Milão e, por razões das mais diversas, os retornos para o interior de Minas, em épocas que permaneceu praticamente esquecido, malgrado esporádicas participações em mostras coletivas, vindo a ser reconhecido em definitivo só no início dos anos 1980. Além das séries das Trajetórias e dos Ônibus, que Colares temeu que o estigmatizassem (tamanha a receptividade que tiveram), o artista produziu, nos anos 1970, filmes experimentais e, na década posterior, um conjunto de pinturas abstratas que dialogavam com um de seus conjuntos mais tocantes de trabalho desenvolvido nestes dois períodos: os Gibis, pequenos livros cujas páginas recortadas iam criando diferentes composições à medida que eram manipuladas. Talvez os Gibis sejam o outro espelho daquela junção entre uma “quase pop” e o vocabulário formal sempre cultivado pelo artista. Seria o objeto por excelência da cultura de massa, que, não obstante, evoca nostalgicamente a memória de um tempo encerrado, a recordação de dias joviais. “Desejar ser o herói-América, perdido no Cine São José, nos bancos do Campo de Santana”, como dissera Hélio Oiticica para seu amigo. Uma trajetória passageira como o brilho metálico que risca as cidades; cujo impacto, porém, segue vivo.

Cildo Meireles Sobre Raymundo Colares

Como você conheceu Colares?

Nos conhecemos em 1967, dividimos morada e ateliê, depois ele foi para Paraty. É importante que se diga, acho que ele operou uma síntese perfeita daquele momento para os brasileiros, da presença da Pop Art, conseguiu isso de maneira muito singular e bonita. Sou fã dele.

Como era seu processo criativo?

Era Pop Art, mas com uma construção rigorosa. As peças de ônibus ele criava com vetores de velocidade, um diagrama usando as pinturas das laterais dos ônibus. Ironicamente, um dia me ligam dizendo que o Colares tinha sido atropelado. Cheguei no hospital perguntando: “Pô, Colares, o que aconteceu?”. E ele: “Eu tinha saído da ópera em Botafogo e fui para um bar, quando fui atravessar a rua vinha um vulto azul metálico”.

E como amigo?

Era uma pessoa maravilhosa, doce, atenciosa. Quando bebia, aí… Já bebíamos normalmente, mas ele ainda fazia uma mistura com medicamento que não combinava. Teve um episódio engraçado que presenciei: estávamos voltando de um casamento em Niterói, eu vinha na frente conversando e atrás vinha Colares, e passamos por uma cruz escorada em uma mureta, cheia de santinho, imagens e terços… Eu logo pensei: “isso vai dar problema”. Quando olhei para trás, vi o Colares carregando a cruz. Chegamos na roleta das barcas e a cruz não passava, eram 6 h de quarta-feira, aquele tumulto. Quando ele estava passando pelo portão do lado, chega um cara de dois metros de altura sacudindo um guardinha: “eu tô vindo do Paraná até Salvador e esse cara entrou no meio da minha promessa, estragou tudo”. Teve uma confusão, as pessoas tomando partido do pagador de promessa, até que alguém sugeriu que o garotão – Colares – levasse a cruz de volta para o mesmo lugar. Todo mundo concordou, claro, o guarda porque queria parar de ser sacudido, o fortão porque não ia ter que fazer tudo novamente e o Colares porque, naquela altura, qualquer coisa seria lucro para ele.

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