© Sam Drake, © Tate 2007

Cinco anos após o falecimento do pintor inglês William Turner (1775-1851), as obras encontradas em seu ateliê foram doadas à nação britânica. O espólio – composto de aproximadamente trezentas pinturas a óleo e cerca de 30 mil estudos e aquarelas – teve como destino inicialmente a National Gallery e posteriormente a Tate Gallery. Com o vertiginoso crescimento do acervo, a Tate viu-se obrigada a reorganizar suas coleções em quatro edifícios: a que passou a se chamar Tate Britain é o prédio original localizado em Londres; a Tate Liverpool, criada em 1988; a Tate St Ives, aberta em 1993, na praia de St. Ives ao sudoeste do país; e a Tate Modern, inaugurada em 2000 também em Londres. A Tate Britain salvaguarda a produção de arte britânica a partir do século 16 e nas outras três sedes circulam entre si a coleção de obras britânicas de períodos mais recentes e de coleções internacionais do século 20 em diante.

Embora a origem desse complexo denominado Tate tenha ocorrido no final do século 19, o museu tornou-se referência para a pesquisa e difusão da arte moderna e contemporânea, e está em plena sintonia com as formas contemporâneas de comunicação, incorporando participações em redes sociais e blogs. Seu site, aparentemente simples e com textos muito curtos, demonstra uma leveza e grande atratividade para jovens, alem de permitir uma viagem virtual pelas quatro unidades. Há também recursos para especialistas, que podem pesquisar as imagens e informações sobre a coleção em um rico banco de dados. Porém, o mais interessante é que qualquer um que domine a língua inglesa pode vivenciar múltiplas experiências de aprendizagem em arte, seja por meio da compra de cursos on-line, ou pela possibilidade de baixar gratuitamente materiais educativos e podcasts pelo iTunes. Esse mesmo tipo de experiência pode ser vivenciado presencialmente na exposição Cores e Linhas: Experimentos de Turner, que ocupa duas salas da Tate Britain apresentando os métodos e as técnicas de trabalho de um conjunto de obras sobre papel do artista William Turner, pertencentes à coleção do museu.

A ideia da mostra é possibilitar aos visitantes a compreensão do processo de trabalho e as relações entre as técnicas de gravura e de aquarela. Na primeira sala, os temas são em torno da gravura, explicitando as etapas de gravação e impressão. Há também um diagrama pintado em aquarela, baseado na teoria das cores de Goethe, utilizado por Turner em uma palestra sobre perspectiva, no qual fica demonstrado como a cor pode criar a ilusão de profundidade em uma pintura plana.

Para melhor compreensão da relação entre luz e cor, o visitante é convidado a realizar quatro experimentos científicos, e ver como Turner se utilizava da ciência para aplicar a cor. “Da cor para a linha” é um módulo de grande destaque na sala, pois apresenta como os gravadores que trabalhavam para o artista tinham que produzir modelos complexos de linha preta que, quando impressos em papel branco, poderiam dar a impressão de cor, utilizando várias técnicas e truques para “traduzir” as cores em uma linguagem baseada em tom. Cores profundas como o azul eram traduzidas por linhas escuras, enquanto cores mais claras como o amarelo seriam criadas usando o branco do papel. Meios tons como os vermelhos poderiam ser pretos ou brancos, de acordo com a ênfase colocada na pintura de Turner.

A segunda sala trata das viagens do artista feitas pela Grã-Bretanha, França, Itália e Suíça, e de como a variação da incidência de luz de cada lugar afetava o seu trabalho. Há ainda, no mesmo ambiente, um módulo dedicado à técnica do desenho. Como proposta interativa, a exemplo do método de ensino por meio da cópia dos séculos 18 e 19, há um aparato que permite que o visitante realize cópias de desenhos do artista, visando a melhor compreensão de recursos gráficos para efeitos da luz, sombra e perspectiva.

A partir dessa vivência, pode-se aprender muito sobre o fazer gráfico e, principalmente, descobrir que não é à toa que Turner se tornou um ícone do patrimônio cultural britânico. A sua obra estava extremamente impulsionada pelo desejo de descobrir novas formas de aplicação de linhas e cores, utilizando métodos muito semelhantes aos científicos. Isso só é possível averiguar pelo rigor de seus registros que elucidavam seus achados. E não menos valioso é o gesto de aprender, registrar as aprendizagens e permitir que outros aprendam. Palmas para o museu que ajuda seus visitantes a desfrutarem dessas descobertas.

Denise Grinspum é gerente geral do Instituto Arte na Escola

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