DASARTES 13 /

Provocação

Glória ferreira fala sobre a exposição de Joseph Beuys.

A Revolução Somos Nós, de Joseph Beuys, reunindo duzentos cartazes da coleção de Luigi Bonotto e um conjunto de múltiplos, é ampliada por documentários de diferentes épocas. Com realização da Associação Cultural Videobrasil, e apresentada no Sesc Pompeia, de 15 de setembro a 28 de novembro, a exposição, apesar da sua, digamos, singeleza se pensarmos nos grandes trabalhos do artista, apresenta de maneira extremamente clara o seu embate não apenas com o meio da arte, mas também com o universitário, para explicitar a dimensão política de seu conceito ampliado de arte. Destaca-se, assim, no contexto da Bienal e da pluralidade de exposições no Rio e, sobretudo, em São Paulo, com a relevância atual adquirida pelo tema “arte e política”.

Na referida exposição, chama particular atenção o filme Provokation: Lebenselement der Gesellschaft – Zu Kunst und Antikunst (“Provocação: elemento vital da sociedade – sobre arte e antiarte”), de 1970, realizado pela Westdeutscher Rundfunk, de Düsseldorf. O programa reuniu para uma conversa sobre arte com Beuys e Max Bill o filósofo Arnold Gehlen, o crítico Wieland Schmied e Max Bense. O auditório é pequeno para um público que se acomoda entre fileiras de cadeiras, fica em pé ou encontra brechas aqui e ali. Abarrotado, diríamos. Todos fumam: Bense sua cigarrilha, Beuys um cigarro atrás do outro e o público também. O calor sufocante torna os lenços indispensáveis. O debate, por seu lado, também esquenta. Claques, poucas vezes favoráveis a Beuys, fazem-se sempre presentes. Max Bill, que em sua passagem pelo Brasil cunhou nossa história da arte, parece desconfortável e chega a comparar o domínio da arte ao da física, ou de outras disciplinas com seus campos específicos. Max Bense, cujo livro Pequena Estética (tradução de Haroldo de Campos, Editora Perspectiva, 1970) marcou época no Brasil com sua estética da informação e do racionalismo existencial, revela-se o mais intransigente. Beuys, embora chamado de “professor”, enfrenta desde 1968, a acusação de seus pares da Academia de Düsseldorf por seu “diletantismo político”. Com argumentos variados, o artista debate-se afirmando e reafirmando sua teoria política sobre a escultura social como forma de esculpir o mundo. Sem dúvida, muito de mitológico entremeia sua teoria política, mas indica, como em vários outros artistas, críticos, e historiadores da arte nesse período histórico, a necessidade de pensar a política nos próprios termos da arte, colocando em questão o sistema de arte diante das interrogações sobre o seu conceito e sua inserção no mundo.

Questão, no fundo, sempre atual, seja ela, por exemplo, da ordem do social, como no Brasil dos anos 1930/40, ou na tentativa de transformação do mundo pelo signo artístico, como na tradição construtivista – até porque, como diz Jacques Rancière, a “arte faz política antes que os artistas o façam”. A dimensão política que perpassa a arte das últimas décadas se evidencia, sobretudo, na multiplicidade de grupos e coletivos de artistas que operam na ambiguidade transitiva da arte e da vida, e em esferas fora dos meios culturais institucionalizados. Dimensão que revela, como afirma Fernando Cocchiarale (Arte&Ensaios, n. 11, 2004), a “crescente indefinição (e confusão) de fronteiras entre arte, ética, política, teoria, afeto, sexualidade, público e privado”. E que resvala, contudo, com excessiva frequência, no “politicamente correto”, presente em muitas apresentações – por exemplo, na atual Bienal. Esquece-se, talvez, que a reconhecida falência da representação do povo pelos políticos não anula o poder de provocação da política.

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