© Carlito Carvalhosa

Em uma de suas composições, Arnaldo Antunes entoa os seguintes versos: “Debaixo d’água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido, só faltava respirar. Mas tinha que respirar”. Situação análoga se faz recorrente em relação aos museus: compreendendo conjuntos de importantes artefatos e obras de arte, ao descontextualizá-los e anular o tempo e o espaço exteriores, o processo de musealização, muitas vezes, arrisca-se a lhes retirar certo sopro vital. Contudo, a função de abrigar, conservar e exibir os exemplares artísticos e culturais de diversas épocas e sociedades permanece imprescindível para a compreensão de nossa própria história. Nessa linha tênue entre preservar e retirar camadas de significado, cabe à figura do curador encontrar estratégias que voltem a insuflar vida a determinado conjunto, buscando novas formas de trazer relevância e atualidade às peças de uma coleção.

Em instituições cuja exposição é permanente, como a Fundação Eva Klabin, a questão se torna ainda mais complexa. Localizada no Rio de Janeiro, a fundação tem lugar na antiga residência da colecionadora que lhe dá nome e se mantém – salvo pequenas exceções – da mesma forma como estava por ocasião da morte de sua dona, em 1991. Mobílias, tapetes, objetos, praticamente nada foi retirado ou movido. Dessa forma, visitar a fundação é ser transportado para outro tempo e lugar, é adentrar não apenas um museu, mas, de certa forma, a intimidade da própria Eva Klabin. Ao expor o desejo de transformar sua casa em espaço aberto ao público após sua morte, Klabin nos permitiu, além do acesso à sua vasta coleção – composta por mais de duas mil peças –, explorar, a cada cômodo desvendado, seus gostos pessoais, transitar por entre suas memórias e, claro, imaginar e recriar por nós mesmos, quem foi esta mulher, quem foi Eva.

Desde novembro, quem entra na casa-museu passa ainda por outro processo de deslocamento: já no andar térreo, um cômodo nos tira abruptamente da viagem à qual a fundação conduz, arremessando-nos a outro espaço: um apartamento de 24 metros quadrados está instalado na luxuosa residência, causando estranheza imediata. A inusitada situação, proposta por Nelson Leirner, compõe a atual edição do Projeto Respiração, que comemora dez anos de existência.

INSPIRAÇÃO

Crítico de arte e curador da instituição, Marcio Doctors diz que, quando entrou pela primeira vez na Fundação Eva Klabin, teve uma experiência inominável, tanto pela instituição reunir um dos mais importantes acervos de arte clássica no Brasil, compreendendo quase cinquenta séculos de história, quanto pela aproximação que o espaço cria com a figura de Eva Klabin. Marcio percebeu a casa-museu como uma espécie de monumento, que celebra não apenas a arte, mas a vida e a personalidade da mulher que ali residira.
Porém, como manter essa casa em constante pulsação? Uma vez que a fundação e a coleção já foram vistas, como manter o desejo de novamente visitá-las? Esse era o desafio que se instalava em cada centímetro do espaço.

A partir desses questionamentos, Doctors desenvolveu o cerne do Projeto Respiração: de tempos em tempos, convidaria artistas a desenvolverem projetos especiais para o espaço da fundação, intervenções que dialogassem diretamente com o acervo, a casa e a própria memória de Eva Klabin, expandindo o conceito de monumento para a compreensão de Delleuze e Guattari: “Um monumento não comemora, não celebra algo que passou, mas transmite para o futuro as sensações persistentes que encarnam o acontecimento”. Assim, foi implantado o projeto que viria fundar novas sensações e abrir diversas fendas em uma coleção predominantemente clássica e arqueológica, preenchendo-a de ares contemporâneos.

EXPIRAÇÃO

Primeiro artista convidado pelo projeto, em 2004, José Damasceno ressignificou vários espaços da casa. Em suas ações, fechou passagens e abriu possibilidades, ampliando a potência imagética do lugar. Depois dele, mais de 20 artistas passaram pelo projeto, criando novas possibilidades de encontros com a casa-museu. Ernesto Neto cobriu todos os móveis com malha de algodão; anos depois, Anna Bella Geiger criou um verdadeiro sítio arqueológico no mesmo espaço; Brigida Baltar, usando pó de tijolo, recriou os arabescos dos papéis de parede no banheiro e desenhou nas paredes do hall de entrada; Claudia Backer evocou feminilidade e ancestralidade em um ambiente rosa no qual transformou a sala de jantar; Marta Jourdan projetou gotas de água sobre as paredes e objetos do quarto de dormir. Dentre os muitos nomes que já passaram pelo projeto, até mesmo o curador Marcio Doctors produziu uma obra sonora para o auditório. Assim, initerruptamente, artistas oxigenaram a Fundação Eva Klabin com seus processos, fazendo-os ressoarem pelos quatro cantos da casa.

Atualmente, quem passar pela instituição poderá habitar outra casa dentro da casa-museu. A obra Nossa Casa, Minha Vida – Visite um Apartamento Decorado, de Nelson Leirner, é talvez a proposta mais radical já criada para o Respiração, já que, ao intervir, elimina completamente um cômodo da casa. Tendo lugar onde originalmente fica a Sala Inglesa, a intervenção amplia a discussão para além dos muros da fundação, em franco diálogo com o atual e conturbado contexto político do país. Além da clara relação do título com o projeto do Governo “Minha casa, minha vida”, os contrastes experimentados pelo público evidenciam um Brasil dividido, a começar pelo fato de Leirner ter criado uma casa completa dentro de apenas um cômodo da casa-museu na Lagoa – um dos lugares com o metro quadrado mais caro do país. Móveis simples, cores fortes, tudo se transmuta quando se passa de um ambiente ao outro, inclusive a pequena e irônica coleção de bibelôs na estante cria um paralelo crítico e bem-humorado com a coleção de raros objetos na sala em frente.

Ampliando os horizontes do próprio projeto e de sua relação com o sistema de arte e o “sistema-mundo”, a intervenção de Leirner mostra o grande fôlego que o Projeto Respiração ainda apresenta após dez anos. Ainda que com a mesma fórmula, os resultados se projetam de maneira tão distinta quanto as formas como os artistas convidados se deixam impactar e encantar por Eva Klabin e sua coleção, garantindo o constante interesse do público pela edição seguinte. Como escrito por Theodor W. Adorno, “para quem está próximo às obras de arte, elas representam objetos de encanto tanto quanto a própria respiração”.

ENTREVISTA COM MARCIO DOCTORS

Como são selecionados os artistas para o projeto?
A seleção é feita por meio de convite, baseada na percepção de que aquele artista é capaz de contribuir com uma nova camada de sentido para os múltiplos aspectos de uma situação tão especifica. O artista precisa ser sensível tanto à coleção quando ao fato de uma casa-museu ser um museu da vida, por isso muitas intervenções se relacionam com a personalidade e os desejos de sua instituidora. O artista convidado precisa ter a capacidade de aceitar e perceber que está em uma espécie de desvio do tempo, em que ele interferirá, como se desancorasse o tempo através da experiência de sua própria atualidade.

Quais as dificuldades na implantação das intervenções?
Cada proposta é minuciosamente estudada entre eu, o artista e os museólogos da FEK. Há uma grande preocupação com a preservação do espaço e do acervo. A integridade da coleção implica limites, contornados a partir de uma negociação e da capacidade dos artistas de apresentarem soluções. O Respiração é resultado de um processo muitas vezes exaustivo. Isso o torna uma experiência muito atual, no sentido de que a oferta no mundo de hoje é maior do que nossa capacidade de escolha. O projeto mostra que, na arte, a escolha é sempre mais forte do que a oferta, porque ela é desejo.

Quais mudanças o projeto trouxe para a fundação?
O Respiração deu um perfil para a FEK, tornou-a uma experiência paradigmática ao mostrar que um bem preservado por gerações passadas só faz sentido se as gerações que o receberam puderem usufruir dele. Um dos objetivos principais do projeto é gerar reflexão sobre a história da arte e o sentido que um bem reconhecido e patrimonializado no passado pode ter para as novas gerações. Em cada nova intervenção, está sendo comemorada a mesma potência inventiva e expressiva da arte, que impulsionou a realização de todas as obras reunidas na coleção. Essa é a força do Projeto Respiração e sua singularidade.

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