Projeto Educativo da 29ª Bienal de São Paulo – Um espaço de muitos diálogos

© Mariana Galender

Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos, curadores da 29ª Bienal de São Paulo, já na escolha do verso de Jorge de Lima que dá nome à mostra – “Há sempre um copo de mar para um homem navegar” – propõem refletir sobre arte e política à luz da poesia. Ao criar os Terreiros, espaços de encontro dentro da exposição e, ao mesmo tempo, conceitos que possibilitam diferentes leituras da mostra, os curadores abrem-nos clareiras, espaços para pensar a arte com um frescor que pode revelar novas significações.

Para o projeto educativo, esta proposta curatorial propicia uma grande oportunidade de interlocução, gerando diálogos entre os integrantes da equipe e com o público, possibilitando aproximações com a arte e a vida cotidiana.

O Educativo, neste contexto, oferece programação e materiais de formação variados para públicos diversos. Tendo como foco a experiência com a arte, as ações não constituem um guia para a compreensão dos trabalhos, mas convites para quem quiser se aproximar dos conceitos, poéticas, artistas e obras que integram a mostra. A partir de questões disparadoras – que dialogam com os conceitos dos Terreiros –, a equipe do educativo começa suas conversas com as pessoas que encontra nos lugares aonde vai. As questões propostas para iniciar a conversa são: Do que é feita a memória? Como começar uma cidade? O que permanece invisível no nosso dia a dia? Quando você enxerga algo do outro em você? Por que calar? Como a arte pode mudar a vida?

A ideia é encorajar o público a refletir sobre a contemporaneidade, pensar sobre as urgências do dia a dia, compartilhar histórias, acreditar em percepções sobre a vida e os trabalhos de arte contemporânea, lançando mão de seus repertórios e vivências. O Educativo também oferece informações que ampliem o universo de compreensão da arte.

Como falar com muitas pessoas conversando com cada uma?

Esta pergunta se apresentou já na elaboração deste projeto. Uma exposição como a Bienal de São Paulo não precisa ser restrita a um número reduzido de pessoas. A Fundação Bienal tem como compromisso atender muitas pessoas e, para isso, foram estruturadas ações antes, durante e depois da mostra.

As ações antes da Bienal são divididas em quatro eixos: 1) cursos e palestras para professores das redes pública e privada da cidade de São Paulo, do interior e de outros estados; 2) formação de educadores de ONGs – ações de artistas em comunidades; 3) formação de educadores para atendimento ao público; e 4) Seminário Internacional Educação, Arte e Política.

Durante a Bienal, além das visitas orientadas, há uma programação específica nos terreiros e nos ateliês, voltada para jovens, crianças e professores, além de palestras com artistas e com a curadoria para diferentes públicos. A ideia é que haja troca, em grupos em que seja possível conversar e olhar no olho, ou passar o microfone de modo que quem quiser possa falar.

Após a exposição, o compromisso é dar continuidade às parcerias estabelecidas e realizar itinerâncias em diversas localidades.

Encontros com professores

Os artistas nos colocam em contato com a invenção. São eles que ouvem o impossível no território da liberdade e põem em prática sua ideia. Os processos educativos dentro de uma Bienal se dão nesse lugar cheio de vida, tensões e incongruências. Como receber as pessoas em uma mostra deste porte e potencializar seu contato com as obras? O Educativo da 29ª Bienal envolve escuta e diálogo, um trabalho colaborativo em que o encontro se dá no pequeno grupo e na grande conversa.

A equipe de coordenação do projeto foi a escolas, comunidades e cidades para encontrar professores das redes pública e privada, atendendo cerca de 30 mil professores. Durante a Bienal, alguns destes professores puderam mostrar os trabalhos desenvolvidos.

Antes da abertura da Bienal, foi realizada uma visita especial para professores, para que pudessem ver a exposição com calma, antes de trazer seus alunos.

Tão Perto Tão Longe

Em parceria com a Secretaria de Estado da Educação, criamos um curso de formação à distância chamado Tão Perto Tão Longe, destinado a professores da rede pública estadual.

A Bienal nos CEUs

A Fundação Bienal de São Paulo, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, desenvolveu o projeto Bienal no CEU, levando aos Centros Educacionais Unificados obras de videoarte realizadas por artistas que participam da 29ª Bienal. Em quinze CEUs onde os vídeos foram apresentados, coordenadores do educativo realizaram encontros com professores e alunos para dialogar sobre os vídeos.

Os educadores e sua formação

O público que visitou a 29ª Bienal encontrou uma equipe de trezento educadores preparada para o diálogo, a partir de um curso realizado em parceria com as principais instituições culturais de São Paulo. A primeira etapa deste curso contou com quinhentos estudantes universitários, que visitaram os setores educativos e as exposições de 22 espaços culturais de São Paulo. O objetivo foi proporcionar o contato com diferentes maneiras de perceber o mundo, a arte e as ações educativas. A segunda etapa contou com trezentos estudantes selecionados e envolveu o aprofundamento sobre os conceitos e artistas da mostra.

Os educadores são estudantes de graduação dos mais variados cursos. O trabalho na exposição também é processo diário de formação profissional.

Entre atenções e tensões

O projeto educativo da Bienal é um misto de criação e logística que acontece dependendo da forma como as equipes se organizam.

Fazer arte e educação é respiração, movimento, reflexão, tomar consciência ou sentir a vitalidade que nos conecta a todos, sentir o sopro de vida. Fazer educação através da arte é fazer junto. As pessoas e suas ações permeiam as relações com o espaço e com as obras, dos recepcionistas aos seguranças, do presidente aos educadores, dos montadores às faxineiras, a luminosidade, o espaço físico, as obras que compõem a exposição, cursos e as intenções ali postas. O desafio é, artesanalmente, fazer pontes entre os envolvidos, e todos são responsáveis por isso.

Em uma exposição que envolve um grande número de pessoas, tanto a equipe que trabalha na instituição como os visitantes e participantes, torna-se necessário fazer ajustes e criar novos procedimentos. Esta relação intensa gera aprendizagem, onde substituímos o lugar do embate pelo debate. Esta ação educativa e política não se coloca como um corpo enrijecido, mas como um corpo coletivo que se alimenta da escuta da arte, em transformação. Afinal, se arte é algo vital, uma Bienal é para revitalizar.

Stela Barbieri – Curadora Educacional

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