Prêmio PIPA: possibilidade de uma curadoria coletiva?

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Com dois anos de existência, o Prêmio Investidor Profissional de Arte – Prêmio PIPA – propõe uma forma de seleção que incita ao debate sobre o conceito de curadoria: não há inscrições para concorrer. Os artistas são indicados por críticos, curadores, galeristas, colecionadores e artistas já consagrados. Segundo o regulamento, o “eixo curatorial” consiste na escolha de artistas de trajetória recente que já tenham se destacado no circuito, não importando com qual mídia trabalhem. Os membros do Comitê de Indicação também devem considerar “o valor do prêmio para melhor desenvolvimento e crescimento do artista”.

Cada um dos 30 membros desse Comitê pode sugerir até cinco artistas. Como toda seleção, inclui critérios subjetivos e questionamentos: como avaliar, por exemplo, o destaque de algum artista que precise ser premiado com o PIPA para alavancar sua carreira? Por isso, é admirável o trabalho da crítica e curadora Daniela Name, participante do Comitê de Indicação em 2011, ao publicar em seu blog os critérios adotados por ela.

São selecionados quatro finalistas para expor no MAM-RJ, que receberá obras doadas por cada um dos artistas. Em 2010, Cinthia Marcelle, Renata Lucas, Marcelo Moscheta e Marcius Galan foram os artistas participantes dessa exposição. Já em 2011, os selecionados foram André Komatsu, Eduardo Berliner, Jonathas de Andrade e Tatiana Blass. As artistas premiadas, Renata Lucas (em 2010) e Tatiana Blass, receberam um prêmio de R$100 mil, incluindo uma residência na Gasworks, em Londres. Em relação ao prêmio do voto popular de R$ 20 mil, diferentemente do ano passado, que teve Marcelo Moscheta como ganhador, a premiada foi a mesma: Tatiana Blass.

A iniciativa conta também com uma premiação online em que todos os indicados concorrem a R$10 mil. Premiada em 2010, Ana Paula Oliveira discute as relações do espaço, a construção e a “desconstrução” em esculturas e instalações. Já Iuri Sarmento, premiado em 2011, trabalha com pintura: “composições pop-barrocas”, conforme escreveu Solange Farkas em texto para exposição do artista no MAM-Bahia.

Todos podem participar desse júri online e “curtir” o artista mais representativo. Para discutir a premiação, o Coletivo Filé de Peixe, um dos indicados deste ano, propôs uma continuação de seu trabalho artístico: caso fossem vencedores, dividiriam o dinheiro com quem votasse neles. O objetivo seria criar uma bolsa paralela dentro do sistema das artes no qual cada “participante/votante passa a ter direito igualmente a uma parte/AÇÃO desse valor”, segundo publicação no blog do Coletivo.

Para ajudar a escolha on-line do público, o site do Prêmio PIPA apresenta perfis para cada um dos artistas indicados: fotos de obras, textos e vídeos com entrevistas realizadas especialmente para o projeto constituem acervos de pesquisa. A plataforma (que pode ser ainda mais desenvolvida se ampliada pela inserção de textos críticos ou entrevistas mais longas) oferece embasamento para reflexões sobre o que seria essa curadoria da arte brasileira contemporânea. É importante considerar que essa prática, uma possibilidade de construção de memória, coloca em discussão o espaço da rede como um continuum do espaço expositivo.

A multiplicidade de vozes que compõe a premiação do PIPA nos leva a contemplar a ideia de curadoria coletiva, mas é necessário acompanhar a repercussão dessas primeiras edições, bem como o andamento do programa, para analisar a consolidação dessa estrutura. Na edição de 2010, ocorreu uma polêmica sobre os artistas indicados: muitos já tinham uma trajetória consolidada há anos. É importante considerar que os termos “jovem artista” ou “revelação” também são questionados a partir de outras premiações, como o Rumos Artes Visuais outorgado pelo Itaú Cultural, e na exposição Nova Arte Nova realizada em 2008 e 2009 no CCBB do Rio e de São Paulo. No site Canal Contemporâneo também se encontra comentários sobre a participação de galeristas no Comitê do Prêmio PIPA e seus possíveis critérios mercadológicos de seleção. Apenas com o tempo será possível avaliar se a dinâmica desse novo formato não seria mais uma reprodução da organização já consolidada do circuito da arte ou se o Comitê de Indicação está, de fato, abrindo espaço para jovens artistas.

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