DASARTES 09 /

Por que ensinar arte?

O Instituto Arte na Escola traz sua experiência para as páginas da Dasartes

Dá para imaginar uma vida desvestida de arte? Uma vida sem música, sem cinema, sem um bom quadro para apreciar? Por que recebemos como a mais remota herança de nossa presença na Terra as inscrições nas cavernas de Lascaux? Porque são os primeiros registros e, também, as primeiras manifestações artísticas.

Para Bertold Brecht: “Da mesma forma como é verdade que em todo homem existe um artista, que o homem é o mais artista entre todos os animais, também é certo que essa inclinação pode ser desenvolvida ou perecer. Subjaz à arte um saber que é saber conquistado por meio do trabalho”.

Esse trabalho que constrói os saberes da arte formalizados é o que se convencionou chamar de arte-educação. Ele ocorre na escola de maneira formal e seriada, ou não formal nos museus e centros culturais. O certo é que a percepção e a decodificação das linguagens artísticas – sobretudo as contemporâneas – requerem um aprendizado contínuo e sistemático.

Embora haja divergências sobre as metodologias utilizadas para o ensino da Arte, no Brasil, um passo importante na busca de um piso comum foi quando o MEC criou e divulgou, em 1997, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para todas as disciplinas escolares. Mais recentemente, esse esforço vem sendo apropriado por estados e municípios que desenvolvem seus próprios Referenciais Curriculares.

Se houve época no Brasil em que a Arte não encontrava espaço no currículo escolar, hoje, é disciplina obrigatória a partir da 6º ano do Ensino Fundamental (antiga 5ª série), deve ser ministrada por professor com formação universitária específica, informado pelos PCNs que se apoiam em três vértices: a leitura da obra de arte, sua contextualização no tempo e no espaço e o fazer arte.

Entende-se contemporaneamente que é impossível ensinar arte sem arte, sem a apreciação da boa arte – mesmo sabendo o quão elástico o conceito da “boa arte” pode ser. O que já não se aceita é que a “arte adulta” possa conspurcar a ingenuidade e a criatividade da criança que deveria ser levada a criar livremente. Essa orientação, vigente a partir dos anos 1960 no Brasil e que teve um impulso com a criação das Escolinhas de Arte em muitas capitais a partir do modelo de Augusto Rodrigues, no Rio, levou a um movimento cuja denominação genérica era laissez-faire, enfatizando o “espontaneísmo”, que se deveria deixar aflorar na criança, esse “bom selvagem”.

O advento do Discipline Based Art Education, nos Estados Unidos (amplamente difundido pelo Getty Institute), deu origem à Abordagem Triangular no Brasil, formulada pela Profª. Ana Mae Barbosa e divulgada por ela e pelo Arte na Escola da Fundação Iochpe. É nessa triangulação que se abre espaço para além do fazer artístico, para a leitura ou apreciação da obra de arte e, igualmente, para a sua contextualização. Não é possível estudar uma obra renascentista como se ela tivesse sido criada em um contexto contemporâneo, e vice-versa. É preciso entender que os fenômenos artísticos são condicionados pelo momento e pelo lugar em que surgem.

Ninguém se questiona sobre a importância do estudo de Português, Matemática e Ciências –, mas Arte? Num mundo onde os testes estandartizados de aprendizado são cada vez mais importantes, há espaço para as artes, tão pouco propícias a esse tipo de aferição? Várias pesquisas realizadas, sobretudo nos Estados Unidos, apontam na mesma direção: se o objetivo é entender as artes no conjunto das disciplinas, os ganhos são imensos. A pesquisa conduzida por Randi Korn & Associates para o Guggenheim Museum, por exemplo, indica que a educação artística melhora o desempenho dos estudantes em outras áreas do conhecimento. O estudo cita melhoria na alfabetização e nas habilidades do pensamento crítico, como descrição acurada, levantamento de hipóteses e raciocínio.

Realizada em Chicago, a pesquisa Arts Education Partnership – Critical Links mostra que o ensino de qualidade nas artes estimula e dá lastro ao aprendizado de outras matérias, especialmente para “alunos em situação de vulnerabilidade social”. Revela ainda que onde a Arte foi integrada a outras disciplinas, os níveis de leitura foram acelerados em, no mínimo, um semestre. Levando em conta que há outros fatores intervenientes (como família e meio-ambiente), os Profs. James Caterrall e Richard J. Deasy concluem que a arte-educação é, pelo menos, um fator que contribui fortemente para o resultado acadêmico.

“A essência da inovação está em que o caminho para se chegar a ela não é conhecido de antemão: por conseguinte, é impossível predizê-lo de modo lógico”, afirma W. Beveridge.

A arte caminha por esse meio-fio do que não é lógico nem predizível. Traz em si própria a capacidade de CRIAR, cuja definição, segundo Domenico de Masi, é iluminar o que antes estava escuro, dar forma àquilo que era caótico, criar o que nunca havia sido gerado, antecipar o futuro, produzir o porvir.

O que não é pouco.

www.artenaescola.org.br

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