O Rio de Janeiro é uma cidade com deslumbrante vocação para o protagonismo: possui um espaço no imaginário universal, seja pela sua paisagem, sua gente ou a radical experiência urbana que oferece. Um dos desafios que se apresenta para o Rio no momento atual é o de se entender cada vez mais como palco essencialmente cosmopolita, capaz de absorver diferentes criatividades, culturas e comportamentos para dentro de sua pele urbana. E a arte pública, que tem como característica a capacidade de amplificação em grande escala, aponta justamente nesse sentido: ela está lá para ser apreciada e criticada por todos, para gerar uma zona de atrito entre a fronteira da criatividade e a relação que o cidadão tem com o espaço público.

Encontrar abertura a outras ideias para o Rio é uma maneira de colocar o espetacular contexto da cidade em evidência. Essa cidade que foi iconizada por uma obra de arte pública, o Cristo Redentor, e germinou poetas como Gentileza em seus viadutos – fez surgir inúmeras obras de artistas brasileiros nas suas ruas como Waltercio Caldas, Angelo Venosa, Tomie Ohtake, Franz Weissman e Amílcar de Castro – precisa ter uma atitude positiva que estimule a criatividade e o diálogo entre culturas distintas.

Outras sensibilidades são necessárias para nos ajudar a entender quem somos: nos quase cinco séculos de história dessa cidade, artistas e viajantes trouxeram, em diferentes momentos, um olhar outro sobre o que costumávamos entender como a nossa própria imagem, adicionando uma nova camada para a forma como nos identificamos hoje. O que seria da iconografia do Brasil sem nomes como Eckhout, Debret, Ferrez, Verger, entre tantos outros que aportaram por aqui? O olhar estrangeiro foi o espelho para nossa própria identidade, às vezes nos refletindo, às vezes nos estranhando.

O projeto OiR propõe justamente uma espécie de retomada desse olhar estrangeiro a partir da inserção de ideias novas vindas de artistas de diferentes partes do mundo e que nunca haviam desenvolvido obras especificamente para o Rio. Instigados pela cidade, esses artistas responderam a ela.

Os artistas dessa edição de OiR são provenientes de linguagens e origens muito distintas, mas carregam em comum a experiência de desenvolver trabalhos em grande escala. Há dois elementos comuns entre as obras que agora ocupam a cidade: a importância e a necessidade de se relacionar com a ideia de espaço comum, de meio, aquilo que nos une, a zona de circulação de contato e aproximação entre diversos vetores. Isso se apresenta de maneira evidente no labirinto de vidro de Robert Morris, que reflete e transparece a cidade na sua principal praça, a Cinelândia. Ou na delicada Oca de argila, de Andy Goldsworthy que, feita da terra da cidade socada por seus músculos, sublimou e ruiu. Ou na “Cascasa” de madeira de Henrique Oliveira, que trouxe de volta a estética da favela para o recém-urbanizado parque Madureira, que jaz sobre uma antiga favela de madeira.

Ryoji Ikeda, dentro de outra leitura, lança suas projeções digitais que entrelaçam ondas de rádio com as ondas do mar e revela, por meio delas, as estrelas invisíveis dos céus do Rio projetadas sobre as areias da praia do Diabo, no Arpoador. Brian Eno, artista seminal da relação da música com as novas mídias, apresenta-se com suas pinturas mapeadas e desmaterializa a arquitetura dos Arcos da Lapa, região mais musical da cidade, que passou a se mergulhar no silêncio de sua música. Por fim, a intervenção de Jaume Plensa na paisagem da Enseada de Botafogo – a cabeça de uma menina surgindo monumentalmente no espelho d’água que integra o clássico cartão postal da cidade, em conjunto com o Pão de Açúcar – nos faz repensar essa paisagem, olhando-a de forma diferente, com um novo e inesperado centro.

É por meio de iniciativas públicas como essas que poderemos encontrar uma porta de acesso dentro da sociedade brasileira para levar cultura de qualidade do mundo para o espaço aberto, acessível, democrático e livre, permitindo que todas as camadas sociais se relacionem com conteúdos normalmente mantidos cerrados para poucos.

O único lugar possível para a arte contemporânea existir é na zona de desconforto, no território fronteiriço da incerteza e do risco. Arte contemporânea tem a função de sempre expandir nossa percepção do que arte pode ser. Isso se intensifica no espaço urbano. Arte pública não é sobre coisas, mas sobre acontecimentos. Arte pública é o risco amplificado.

Com esse projeto, o Rio entrou para o time das cidades que aceitaram correr esse risco. OiR é ouvir Outras Ideias e pensar o Rio de uma forma diferente. OiR quer dizer Rio ao contrário.

Peruntas para Jaume Plensa

Em sua conferência, foi falado da importância do acaso em seu trabalho. Como o acaso foi importante para a obra do OIR?

O acaso sempre desempenha um papel importante na criação da obra de arte. O trabalho em espaço público também requer a participação do acaso desde o momento em que o projeto e o lugar começam a conversar.Você tem que deixá-los andar juntos.

Como sua obra se insere na paisagem de Botafogo? E porque ela tem os olhos fechados?

Creio que a obra se interpenetra perfeitamente com a paisagem. A cabeça surgindo da água cria uma grande emoção no espectador. Awilda renasce na baía como um sonho se tornando realidade. Seus olhos fechados nos falam do caminho interior, da beleza oculta no interior de cada ser humano em diálogo com a beleza natural de Botafogo.

Para você, qual a diferença entre criar uma obra pública e uma obra em estúdio?

A criação de um projeto para o espaço público necessita de um trabalho prévio de conhecimento do lugar e o contexto de onde será instalado, antes de falarmos sobre a importância do diálogo a ser aberto e o local. A criação em estúdio é muito mais privada, é um diálogo entre você e seu próprio coração.

Você já fez muitos tipos de labirintos antes usando diferentes formatos e materiais. Quais foram os critérios de escolha desse formato e material específico no trabalho do OIR?

Meus planos era fazer um labirinto de vidro. Para paredes de vidro, um projeto triangular era mais eficiente em termos de engenharia.

Normalmente um labirinto é um lugar onde as pessoas se perdem, incapazes de achar o seu caminho, mas o seu labirinto não apenas oferece um único caminho, mas também possui paredes de vidro. Qual seria o objetivo do seu labirinto?

Em inglês, o termo “labyrinth” refere-se ao design de um objeto que possui um caminho para dentro e para fora. O termo “maze” refere-se a um objeto que permite escolhas, e não há um único caminho para entrar ou sair. Eu já fiz muitas versões de plantas para “labyrinth”, mas nunca fiz um trabalho que usasse o conceito de “maze”.

Como este labirinto pode ser inserido no contexto do centro da cidade do Rio de Janeiro?

Não cabe a mim responder. Pelos relatos que recebi, muitas pessoas participaram e exploraram o Labirinto de Vidro no centro da cidade e eu tomo isso como um sinal de aceitação dos cidadãos do Rio pelo meu trabalho ter se localizado lá.

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