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A década de 1960 representa um momento-chave na arte brasileira: fronteira entre modernidade e pós-modernidade, ela sofre o corte traumático do regime militar, cujas cicatrizes ainda hoje são sentidas. Inicia-se em 21 de abril de 1960, com a inauguração de Brasília e conclui-se em 1969 com o boicote da Bienal de São Paulo, já sob efeito do longo eclipse do Ato Institucional nº 5. Marcada por exposições como Opinião 65, Opinião 66, Nova Objetividade Brasileira, Propostas 65, Propostas 66, Jovem Arte Contemporânea, Bienal da Bahia, Salão de Brasília, Salão da Bússola e pelo Grupo REX, os anos 1960 testemunham um processo radical de politização e questionamento da arte. Momento de quebra de convenções, a arte dos anos 1960 irá justapor cultura de elite e cultura popular (agora entendida não mais, como no caso dos primeiros modernistas como folclore, mas provinda da nascente indústria cultural; o curupira é substituído por Roberto Carlos), irá ocupar as ruas, declarará a morte da pintura. Poderíamos dizer que houve no Brasil, por conta disso, uma pop art brasileira?

Essa questão se faz presente desde aquele momento. Já no debate do júri de premiação da Bienal de 1967, lembrada pela representação significativa da pop art norte-americana, hesitou-se em premiar a representação dos EUA, ilustrando a clivagem entre sua influência e a permanência de um referencial na arte européia (em particular a francesa). Desde então, várias exposições e livros, como Aproximações do espírito pop, apresentada no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 2003 e Anos 60, escrito por Paulo Sergio Duarte (1998) procuram analisar tanto as especificidades daquele período no Brasil, bem como de seu legado. Hoje é consenso entre os especialistas não ser adequado falar de uma pop brasileira. Ainda que reconhecido o fascínio exercido por Warhol, Lichtenstein e seus pares – que, por outro lado eram vistos simultaneamente como a arte do inimigo imperialista – uma grande diferença separa o universo norte-americano de uma indústria cultural consolidada e em franco crescimento, um mercado e circuito sem igual e uma estrutura industrial da produção artística (Warhol e sua Factory) do artista brasileiro que ainda se vê obrigado a pintar com a própria mão, isto é, em certa medida ainda preso a uma escala moderna do trabalho. Por outro lado, a impossibilidade de não se falar de uma pop local não corresponde a omitir o diálogo crítico aqui travado frente a ela. Ao contrário, enuncia uma peculiaridade a ser valorizada, posto que revela nesse “desajuste” a um cânone internacional, o desenvolvimento de um pensamento formal próprio, que, inclusive, mostraria a complexidade da fronteira entre continuidade e ruptura características de nossa arte naqueles dias.

 

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