© Obra Típico, 1998

“Eu gosto muito daqui, pois não tem árvores. Morro de medo de árvores!” confessou a artista Paula Rego ao me recepcionar em seu ateliê numa ensolarada manhã de fevereiro. Conhecer o ambiente de trabalho de Paula é penetrar num mundo de fantasia assombrado por medos e melancolia. O cenário, para o faz de conta desta renomada artista que trabalha em figuração, fica escondido em um antigo armazém, numa ruela do bairro gótico de Camden, na cidade de Londres. Foi para lá que Paula se mudou há mais de sessenta anos e onde vive atualmente, aos 75 anos de idade.

Logo na entrada de seu ateliê, na primeira de duas salas, vejo uma poltrona verde gigante, retirada do set de filmagem de Alice no País das Maravilhas, que serve de depósito para pilhas de bonecos e animais empalhados, alguns trazidos de Portugal, outros adquiridos em antiquários ingleses. Personagens de suas obras, essas figuras poderiam muito bem ter saído de um conto de Monteiro Lobato ou de um circo de horrores. “Está vendo este macaco feio? É do início do século 19; ele pertenceu à Jane Eyre” – personagem da obra literária da inglesa Charlotte Bonte, por quem a artista é fascinada. Inspirada na autora, Paula Rego produziu mais de 25 litografias.

Facilmente Paula se perde na imaginação ao mostrar seus brinquedos: “Este boneco aqui, eu trouxe de Portugal. Reza a lenda que você deve colocá-lo embaixo da cama para atrair fertilidade”; “Já aquele, ali sentado, é o embaixador português na Dinamarca. Fui eu que fiz!“ exclama orgulhosa.

Alguns passos adiante, em outro quarto, dentre diversas telas e desenhos, é possível ver araras com dezenas de roupas antigas pertencentes à sua mãe e avó. As indumentárias são utilizadas até hoje para vestir seus modelos vivos, realçando as memórias de sua infância, abruptamente interrompida pelo regime fascista em Portugal.

Pintora precoce, sua obra navega entre o real e o fantástico num universo extremamente feminino. Quando ainda estava na escola, em Carcavelos, Portugal, a artista já pintava pequenas telas a óleo. Paula descreve as suas pinturas da época como um tipo de realismo figurativo e afirma que a razão de pintar era “para satirizar a burguesia e criticar as pessoas que jogavam cartas, tema bastante infantil”.

Proveniente de uma família afluente portuguesa, Paula foi para a Inglaterra estudar na época em que o regime de Salazar tomou o poder em Portugal. Segundo a artista, seu pai, antifascista, lhe disse para ir embora de lá, pois Portugal não era um país para as mulheres. Assim, ingressou na renomada escola de artes Slade, onde aprendeu a desenhar. Logo descobriu sua paixão pelo desenho e não parou mais. “Eu adoro desenhar. Isso é o que eu realmente gosto de fazer”, revela com entusiasmo. A partir de então, a sua trajetória artística se desenvolveu naturalmente, desde pequenos desenhos figurativos até as mais recentes narrativas políticas em grande formato, como a série Human Cargo, produzida em 2007/08. Sua obra transitou entre colagens, telas em acrílico e instalações, sempre mantendo a complexidade e o rigor.

Um marco na trajetória da artista foi o período em que obteve o suporte financeiro da Fundação Gulbenkian. O contato com a Fundação, como ela conta, aconteceu em tempos de pouca estabilidade financeira. “Veja bem, eu não sei o que vou fazer, mas preciso de dinheiro.” Segundo a artista, a resposta não poderia ter sido mais encorajadora. “Vai embora, pense em algo para fazer e execute. Você não se preocupe com dinheiro, nós mandaremos um cheque todo mês.” Estimulada por essas palavras, Paula foi para a biblioteca inglesa e passou meses lendo e estudando diversas obras literárias antigas, como as do autor português Vasconcelos. Deu-se aí a necessidade de reinventar essas histórias pelas gravuras. Histórias em que a mulher se encontra no centro da narrativa e cuja influência portuguesa está sempre presente.

Contudo, apenas nos últimos trinta anos é que seu trabalho ganhou notoriedade no meio artístico. Atualmente, suas obras estão estimadas em mais de 1 milhão de dólares. A artista tem um museu dedicado a sua obra, o Casa das Histórias Paula Rego, em Portugal, e atribui o sucesso do local às suas histórias. “É muito importante inserir histórias num contexto”, afirma Paula. Em sua opinião, “o povo português é muito especial e peculiar, e as histórias portuguesas tradicionais são cruéis, especialmente brutais e melancólicas como no fado.” Essa influência portuguesa contribui para a veracidade e a força inquietante de sua obra, repleta de personagens perversos e misteriosos. Desde então, a narrativa passou a ser uma constante em seu trabalho. A essa narrativa está atrelada a necessidade de lidar com sentimentos, os quais muitas vezes ela não sabia que os possuía ou não os confrontava.

Paula Rego considera relevante abordar temas reais, uma vez que funcionam como propaganda, como na série Abortos (1997). O tamanho das telas também aumentou de forma significativa, conforme pode ser observado nas séries Fantasia (1997) e Branca de Neve (1995). Por seu interesse estar mais voltado para contar a história rapidamente, Paula trabalha em acrílico, justificando que a pintura a óleo demora muito tempo para secar. Perguntada sobre qual seria a sua criação predileta, a artista elege a obra Anjo (1998) como uma delas.

Com o passar do tempo, Paula começou a dar ênfase à ideia de trabalhar o teatro vivo. Ela cria um cenário repleto de modelos – muitos amigos e familiares – e bonecos. Munida de sua imaginação e uma técnica extremamente apurada, a artista os reproduz por meio de figuras, cor e um traço particular, como na série The Pillowman (2005). O estúdio passa a ser fundamental para o seu desenvolvimento e a sua intimidade com a obra. Intimidade esta importante desde o início da sua carreira, quando desenhava com lápis e papel deitada no chão, igual a uma criança.

A visita ao ateliê de Paula é um deleite. Regressar desse mundo peculiar e excitante, repleto de memórias e aflições, torna-se um trabalho árduo. Mas, antes de minha partida, Paula responde à última pergunta sobre arte contemporânea e como ela percebe a sua obra:

“Ideias são efêmeras. Eu gosto de me envolver. Na figura, a pessoa é uma entidade só. Não gosto de performances e instalações. Elas são repletas de pessoas, como uma floresta cheia de árvores. Eu não gosto disso.”

A partir de abril, o público brasileiro, pela primeira vez, terá oportunidade de apreciar a trajetória artística de mais de cinco décadas do trabalho de Paula Rego com a mostra retrospectiva na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

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