Imagens: Cortesia - Eixo Arte.

DASARTES 85 /

Patrícia Chaves

É a partir da memória que a artista PATRICIA CHAVES constrói as cenas de infância que testemunhamos em suas pinturas. Conheça a obra da jovem artista de Niterói por Thiago Fernandes

Nascida em Niterói, a artista Patrícia Chaves, graduada em Pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, expõe em sua cidade natal, na Galeria Reserva Cultural. Ao lado das artistas Rita Manhães e Stella Margarita, Patrícia faz parte da mostra Três Vezes Pintura, que tem  curadoria de Vilmar Madruga e apoio da Eixo Arte.

Patrícia Chaves apresenta na Galeria Reserva Cultural duas pinturas em grandes formatos que incidem sobre o tema da infância, já trabalhado pela artista em diversos momentos de sua trajetória. Um olhar atento revela que, além de serem fragmentadas em pequenas telas quadradas, as duas imagens complementam-se, formando uma unidade. A dialética repartição-unidade é um dos principais aspectos que caracterizam o trabalho pictórico da artista, assim como as fortes pinceladas, um eventual contorno feito a carvão – que ora escapa da forma produzida pela pintura, ora sobrepõe-se a ela – e, sobretudo, a reduzida paleta de cores, que desfigura o comum imaginário de uma infância colorida e confere certa ordem à composição. Essa racionalização concerne ao ato de anamnese, intrínseco ao trabalho de Patrícia, que não utiliza referências fotográficas ou qualquer tipo de modelo. É a partir a memória que a artista constrói as cenas que testemunhamos em suas pinturas. Enfatizo aqui o verbo construir, e não reconstruir, pois não se trata da materialização precisa de um tempo passado, que jamais poderá retornar, mas de lampejos que encontram a superfície tela após sobreviverem na memória, num intercâmbio entre imagem e corpo.

O historiador da arte alemão Hans Belting afirma que nossos corpos “servem como uma mídia viva que nos faz perceber, projetar ou lembrar de imagens, o que também permite a nossa imaginação censurá-las ou transformá-las”. Dessa maneira, entendemos que o corpo produz e armazena imagens, que ora são convocadas por meio de um gesto, como o ato de pintar, para adquirir visualidade no mundo físico. A subjetividade dos corpos e dos gestos que produzem as imagens também as decompõem, corrompem, transvestem. Por isso, insisto, trata-se sempre de uma construção.

O quanto podemos confiar na memória? Essa faculdade mental sujeita a falhas, que ocasionalmente insiste em nos pregar peças, é incorporada ao processo criativo de Patrícia com toda sua imprecisão e obscuridade. Sua pintura é como uma colagem de lampejos de memória, sempre incompleta e repleta de ambiguidades. O único elemento que indica a localização dessas lembranças – o quintal de uma casa – é a vegetação que se manifesta em fragmentos, preenchida por um verde que escapa da forma delineada e invade, com pinceladas sutis, o corpo da figura humana que repousa à sua esquerda. Por sua vez, o pigmento desse corpo também esvoaça e produz linhas ferozes sobre a tela, tomando distância do contorno que delimita a figura e, assim, produz abstrações ao contrastar com o intenso tom vermelho que domina o fundo da composição. Esse jogo entre abstração e figuração é como uma alegoria à memória, que pode apresentar-se tanto nítida e reconhecível como abstrata e nebulosa. Figura, fundo, linhas, cores, signos, todos os elementos visuais e semióticos embaralham-se e confundem-se nas pinturas de Patrícia, à exemplo das imagens produzidas pela mente, sejam sonhos, delírios ou lembranças. Figuras de crianças sem rostos, sem identidade, indicam que não se trata, necessariamente, de uma lembrança autobiográfica ou de um autorretrato, mas traços de momentos testemunhados ou simplesmente ficções produzidas por uma mente traiçoeira. Riscos de carvão ameaçam revelar um corpo que começou a ser delineado, mas cuja imagem não se completa, talvez em razão de uma lacuna na memória. Esse corpo misterioso é como uma efígie do esquecimento – aquilo que não se consegue ou não se quer trazer à memória.

Se não é possível confiar na memória, também é necessário desconfiar das imagens, que por mais que se tentem objetivas, sempre possuem um traço daquele que as produziu. Com seus fragmentos de memórias, que compõem fragmentos de telas, Patrícia Chaves afirma a impossibilidade de representar plenamente um tempo que se foi. Atesta, sobretudo, o grau de subjetividade presente no ato construtivo da imagem e da narrativa por meio da memória.

Três vezes pintura • Galeria Reserva Cultural • Niterói • 24/5 a 30/6/2019

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