Paris: Impressionismo e modernidade

A montagem de uma exposição que reúne pinturas de coleções diversas e distantes proporciona uma vivência una de contemplar, lado a lado, obras que a história afastou por seu capricho. Porém, mesmo quando a seleção se faz num único arquivo, sua disposição em outro ambiente pode suscitar experiências novas, como relatou à TV brasileira uma conservadora do Musée d’Orsay, durante a montagem da exposição que se encontra no CCBB paulista, surpresa com o efeito proporcionado pela proximidade de obras que normalmente se expõem em salas diferentes no museu de origem. Quanto mais encantamento aguarda por quem nunca teve a oportunidade de visitar o Musée d’Orsay!

A “impressionante” exposição, que ocupa todas as salas do CCBB SP, tinha originalmente como título Paris: impressionismo e modernidade, podendo ser vista na apresentação em português que o próprio site do museu francês disponibiliza ainda hoje. Realmente, o tema central é a cidade de Paris, vista não só pelo pincel dos impressionistas, mas também dos realistas, pós-impressionistas e nabis, grupos que constituíram a gênese da modernidade. Isso pode ser facilmente observado no catálogo da exposição: nas seções da primeira parte e nos textos dos curadores. Certamente, a mudança se fez como estratégia, pois o Impressionismo deveria ser destacado, uma vez que, no Brasil, dentre os três termos que constituem o título (ou até mais que qualquer outro em matéria de arte) é aquele capaz de arrastar multidões. E a estratégia funcionou! O resultado pode ser medido pelo imenso número de visitantes já registrados, o que ocasionou inclusive a ampliação dos horários de visita e a implementação de mais duas “viradas impressionistas”, a exemplo da que ocorreu no final de semana de abertura da mostra em São Paulo.

O título completo da exposição, Impressionismo: Paris e a Modernidade – obras-primas, Musée d’Orsay, aponta para a importância das obras selecionadas. Obviamente, nem todas possuem o mesmo valor ou prestígio, mas é certo que várias são reconhecidamente obras-primas de primeira grandeza, como: A estação Saint-Lazare, Regata em Argenteuil, e O lago de ninfeias, harmonia verde, de Claude Monet; O pífaro, de Édouard Manet; Moças ao piano, de Pierre-Auguste Renoir; O castelo dos Papas, de Paul Signac; Retrato do artista com fundo rosa, de Paul Cézanne; O berço, de Berthe Morisot, para citar apenas alguns. É claro que em termos de obras-primas do Musée d’Orsay gostaríamos de ver lá também várias outras pinturas, principalmente de Edgar Degas e Vincent van Gogh, que estão mal representados na exposição. No entanto, ela nos faculta emoção equivalente à da contemplação dessas pinturas mais famosas, na fruição daquelas menos conhecidas, porém igualmente tocantes por sua beleza encantadora e força expressiva, como: O banho, de Alfred Stevens; Retrato de Fernand Halphen, de Renoir; A mulher de luvas e Mulher com boá preto, de Henri de Toulouse-Lautrec; e Jovem camponesa fazendo fogo, de Camille Pissarro.

Especialmente gratificante é também a surpresa de lá encontrar duas pinturas do grande Gustave Courbet, quando não tem conh†ecimento prévio da presença dos realistas na mostra. O Homem com cinto de couro (Retrato do artista), do referido pintor, é o quadro mais antigo presente na exposição, com data estimada entre 1845 e 46, ficando, inclusive fora do recorte temporal do próprio Musée d’Orsay – 1848 a 1914 –, segundo o catálogo da exposição. Mas também o pequeno Ramo de macieira em flor revestiu-se de significado adicional pela leitura do comentário afixado ao lado da obra, que esclarece as condições da sua criação: Courbet o pintou enquanto estava em prisão política, a partir do buquê levado até a sela dele pela irmã. Aliás, todas as obras expostas estão acompanhadas de pequenos, mas interessantes comentários.

Também o catálogo da mostra foi primorosamente composto, com excelentes textos e a reprodução de todas as 85 obras expostas e outras tantas a mais. A única ressalva fica para a cronologia acrescentada ao final. Ao lado da coluna que aborda “Paris no tempo dos impressionistas”, a coluna intitulada apenas “Brasil” segue ano a ano apresentando nossa história. No entanto, não acompanha, de forma equilibrada, os tipos de citação da coluna francesa. Elenca questões políticas e econômicas (em demasia); progressos nos transportes, comunicação; projetos de arquitetura; publicações de livros e periódicos; espetáculos de teatro, ópera, música; criações em caricatura, fotografia e até cinema, todos em grande quantidade; mas pouquíssimo, ou quase nada, de pintura, objeto do catálogo. Apenas sete pintores foram citados, de forma muito superficial (sendo dois deles de diminuta relevância), e nem um único escultor. É uma pena que assim seja, pois quem lê fica com a impressão de que, no Brasil, durante esse período (o mesmo abordado pelo museu), apenas em termos desses gêneros artísticos, nada aconteceu que merecesse ser mencionado, o que não é, em absoluto, expressão da verdade.

Parece inapropriado terminar dessa forma um ensaio sobre a exposição das obras do Musée d’Orsay, mas essa análise demonstra o quanto se faz urgente a divulgação das pesquisas que vêm sendo realizadas, nos últimos anos, sobre a arte desse período no Brasil. Muitos certamente se surpreenderiam!

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