© Veridiana Moraes

DASARTES 24 /

Otavio Shipper

Otavio Shipper abre as portas do seu ateliê e dala de seu processo artístico.

Fale sobre seu processo de criação.

É um trabalho muito mental. Para mim, o ateliê não é um espaço de criação, mas de convívio com as sombras, de pensamento no objeto em que se está trabalhando. O processo de criação acontece no dentista, jantando, na rua, no ônibus.

E como é o dia-a-dia do ateliê?

Quando alcanço o momento de viver o ateliê, já tenho na cabeça exatamente o que quero fazer, mas, muitas vezes, o trabalho toma um caminho que eu não esperava, o acaso é muito presente. A lâmpada da obra Inconsciente Mecânico, por exemplo, resultou de um teste feito pelo eletricista contratado para iluminar o trabalho e acabou sendo acoplada. As influências externas ao ateliê trazem uma aleatoriedade à obra que me interessa. Existe um tipo de produção artística em que o ateliê, o espaço, mistura-se com a obra. É o caso do Giacometti, do Kurt Schwitters: os artistas estão imersos no espaço, o próprio espaço é a obra, as referências estão todas lá. Eu, ao contrário, sinto-me mais à vontade em uma biblioteca. Talvez por ter trabalhado muitos anos no Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), ou talvez porque minha mente seja mais técnica, acostumei-me a desenvolver a obra dentro da minha cabeça.

Costuma-se ligar um trabalho mais técnico à disciplina, que na vida do artista está no cotidiano do ateliê.

Disciplina talvez funcione melhor quando se quer desenvolver um estilo. Não tenho esse interesse, pelo contrário, quero sempre mudar: fazer pintura, trabalhar com telégrafos, fazer concertos de música. Arte não é apenas matéria, tem uma ligação muito direta com um discurso. Para produzir um, não é preciso necessariamente produzir um objeto, talvez baste reconfigurar os objetos que já tem. É por isso que se deve mudar os locais que frequenta,e as pessoas que conhece, tem que atualizar as interferências que contribuem para seu trabalho. É importante estar atento e aberto.

Fale sobre seu último trabalho.

Eu estava procurando um diapasão em uma feirinha de rua e encontrei parte de um telégrafo. Cheguei à conclusão de que um telégrafo poderia ser construído com um diapasão, já que ele também emite um único som. Quis comprar um telégrafo, mas como hoje eles só existem nas mãos de radioamadores, fui entrando em contato e comprando peças de gente do mundo todo e juntei uma pequena coleção, que deveria dialogar entre si. Para isso acontecer, mais gente foi envolvida: um estudante da PUC, que tentou restaurar os telégrafos; um amigo que estava desenvolvendo uma tese para controlar ritmos por computador; o eletricista que fez um gato com a lâmpada para baixar a corrente… Tomei muito choque nesse processo (rs).

E o próximo?

Será sobre a história da perspectiva na pintura, com inspiração também no peep show de Brunellesco, que usou uma projeção de luz através de um furinho para esquematizar a perspectiva na superfície bidimensional. Usarei objetos, como óculos antigos. Ando pensando na perspectiva nos dias de hoje. Com o computador e tantas técnicas de produção de imagem, qual seria seu papel?

Compartilhar:

Confira outras matérias

Matéria de capa

Alphonse Mucha

Alphonse Mucha é hoje um dos artistas tchecos mais famosos do mundo. Nascido em 1860 na região da Morávia, ganhou …

Destaque

Rosana Paulino: a costura da memória

Voz singular em sua geração, Rosana Paulino surgiu no cenário artístico paulista em meados dos anos 1990, propondo, de modo …

Do mundo

Anni Albers

Anni Albers começou seus estudos na Escola Bauhaus em Weimar em 1922. Apesar de seu desejo inicial de ser pintora, …

Reflexo

Vinicius SA por ele mesmo

O pensamento científico me influencia pela racionalidade, pelo cálculo e pela possibilidade de antever meus projetos. A prática artesanal é …

Garimpo

Marcel Diogo

A escolha dos leitores da Dasartes para o concurso Garimpo Online 2018/2019 é Marcel Diogo, somando a votação no site …

Resenhas

Resenhas

Intempéries permanentes e Ultramar
Referência Galeria de Arte
Intempéries permanentes – visitação até 23 de fevereiro
Ultramar – visitação até 26 de janeiro
POR …

Destaque

Jean-Michel Basquiat na Fundação Louis Vuitton

Inquebrável

Parece que palavras “tour de force” foram criadas para a exposição épica de Jean-Michel Basquiat na Louis Vuitton Foundation. A …

Matéria de capa

Andy Warhol: de A para B e vice-versa

“Eles não queriam meu produto. Ficavam dizendo ‘queremos sua aura’. Nunca entendi o que queriam.” – Andy Warhol
Esse trecho tirado …

Flashback

Constantin Brancusi

Constantin Brancusi (1876-1957) exibiu pela primeira vez sua escultura em Nova York, no Armory Show de 1913, ao lado de …

Do mundo

Jaume Plensa

“A escultura é a melhor maneira de fazer uma pergunta.” Jaume Plensa

“Firenze II”, de 1992, é um enorme ponto de interrogação …

Destaque

A vizinhança de Lucia Laguna

As pinturas de Lucia Laguna são inseparáveis do local onde foram feitas: o ateliê-casa da artista e os arredores do …

Garimpo

Gunga Guerra

Nascido em Moçambique e radicado no Rio de Janeiro, Gunga Guerra é a escolha do conselho editorial da Dasartes para …

Resenhas

Resenhas

Amsterdam Art Week
Museus e Galerias • Amsterdã • Países Baixos • 22 a 25/11/2018
POR SYLVIA CAROLINNE

Diversas foram as aberturas ao …

Matéria de capa

Os contos cruéis de Paula Rego

 

“Os contos cruéis”, de Paula Rego, exposição inaugurada em outubro no Museu  L’Orangerie, em Paris, marca um momento importante na …

Flashback

Pieter Bruegel, o velho

Bruegel é um moralista ou fatalista? Otimista ou cínico? Humorista ou um filósofo? Camponês ou habitante da cidade? Folclorista ou …