© Veridiana Moraes

Fale sobre seu processo de criação.

É um trabalho muito mental. Para mim, o ateliê não é um espaço de criação, mas de convívio com as sombras, de pensamento no objeto em que se está trabalhando. O processo de criação acontece no dentista, jantando, na rua, no ônibus.

E como é o dia-a-dia do ateliê?

Quando alcanço o momento de viver o ateliê, já tenho na cabeça exatamente o que quero fazer, mas, muitas vezes, o trabalho toma um caminho que eu não esperava, o acaso é muito presente. A lâmpada da obra Inconsciente Mecânico, por exemplo, resultou de um teste feito pelo eletricista contratado para iluminar o trabalho e acabou sendo acoplada. As influências externas ao ateliê trazem uma aleatoriedade à obra que me interessa. Existe um tipo de produção artística em que o ateliê, o espaço, mistura-se com a obra. É o caso do Giacometti, do Kurt Schwitters: os artistas estão imersos no espaço, o próprio espaço é a obra, as referências estão todas lá. Eu, ao contrário, sinto-me mais à vontade em uma biblioteca. Talvez por ter trabalhado muitos anos no Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), ou talvez porque minha mente seja mais técnica, acostumei-me a desenvolver a obra dentro da minha cabeça.

Costuma-se ligar um trabalho mais técnico à disciplina, que na vida do artista está no cotidiano do ateliê.

Disciplina talvez funcione melhor quando se quer desenvolver um estilo. Não tenho esse interesse, pelo contrário, quero sempre mudar: fazer pintura, trabalhar com telégrafos, fazer concertos de música. Arte não é apenas matéria, tem uma ligação muito direta com um discurso. Para produzir um, não é preciso necessariamente produzir um objeto, talvez baste reconfigurar os objetos que já tem. É por isso que se deve mudar os locais que frequenta,e as pessoas que conhece, tem que atualizar as interferências que contribuem para seu trabalho. É importante estar atento e aberto.

Fale sobre seu último trabalho.

Eu estava procurando um diapasão em uma feirinha de rua e encontrei parte de um telégrafo. Cheguei à conclusão de que um telégrafo poderia ser construído com um diapasão, já que ele também emite um único som. Quis comprar um telégrafo, mas como hoje eles só existem nas mãos de radioamadores, fui entrando em contato e comprando peças de gente do mundo todo e juntei uma pequena coleção, que deveria dialogar entre si. Para isso acontecer, mais gente foi envolvida: um estudante da PUC, que tentou restaurar os telégrafos; um amigo que estava desenvolvendo uma tese para controlar ritmos por computador; o eletricista que fez um gato com a lâmpada para baixar a corrente… Tomei muito choque nesse processo (rs).

E o próximo?

Será sobre a história da perspectiva na pintura, com inspiração também no peep show de Brunellesco, que usou uma projeção de luz através de um furinho para esquematizar a perspectiva na superfície bidimensional. Usarei objetos, como óculos antigos. Ando pensando na perspectiva nos dias de hoje. Com o computador e tantas técnicas de produção de imagem, qual seria seu papel?

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