Os grandes roubos de arte do mundo.

Em uma noite de primavera de 1990, dois homens vestidos como policiais bateram à porta do Museu Isabella Gardner, em Boston, declarando terem sido chamados pela vizinhança. Uma hora mais tarde, eles deixavam o museu com 12 obras, incluindo uma tela de Vermeer, duas de Rembrandt, cinco de Degas e uma de Manet e concluíam o maior roubo de arte da história. Os quadros nunca foram encontrados e, hoje, são estimados em mais de US$500 milhões.

Afinal, que fim levam as obras de arte roubadas? É difícil imaginar a existência de um mercado negro similar ao de outras mercadorias furtadas, já que uma obra de arte é uma peça única, facilmente identificável. No entanto, de acordo com a ARCA, uma associação de pesquisa sobre crimes contra a arte, é exatamente isto que ocorre: na esfera internacional, o maior volume de roubos é perpetrado por criminosos profissionais, e seu produto financia desde o tráfico de drogas até terrorismo.

O roubo por encomenda também é comum, apesar de ocorrer com menor frequência. O da Monalisa, em 1911, foi um deles: o argentino Eduardo de Valfierno pagou três homens para subtrair o quadro, incluindo um empregado do Louvre, que, simplesmente, retirou-o de sua caixa protetora de vidro, colocou debaixo do casaco e saiu caminhando do museu. Nesse caso, não se trata de um simples roubo, mas de um intricado esquema de extorsão. Meses antes, Valfierno iniciara negociações com seis colecionadores norte-americanos interessados no quadro de Da Vinci e encomendara seis cópias dele. Assim que a noticia do desaparecimento da obra espalhou-se, cada um desses colecionadores recebeu uma das cópias e pagou por ela acreditando ser a original. Valfierno nem mesmo queria a Monalisa. O empregado do museu, Vicenzo Peruggia, foi preso dois anos mais tarde após tentar receber uma recompensa das autoridades italianas por sua devolução.

Mesmo entre profissionais, a dificuldade em vender a peça pode ser a ruína de um golpe. Foi o caso do roubo de nove pinturas impressionistas do Museu Marmottan, incluindo a célebre Impression, soleil levant, de Monet, que deu o nome ao movimento artístico. Seis anos se passaram entre o roubo e sua recuperação, que resultou na prisão de um membro da Yakuza, a máfia japonesa. Diz-se que a polícia chegou até ele graças a um “catálogo” circulado no Japão antes do crime, indicando as obras “em breve disponíveis para compra”.

Se a pouca liquidez de obras famosas roubadas atrapalha sua venda, o mesmo não ocorre com o produto do tipo mais comum de furto: obras de menor valor e objetos sacros, removidos de igrejas e coleções privadas. Como muitos desses crimes não são registrados, e os proprietários raramente mantêm um cadastro das obras com fotografias e dados que possam ser divulgados, elas voltam ao mercado oficial sem serem identificadas como roubadas.

BERÇO DA ARTE, BERÇO DO CRIME

Desconsiderando os saques durante guerras e invasões militares, a Itália é, de longe, o país com maior volume de crimes de arte: são mais de 30 mil roubos ao ano, incluindo objetos removidos ilegalmente de escavações arqueologicas, de acordo com a ARCA, sediada em Roma. A Itália também é o país mais bem-sucedido na luta contra os crimes de arte e o único com um departamento de polícia dedicado especialmente a ela. Apenas em 2009, foram mais de US$165milhões em obras de arte recuperadas, de acordo com os carabinieri.

A Itália deve perder seu posto de campeã do crime, de acordo com a previsão de Nathaniel Herzog, autor do livro Le Musée Invisible (o museu invisível Ed. du Toucan, inédito no Brasil). Herzog crê que o eixo criminoso mudará da Europa para a Ásia, já que lá começam a surgir os grandes compradores de arte de hoje, tanto museus como colecionadores.

Buscando dificultar a venda de obras roubadas, a Unesco criou, em 2009, o Unidroit, uma iniciativa que propõe que os compradores assumam a responsabilidade por verificar a procedência daquilo que adquirem. Uma boa ideia, mas que peca pela falta de suporte, é que ainda não existe um banco de dados internacional atualizado por todas as polícias nacionais, e apenas roubos de obras de grande valor aparecem nos website da Interpol e outros bancos de dados. Na verdade, trata-se apenas de uma carta de intenção, que a França e outros países recusam-se a assinar por temer que isso desencoraje os compradores.

No Brasil, o roubo de arte mais famoso dos últimos anos aconteceu no MASP, em dezembro de 2007. Em uma ronda de rotina, um dos vigias notou a falta de duas obras. A verificação das gravações de segurança mostrou que três homens arrombaram o portão principal com um pé de cabra e, em menos de três minutos, saíram levando um quadro de Portinari e um de Picasso, este último um raro óleo de sua fase azul. Os três seguranças em turno naquela manhã estavam no subsolo do prédio durante o roubo e não ouviram nada. Tudo leva a crer que esse furto vinha sendo planejado: o MASP já havia sofrido duas tentativas de invasão dois meses antes, uma delas bem-sucedida, quando dois homens encapuzados chegaram a render os seguranças, mas não conseguiram chegar ao segundo andar, onde fica exposto o acervo. O aviso foi ignorado pelas entidades competentes, que perderam a chance de reforçar seu sistema de alarme e evitar o fiasco. Felizmente, as obras foram recuperadas, e os invasores presos, mas a polícia não pode determinar o mandante do crime ou o destino previsto para elas.

A tecnologia de segurança tem sido, junto com a internet, a grande arma na redução dos roubos de arte, que tiveram queda estimada de 22% na França e 14,5% na Itália, entre 2008 e 2009. Infelizmente, ela não garante a recuperação do que já foi roubado. Como uma lembrança dolorosa disso e uma lição para o futuro, as molduras vazias das obras roubadas do Museu Isabella Gardner permanecem fixadas nos muros das salas de exposição.

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