A história de Balzac, 2011

DASARTES 78 /

Os contos cruéis de Paula Rego

ÚNICA ARTISTA FEMININA DO GRUPO LONDON SCHOOL, PAULA REGO DISTINGUE-SE POR UM TRABALHO ALTAMENTE FIGURATIVO, LITERÁRIO, INCISIVO E SINGULAR. CONFIRA TEXTO EXCLUSIVO DA AUTORA ELISA MAIA PARA A EXPOSIÇÃO NO MUSEU L’ORANGERIE, EM PARIS

 

A dança, 1988

“Os contos cruéis”, de Paula Rego, exposição inaugurada em outubro no Museu  L’Orangerie, em Paris, marca um momento importante na história da instituição. É a primeira vez que uma artista viva ocupa o espaço com uma exposição individual, fato inédito que se inscreve no movimento mais amplo de um crescente interesse francês por artistas portugueses, como Amadeo de Souza-Cardoso e Helena Almeida. Para Cécile Debray, diretora da instituição, a obra de Paula Rego se situa na interseção improvável entre o barroco católico e sensual e o realismo duro e austero da escola de Londres, cidade na qual a artista fez seus estudos na década de 1950 e onde passou a viver a partir dos anos 1970. Suas pinturas, a densidade de suas cores, a presença física dos objetos, a volumetria dos corpos, inscrevem-na na grande tradição da pintura ocidental. Seus desenhos retratam determinados animais e insetos de forma tão detalhada que poderiam figurar como ilustrações científicas. Ainda assim, o que a exposição celebra não é a habilidade de tornar visível o mundo ao seu redor, mas o modo magistral pelo qual Rego é capaz de ilustrar o invisível, desvelando o que se esconde embaixo do verniz da civilização. Na melhor tradição de Bosch e Goya, as imagens de Rego revelam a selvageria humana e tornam verossímil uma atmosfera monstruosa que talvez preferíssemos deixar velada. A crueldade, que transborda em suas histórias na forma de jogos de poder, submissão, sedução, opressão e abandono, é o fio que alinhava o conjunto à primeira vista tão heterogêneo de pinturas, desenhos e instalações.

Escavadoras, 1994

Presa, 1986

Pintora figurativa, Rego sempre demonstrou grande interesse pelas artes narrativas, e não à toa sua obra presta homenagem a grandes nomes da literatura, como Emily Bronte, Kafka, Balzac, Eça de Queiroz, George Orwell, Dante, Lewis Carroll e Charles Dickens. A artista mencionou em diversas ocasiões a importância que teve na sua carreira o período no ano de 1975, em que passou mergulhada nos arquivos da Biblioteca de Londres pesquisando o trabalho de ilustradores como Edmund Dulac, Arthur Rackham, Maxfield Parrish e Grandville. A pesquisa, fruto de uma bolsa concedida pela Fundação Gulbenkian, resultou na série de guaches “Contos populares portugueses” e logo se mostrou um dos momentos mais importantes na definição de seu estilo. Sua obra até hoje aparece profundamente marcada pelo interesse pela ficção, pelos contos e pela infância. Mas, para o universo infantil, Rego lança um olhar sem concessão ou redenção, esvaziando-o de seu caráter ingênuo e edificante e povoando-o com imagens de terror e estranhamento. As crianças dos contos de Rego são mais perversas do que inocentes. Seu extenso repertório de recontos é profundamente marcado não apenas pelas ideias de magia e encantamento, mas também por um caráter sádico e moralizante que parece ecoar as memórias de sua infância em seu país natal. Para a artista, nascida no ambiente claustrofóbico de Portugal dos anos 1930, em meio ao regime salazarista, a condição da infância é indissociável das ideias de punição e castigo. Em uma família burguesa de uma sociedade católica e patriarcal, o ambiente era particularmente moralista e repressor, motivo pelo qual seu pai decidiu mandá-la para Londres. Curiosamente, sobre o período em que viveu em Portugal, Rego diz que não se importava com Salazar, pois a verdadeira opressão vinha de sua mãe.

“As crianças dos contos de Rego são mais perversas do que inocentes”

Laço, 1987

A família, 1988

Assim como faz com a infância, Rego revisita de forma estranhada alguns arquétipos femininos – mãe, menina, filha, empregada, fada, bailarina – evitando deliberadamente o olhar condescendente que apresenta as mulheres como mais frágeis, amáveis e serenas ou mesmo menos inclinadas à praticar atos de violência física e psicológica do que os homens. Em suas telas, as personagens oscilam entre empáticas e cruéis, vítimas e manipuladoras, cúmplices e rivais, heroicas e triviais. A tela “Pequena assassina” (1987) é um exemplo singular. A pintura retrata uma menina com uma fita verde nas mãos, na iminência de estrangular um personagem que se encontra em seu quarto, mas que o espectador não pode ver porque está para além dos limites visíveis da tela. Uma das pinturas mais enigmáticas da mostra, “A família” (1988), retrata uma figura paterna em um estado de total submissão sendo despida em uma cama, como um boneco, por duas mulheres que parecem ser sua mulher e sua filha, enquanto uma terceira menina observa a cena. Nesta, assim como em outras pinturas, o recurso a citações bíblicas e a símbolos religiosos é feito com total liberdade, misturando-se os domínios do sagrado, do mítico e do cotidiano em planos indiferenciáveis. Um elemento importante no processo das pinturas é o uso que Rego faz de uma pequena equipe de assistentes que, sob sua direção, alternam-se em papéis diversos para encenar as situações que serão retratadas. Mais recentemente, a artista começou a investir também na fabricação de seus próprios modelos – bonecos e personagens feitos de papel machê, gesso, tecidos, madeira, meias de nylon que encenam em diálogo com os modelos vivos uma espécie de teatro das histórias que ela imagina. Seu ateliê em Londres se torna cada vez mais esse palco povoado por figuras fantásticas e estranhas, máscaras, manequins, fantasias, dispositivos cenográficos e móveis de épocas passadas.

A filha do policial, 1987

Geppetto lavando Pinóquio, 1996

O pescador, tríptico (painel da direita), 2005

O pescador, tríptico (painel central), 2005

Humanizar os animais é um recurso tão comum quanto antigo, basta pensar nas fábulas de Esopo e La Fontaine ou nas gravuras de Grandville de sapos e corujas em trajes e poses pomposas. A obra de Rego lança mão desse recurso de forma tão perspicaz que quase chega a apagar as fronteiras que separam os corpos humanos dos corpos animais. Sapos, macacos, ratos, coelhos, ovelhas, cegonhas, pelicanos, cachorros e aranhas não apenas interagem com crianças, homens e mulheres, como também figuram como personagens de dramas humanos, cometendo violência doméstica, intrigas, traições ou participando de jogos eróticos. Destacam-se nesse sentido as ilustrações em água-forte que compõem a série “Nursery Rhymes” (1989). A série ilustra contos populares da tradição oral inglesa que oscilam entre cômicos e absurdos, como “Baa Baa Black Sheep”, que retrata uma menina no colo de um enorme carneiro negro sentado em um banco com uma postura aristocrática.

“A obra de rego quase chega a apagar as fronteiras que separam os corpos humanos dos corpos animais”

Pequena Miss Muffet, 1989

O sapo que iria a-wooing ir I, 1989

“Mulheres-cachorro”, série iniciada em 1994, percorre o sentido inverso desse movimento. Em vez dos animais antropomorfizados, a série retrata as personagens femininas em uma sucessão de comportamentos animalescos, selvagens, violentos, imprevisíveis. As cenas se tornam menos complexas, menos narrativas, e o foco passa a ser o espetáculo pulsional das figuras isoladas cujos corpos, libertos de suas amarras sociais, são transfigurados nos limites entre o erotismo e a violência. O uso do pastel como técnica, no lugar da pintura a óleo, possibilita uma maior espontaneidade do gesto e um maior engajamento do corpo da artista com a imagem. Sem a mediação do pincel, Rego passa a aplicar os pigmentos com os próprios dedos diretamente sobre as grandes folhas de papel. A qualidade tátil do meio, que Rego maneja com vigor e dinamismo, confirma o que Edgar Degas já havia afirmado um século antes – que o pastel é um meio maravilhoso para se representar a carne. A série “Mulheres-cachorro” explora a tensão entre um estado supostamente mais natural (dos animais, das crianças) e as formas de coerção social, como a religião, a família, a educação. As imagens das mulheres de quatro, mulheres que rosnam, que se lambem, que oferecem perigo, que lançam para alguém que está fora do quadro um olhar colérico, no limite da loucura, parecem afirmar que o corpo que tenta de todas as formas se esquecer de que é também animal, acaba por se tornar bestial.

 

A festa, 2003

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