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Lembro-me da primeira vez que vi um catálogo da Sotheby’s. Em nada se parecia com aqueles folhetos magrinhos que chegavam na casa de meus pais em Belo Horizonte: esse era lindo, papel de boa qualidade e fotos que faziam os objetos parecerem cinematográficos, com todos os preços impressos ao lado das peças, hábito que muitos leiloeiros brasileiros não têm. Na mesma época, fui ao meu primeiro leilão. Neste dia, ouvi pela primeira vez chamarem papel de cartão e um quadro de uma praia de marinha. É impressionante as coisas que aprendemos na vida sem saber quando serão úteis.

Hoje, como organizador de leilão, tenho opiniões mais claras sobre o ofício. Acredito que, por alguns anos a partir da década de 1990, as casas de leilões no Brasil passaram por uma crise, já que durante muitos anos viveram da comercialização de arte moderna e acadêmica e aos poucos estas obras encontraram seu lugar em grandes coleções privadas ou institucionais, saindo do mercado. Isso ocorreu também nos Estados Unidos e na Europa no princípio da década de 1990, onde os leilões passaram a oferecer obras cada vez mais recentes e, assim, a competir com as galerias, que sempre foram os principais comerciantes da arte atual, em qualquer época.

Quase vinte anos depois, é natural que trabalhos menos recentes, especialmente das décadas de 1980 a 2000, apareçam novamente no mercado. Colecionadores mudam de foco, divorciam-se ou simplesmente precisam de dinheiro. A arte contemporânea, no entanto, ainda é a base de muitos leilões, que concorrem diretamente com as galerias e, por isso, devem buscar uma estratégia mais atraente para chamar o público jovem, que frequenta galerias e feiras internacionais.

Vender em leilão tem lá suas particularidades. Não é como em galerias, onde a venda de um trabalho pode demorar meses, sendo criteriosamente arquitetada. Em leilão, tudo é rápido. Não se tem muito tempo pra pensar, não se pode experimentar o trabalho em casa, não se tem tempo para discursar sobre a importância do artista ou sobre a relevância do trabalho dentro do corpo da obra. Por isso existem regras não escritas que definem se o trabalho tem ou não perfil para leilão. Dificilmente trabalhos em grande escala terão um bom resultado, muito menos aqueles bizarros ou que demandam uma montagem muito complexa, já que decidir comprar este tipo de obra geralmente requer reflexão e tempo. Em leilão, o trabalho deve se sustentar sozinho para ter uma boa performance, não pode ser contaminado pelo que está à sua volta. O ineditismo é o que mais emociona um profissional de leilões: uma obra que já esteve em um ou dois leilões recentes não é bem-vinda. Nos leilões, é também fundamental que o preço seja atraente, mesmo que a intenção do leiloeiro seja bater recordes de preço sempre que possível.

O trabalho deve também ser fotogênico, já que muitas vendas são feitas à distância pelo catálogo, uma das razões que explica a ausência de vídeos em leilão. O catálogo, aliás, é o grande instrumento de venda. Ele deve ter excelentes imagens, que transmitam com fidelidade o trabalho a ser vendido. As obras de menor valor devem estar no início e no final, para não perder a venda para aqueles clientes que se atrasam ou para os que se cansam e vão embora cedo. Os lotes com preços mais acessíveis no início também contribuem para aquecer a plateia. Além do critério de preço, tenta-se distribuir os trabalhos no catálogo de acordo com linguagem, técnica ou período, tentando criar algum tipo de harmonia. Um bom leilão deve ter em torno de 150 lotes, que resultam em uma duração aproximada de duas horas.

Uma boa exposição também é fundamental para o sucesso de um leilão. Como não existe uma curadoria, basicamente nada conversa com nada. O objetivo é uma montagem que seja menos caótica possível, objetivo dificílimo de ser alcançado.

É incrível que todo esse trabalho de quatro meses se resume a duas horas de uma noite. Há sempre o medo de que ninguém apareça, e ficamos atentos ao noticiário, torcendo para que nenhuma tragédia aconteça, como em 11 de setembro de 2001, quando tivemos que cancelar um leilão da Bolsa de Arte que aconteceria no Copacabana Palace.

Com a sala cheia, tudo fica mais tranquilo. Temos apenas que contar com a habilidade do leiloeiro para não perder nenhum lance, já que alguns clientes são muito discretos e cobrem o do adversário apenas com um olhar ou gesto quase imperceptível. O melhor momento é mesmo quando o preço de algum lote ultrapassa a estimativa alta e vai para as alturas. A sala fica em silêncio total, os minutos passam e a expectativa cresce em torno do resultado. O leiloeiro anuncia: recorde para o artista! Boa noite.

Candida Sodré
Representante da Christie’s Brasil

Na preparação de um leilão, como são escolhidas as obras de artistas brasileiros?

Nas casas de leilão internacionais, existem vários departamentos, cada um responsável por uma determinada área. Os especialistas dessas áreas é que decidem quais obras devem entrar em cada leilão. Na Christie’s, por exemplo, existe um departamento de arte latino-americana, cuja equipe é comandada por Virgilio Garza.

Eventualmente, uma obra de arte contemporânea brasileira pode cair no departamento de arte contemporânea, por isso, uma obra de Beatriz Milhazes, Vik Muniz ou de Adriana Varejão podem estar em um leilão de arte latino-americana ou de arte contemporânea.

Como é a preparação de um grande leilão?

A primeira etapa é a seleção das obras. Primeiramente, as obras são selecionadas por meio de imagens. Em seguida, são verificados a autenticidade da obra, a época em que foi criada e o seu estado de conservação.

Depois, então, é dado um preço para a obra. Outro ponto importante é saber a origem da mesma: o fato de ter vindo de uma coleção ou de um comerciante, por exemplo, faz diferença. A partir daí, é feito um quadro com as estimativas, e escrevemos sobre o artista e a obra para a confecção do catálogo, que é distribuído aos colecionadores, inclusive pela internet, com os e-catalogs.

Você se lembra de alguma história engraçada ou diferente que aconteceu?

Existem muitas histórias, só a Christie’s tem 300 anos. Uma famosa é a de um especialista que descobre na casa de um cliente um vaso chinês valiosíssimo sendo usado para guardar guarda-chuvas. Além disso, tem quadros que chegam com avaliações pequenas e durante o leilão têm uma subida impressionante. Enfim, são inúmeras as histórias em todos esses anos.

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