© Filipe Berndt

Ana Elisa Egreja, representada pela galeria Leme, abrirá as portas de seu ateliê no dia 2 de abril para convidados do programa VIP da nona edição da SP-Arte. A artista traz pinturas e desenhos de situações que integram animais (selvagens, na maior parte) a interiores projetados por humanos. Obras que se inspiram no método da colagem e revelam mais do que a dicotomia entre natureza e civilização.

Como numa revolução orwelliana, os animais retratados não estão simplesmente postos nos ambientes, eles claramente o dominam, conhecem-no intimamente e já estão estabelecidos. Seria perigoso dar a essa invasão um sentido específico, observando-se o leque de abordagens que ela possibilita. O que dizer do lúdico Meus 50 anos (2010), em comparação ao agressivo Interspecies love (2010) ou ao sóbrio Namoradeira (2011)? São abordagens diferentes sobre o tema. Além disso, os trabalhos não tratam somente de um cruzamento (em todos os sentidos) entre o humano e o animal.

As telas de Egreja parecem transmutar formalmente o conceito biológico de ecossistema, ou adicionar a ele um sentido plástico. Quando, por exemplo, na obra Janela III (2012), o formato e a tonalidade de um flamingo de asas abertas que adentra por uma janela são pareados com uma cortina de renda, a qual se desfralda em linhas semelhantes e tem uma cor rósea, a artista evidencia ao espectador que cada elemento está esteticamente interligado. Tais elementos acabam formando, por meio da colagem, redes de relações que preenchem completamente as telas – cada uma delas sendo um verdadeiro ecossistema pictórico.

Outra questão suscitada por alguns trabalhos mais recentes é o jogo de incongruências de perspectiva. Essas flutuações de retas e relevos, bastante sutis, não são necessariamente captadas num primeiro olhar, somente depois de vaguear pelo ambiente representado o observador esbarra em certas incoerências. Um dos casos mais evidentes encontra-se em Poça (2011), em que uma coluna erguida no centro da tela parece disfarçar a disparidade de comprimento entre as duas metades da parede.

Outra evidência disso, dessa vez envolvendo mais os relevos do que as linhas, é a dissimetria construída por meio da luz entre os botões da televisão de TV (2012). São desestruturações que reforçam a condição fictícia dos trabalhos, disposições espaciais que complexificam as obras e contribuem para o desafio ao senso comum e para o teor onírico constantemente propostos por Egreja.

A artista foi premiada em 2007, no 32.º Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional-Contemporâneo (SARP); em 2008, no 15.º Salão da Bahia, e em 2009, pelo Instituto Tomie Ohtake juntamente com o Instituto EDP Energias do Brasil. Este ano será a primeira vez que integra a programação VIP da SP-Arte. Os participantes desse programa poderão visitar o ateliê da artista e ter contato com os bastidores do trabalho dela, como ela mesma colocou: “será a oportunidade para quem tem interesse de ver como construo o pensamento das pinturas, ver minhas referências e conversar comigo sobre pintura, introduzindo o visitante no meu processo criativo em geral”.

Essa edição da SP-Arte traz 122 galerias vindas de 15 países diferentes que estarão reunidas no Pavilhão da Bienal, em São Paulo, entre os dias 3 e 7 de abril. O programa de parcerias com museus e instituições foi ampliado visando à maior integração do circuito de artes durante o evento. De acordo com esse programa, o visitante que comprar um ingresso para um estabelecimento cultural que tenha parceria com a SP-Arte receberá um convite para a feira. Assim como as telas de Ana Elisa Egreja invadidas por animais, estará a cidade de São Paulo, pela arte.

Mas nem todas as telas da artista contêm animais interagindo com o ambiente. Nesse sentido, destacam-se três obras: Cantinho I, Cantinho II e Canto da janela de vidro, todas de 2012. Essas produções, embora não sejam uma ruptura radical, distinguem-se das anteriores e apontam, como confirmado pela artista, um novo tipo de exploração: “Meu trabalho se virou para a arquitetura e para criação de ambientes mais vazios, que partiram de fotos de casas abandonadas para serem ‘restauradas’ a minha maneira e, assim, contarem a história que eu queria que tivesse acontecido nessas casas”.

Ana Elisa Egreja também começa a olhar para as distorções de objetos geradas por efeito de vidros, e explora isso nas três telas citadas. As fragmentações dos objetos refratados, bem como a multiplicação do reflexo, parecem aproximar as obras de sua natureza onírica. É como se a artista tentasse costurar, por meio da luz, o tal tecido de que são feitos os sonhos.

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