Na História da Arte, o mecenato é recorrente. Nomes de peso como Goya e Velasquez foram pintores oficiais da corte, atingindo o ponto máximo em suas carreiras com o apoio dos reis. Outros como Vermeer e Caravaggio também tiveram seus benfeitores entre os nobres e comerciantes, que se comprometiam com a compra de suas obras e, assim, garantiam seu sustento e o material para sua pintura. Muitos artistas atuais também têm o privilégio de contar com esse incentivo, que chega aos dias de hoje repaginado e com motivos variados, mas explicado pelo amor à arte.

Um exemplo desse apoio é o proporcionado por algumas galerias de arte, como a Thomas Cohn. “Assim como os mecenas de antigamente, a galeria, às vezes, compromete-se a ir comprando obras à medida que são produzidas, antes da exposição, permitindo ao artista a compra de materiais. É um risco, uma aposta que pode dar bons resultados ou não” – explica o seu proprietário, o marchand Thomas Cohn.

Heloisa Amaral Peixoto, da galeria HAP, do Rio de Janeiro, aponta que o incentivo também pode acontecer de outras maneiras. “Nós apoiamos os artistas de outras formas, o que não deixa de ser mecenato: financiamos livros e suas traduções, produzimos exposições não comerciais e em instituições, viabilizamos viagens e a participação do artista em eventos. É um empurrão importante na carreira desses artistas”, conta a galerista.

Atualmente, a forma de apoio que mais se assemelha a dos mecenas de outrora acontece por intermédio dos colecionadores. É o caso do advogado Pedro Mastobuono, que conheceu Gonçalo Ivo quando este ainda era um pintor jovem e anônimo. “É maravilhoso acompanhar as inspirações do artista. Você entra no mundo mágico do processo e acaba querendo ter um quadro de cada fase” – conta Pedro, que hoje soma mais de 30 quadros de Gonçalo Ivo em sua casa.

O empresário Fernando Márcio Queiroz e sua esposa, Christina Queiroz, são um exemplo ainda maior. Por meio da Via Engenharia, empresa de propriedade de Fernando, diversos projetos artísticos são patrocinados pela Lei Rouanet, inclusive a própria revista Dasartes. O casal também apoia a arte mesmo sem os incentivos fiscais, o que pode ser notado especialmente no suporte que os dois proporcionam à obra do pintor Enrico Bianco. O casal descobriu seu trabalho há 18 anos e quis conhecer de perto a pessoa responsável pelas Madonas que tanto os impressionou. “O Bianco é maravilhoso não só como pintor, mas também como pessoa. Ele tem uma cultura fantástica. Foi um encontro de almas” — diz Christina Queiroz, mais um exemplo de que o apoio se firma também por empatia pessoal.

Após anos de convivência, o casal teve a ideia de levar a Brasília o trabalho do pintor, para que o público local pudesse ter contato com sua obra. A exposição, ocorrida em 1996, foi totalmente produzida e financiada por Christina e Fernando Queiroz. O sucesso foi tão intenso, que o casal convidou o artista para uma nova exposição em Brasília, no Museu Nacional da República, em 2009, e terminou com todas as obras vendidas.

Em termos de volume de capital, o meio mais importante de apoio às artes é oferecido pela Lei Rouanet, ou lei do Mecenato. Infelizmente, o termo “mecenato” nem sempre é bem aplicado aqui, já que a maior parte dos projetos não é selecionada pelo desejo de apoiar a arte, mas, sim, porque propiciam maior retorno midiático, além da exposição da marca patrocinadora. A reformulação da lei, atualmente em aprovação, tenta mudar esse panorama ao estabelecer o Fundo Nacional da Cultura, que centralizará a distribuição de boa parte dos patrocínios. No entanto, a reforma da lei também abre possibilidades para aquelas empresas que a utilizam para divulgação e marketing, como o patrocínio a empreendimentos comerciais com viés cultural. A intenção do patrocínio, no entanto, terá de ser mais forte por parte das empresas participantes, já que a nova lei elimina o desconto de 100% do valor patrocinado do imposto de renda, o que as obrigará a desembolsar parte da verba.

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