© Foto: Walter Clemente

Em 1994, Nuno Ramos apresentava, na 22ª Bienal de São Paulo, Mácula, um conjunto de grandes peças feitas com sal, parafina e breu. O calor do lugar fez com que o breu derretesse. O acidente não estava nos planos do artista, mas Nuno acabou enxergando ali um novo elemento para seu trabalho. “Acontece de um desastre acabar se mostrando como uma boa ideia”, explica o artista em seu ateliê, no bairro do Cambuci, em São Paulo, durante uma pequena pausa no processo de montagem de seu novo trabalho.

A Hora da Razão (Choro Negro 2) já pode ser visto na exposição inaugurada este mês na Caixa Cultural de Curitiba e faz referência a outro trabalho do artista, Choro Negro (2004). A peça apresentada na exposição Morte das Casas, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, eleita pela Associação Paulista de Críticos de Arte a melhor mostra nacional de 2004, mostrava, pela primeira vez intencionalmente, o breu escorrendo por uma grande peça de mármore. Agora, o breu que fica sobre chapas de metal escorre pelas três estruturas de vidro quando aquecido. O choro negro cobre as estruturas e esconde o monitor colocado dentro delas. Em cada monitor, os músicos Nina Becker, Clima e Rômulo Fróes cantam A Hora da Razão, do compositor baiano Batatinha. Dentro dessas vitrines, túmulos, ou aquários, as vozes se misturam, cantando junto ou se desencontrando.

“Sempre trabalho com uma situação inédita, um material novo. Por isso, toda montagem instaura uma espécie de caos a ser controlado. Mudar abre novas possibilidades”, conta Nuno, que durante algumas semanas se viu preocupado com questões técnicas, como encontrar a temperatura certa para que o breu derretesse na velocidade desejada, e dúvidas sobre se a peça de vidro resistiria à temperatura e ao peso do breu. “Cada vez é uma encrenca nova. Quem trabalha comigo diz que, quando domino o material, desisto dele porque perde a graça. Às vezes, me arrependo de não fazer as coisas com uma margem de segurança maior, mas fico com vontade de ver se uma ideia pode dar certo”, completa.

Artista colocou dois barcos em uma galeria

Foi assim com o primeiro projeto deste ano. Nuno Ramos apresentou na Galeria Anita Schwartz, no Rio de Janeiro, a exposição Mar Morto. Durante seis meses, ele ficou às voltas com o projeto e, depois, com os testes para execução da peça Mar Morto (Soap Opera 2): dois barcos medindo 11 e 7 metros, e pesando duas toneladas, que ocuparam uma área de 140 m2 no andar térreo. A canoa e o pesqueiro foram comprados na cidade de Bertioga, litoral norte de São Paulo. “Dizem que inflacionei o mercado de barcos da cidade”, ri Nuno, que nos últimos anos comprou mais de dez barcos na região para usar em trabalhos. “São barcos de pescadores, com as marcas de uso. Isso me interessa”, explica.

Transportados em pedaços do ateliê do artista para o Rio de Janeiro, os barcos foram remontados e depois cobertos pelas três toneladas de sabão artesanal fabricadas dentro da galeria, obedecendo a uma combinação de soda cáustica, sebo e óleo de cozinha. “O sabão tem uma ambivalência que me interessa. Está entre o sujo e o limpo, o erótico e o morto. Nas minhas peças, as matérias estão sempre uma contra a outra. Devo fazer mais trabalhos com sabão”, resume Nuno, lembrando que a palavra sabão sempre esteve presente em seus textos e anotações, mas só no ano passado usou o material na peça Soap Opera, apresentada em uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília.

Para o artista, o barco é como um pequeno Davi, que tenta controlar o incontrolável Golias, que é o mar. Na galeria, no entanto, os barcos tiveram seus dias de Golias. Foram precisos quase quinze dias e mais de dez homens para montar a peça. “Tenho mania de grandeza”, brinca o artista. Que o digam seus quadros. Na mesma exposição na galeria carioca, o segundo andar foi ocupado por duas pinturas feitas por grandes estruturas volumosas, de 3 metros de espessura, com sobreposição de diferentes materiais como metais, pelúcia, tecido, tinta a óleo, que Nuno realiza desde 1988.

Essa é uma pesquisa que, segundo o artista, é muito complicada de colocar no mundo. “Trabalho essas pinturas há vinte anos e é com elas que ainda me sinto menos realizado como artista. Acredito que o que nos mantém fazendo arte é justamente isso: nunca achar que fez o suficiente”, diz Nuno Ramos, contando que já não há mais quase espaço em seu ateliê de 500 m2 para guardar seus gigantes, que, de tão orgulhosos, nem revelam seus títulos para o artista. As pinturas são as únicas obras de Nuno Ramos que não têm título.

Artista aposta em convivências improváveis

A obra de Nuno Ramos escapa de definições categóricas há mais de duas décadas. Poucos são os artistas que iniciaram carreira nos anos 1980 e conseguiram uma obra tão multifacetada quanto ele, que, em 2006, recebeu o prêmio anual da Barnett and Annalee Newman Foundation, pelo conjunto de sua carreira e pela contribuição às artes visuais. Um dos expoentes da Geração 80, integrante do grupo paulista Casa 7, formado com Fábio Miguez, Paulo Monteiro, Rodrigo Andrade e Carlito Carvalhosa, Nuno Ramos nasceu em 1960 em São Paulo. Formou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo em 1982 e, desde 1983, tem exposto no Brasil e outros países do mundo.

Sua produção inicial são quadros de grandes dimensões, em que uma massa grossa e colorida de tinta divide espaço com pedaços de pano, madeira, borracha, arame, entre outros elementos que parecem surgir de dentro do plano ou afundar dentro dele. “Esse plano é como um depósito para coisas, lugar que recebe matéria. É um plântano”, explicou certa vez o artista, misturando as palavras “plano” e “pântano”. “Essa mistura é muito importante no que eu faço, desde o início até hoje. Meus trabalhos sempre tentam juntar coisas diferentes, que não juntam. Tentam criar passagens entre partes díspares”, completa Nuno, que sempre incorpora uma série de materiais inusitados como piche, areia e animais, vivos e mortos, em suas obras.

Hoje, ele se diz cada vez mais interessado em conectar sua obra não só com novos materiais, mas também com outros campos de criação. Em 2004, por exemplo, fez o primeiro trabalho da série Fala, que une a literatura e o teatro ao universo das artes visuais. O poema de Carlos Drummond de Andrade, “Morte das Casas de Ouro Preto”, serviu de fundo sonoro para a instalação Morte das Casas, que levou uma chuva para dentro do prédio do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo em 2004. Enquanto a água caia mais de 20 m de altura, da claraboia até o hall do prédio, o público ouvia um coro de vozes masculinas declamando os versos de Drummond. “Eu precisaria de meu trabalho inteiro, o que já fiz e o que farei ainda, para explicar a importância da palavra”, tenta resumir Nuno, autor dos livros Cujo, O Pão do Corvo (ambos pela Editora 34), Ó (Editora Códice) e Ensaio Geral – Projetos, Roteiros, Ensaios, Memória (Editora Globo), e que ainda este ano lança mais um volume: O Mau Vidraceiro (Editora Globo).

Ele é também compositor festejado. Seus sambas “Pra que Cantar” e “Jurei” (em parceria com Eduardo Climachauska), incluídos no CD Hoje, de Gal Costa, foram elogiados pela crítica. Além disso, desde 2004, ele também participa das composições gravadas por seu assistente, o compositor Rômulo Fróes. Seus trabalhos como artista também flertam cada vez mais com a música.
O último pode ser visto no SESC Pompeia, em São Paulo. A exposição Arte para Crianças, com curadoria de Evandro Salles, reúne obras de artistas como Amilcar de Castro, Cildo Meireles, Eder Santos, Tunga e Yoko Ono. Nuno Ramos apresenta esculturas da série Pagão, batizada com o nome de uma composição de Pixinguinha. Nelas, instrumentos musicais como clarinete, tuba, trombone, trompete, cavaquinho e baquetas estão incrustados em pedras-sabão. “Sei que meus trabalhos fazem as pessoas quererem colocar a mão, tirar o instrumento da pedra, mas eu não quero essa interação. Meus trabalhos em geral machucam o público. A interatividade é involuntária, desastrosa. Se alguém quiser ir lá para tomar um tombo, eu topo, mas pegar meus instrumentos para tirar um som, não”.

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