Finalmente, o Rio Janeiro acolhe uma obra de Robert Morris. Feito em vidro, o labirinto, situado na Cinelândia, tem causando grande sensação entre crianças e populares, que se divertem e, sem inibição, clicam com suas câmeras fotográficas. A escala da obra, contudo, revela certo desconforto, por ser relativamente acanhada para a dimensão da praça. São muitos os labirintos realizados pelo artista, a começar pelo mais ambiental Passageway, 1961; Labyrinthe à Pontevedra, na Galícia, Espanha, ou ainda, entre outros, Philadelphia Labyrinth, de 1974. “Suponho que os labirintos se situam (…) em algum ponto entre a arquitetura e a escultura (…). É uma forma que vai além da memória”, observa Morris.

Aos 80 anos, ele não veio ao Brasil, o que talvez explique o descompasso de escala para um artista e teórico de sua qualidade. Nascido em Kansas City, Missouri, estudou engenharia, formando-se, todavia, pelo Instituto de Arte de Kansas City, a escola de Belas-Artes da Califórnia e o Reed College, em Oregon. Chegou a Nova York em 1961, após incursões no meio da dança com Simone Forti, dançarina e coreógrafa, e Anna Halpin, em São Francisco, e na música com La Monte Young. Desenvolve uma série de ações coletivas junto ao Fluxus e, em colaboração com Yvonne Rainer e Carole Schneeman, participa também do Judson Dance Theater, em que coreografou inúmeros trabalhos, como Arizona (1963), 21.3 (1964), Site (1964) e Waterman Switch (1965).

Desde cedo desenvolveu importantes textos críticos sobre o panorama da arte americana e defendeu, no Hunter College, sua dissertação de mestrado sobre Brancusi. Foi um dos principais teóricos do minimalismo, a começar por Some Notes on Dance, de 1965, em que discute a task-oriented dance, e depois, com seus célebres Notes on Sculpture I, II, II e IV, publicados na revista Artforum, de 1966 a 1969, sustentou a incorporação de múltiplos pontos de vista, distâncias e temporalidade estendidas ? um dos centros dos ataques de Michael Fried, em Art and Objecthood, de 1967. Explorou, então, elaborados processos industriais, usando materiais como alumínio e malhas de aço, e desafiou o mito da expressão artística, desenvolvendo autorretratos irônicos, inspirado em Marcel Duchamp. No final dos anos 1960, começou suas experiências com arte processo, utilizando feltro, que empilhava e pendurava nas paredes a fim de investigar os efeitos de gravidade e pressão dos materiais. São inúmeras e diversificadas as experiências desenvolvidas ao longo dos anos. Trabalhos de Land Art, por exemplo, como Observatory, de 1977, na Oostelijk Flevoland, na Holanda, que se caracteriza, segundo Gilles Tiberghien, “como ao mesmo tempo vetor multidirecional e charneira, a terra tomando, de alguma maneira, a medida do céu, e vice-versa”. Em Present Tense of Space, de 1978, Morris discutiu trabalhos instauradores de uma experiência espacial que se estende no tempo, assinalando: “O espaço real não é experimentado a não ser no tempo real.” Muitos de seus textos estão reunidos na antologia Continuous Project Altered Daily. The Writings of Robert Morris (The MIT Press, 1993), ou ainda em From Mnemosyne to Clio: The Mirror to the Labyrinth (1998-1999-2000) (Seuil, 2000).

Após os anos 1970, Morris tem explorado outros meios, tais como desenhos, com os olhos vendados, em que utiliza as formulações do filósofo Donald Davidson, como em Blind Time IV: Drawing with Davidson; instalações com espelhos; pintura com encáustica; moldagens com plástico e fiberglass, estendendo-se sobre temas que vão do holocausto nuclear a Investigações filosóficas, de Wittgenstein.

Esperemos ter outra oportunidade de ver os trabalhos desse grande artista aqui no Rio, corretamente instalados. E em um futuro não muito distante.

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