O amor entre as ruínas, 1870-73

DASARTES 78 /

O estranho mundo de Edward Burne-Jones

EDWARD BURNE-JONES FOI UMA FIGURA-CHAVE NO MUNDO DA ARTE DO SÉCULO 19, CUJO TRABALHO IMPREGNOU HISTÓRIAS FAMILIARES DE MITOS, LENDAS E DA BÍBLIA COM UMA SENSIBILIDADE MODERNA E UMA BELEZA ASSOMBRADA E ESPIRITUALIZADA QUE ERA TÃO ENIGMÁTICA QUANTO O PRÓPRIO ARTISTA

O nome Edward Burne-Jones (1833-1898) pode não ser tão familiar hoje como era antes, mas sua arte está ao nosso redor. Seus vitrais iluminam igrejas de todo o Reino Unido com suas formas evocativas e ricas com cores brilhantes; suas pinturas se destacam em nossas galerias de arte e museus por meio de sua beleza de artesanato e design; e, na época do Natal, os distintos anjos melancólicos do artista podem ser vistos em muitos cartões de felicitações. Burne-Jones é o mais facilmente reconhecível dos artistas. Descrever alguém como possuidor de um “olhar de Burne-Jones” é conjurar uma visão de um jovem magro e pálido com uma expressão sonhadora: é um tipo andrógino de beleza perturbador, mas fascinante de se ver, influenciando um crescente apetite para a fantasia, de “Tolkien” a “Game of Thrones”.

Laus Veneris, 1873-78

Apesar dessas características de marca registrada, Burne-Jones também é o mais indescritível dos artistas. Os mitos e as lendas que inspiraram tantas de suas criações – da busca do Santo Graal à Bela Adormecida – tornaram-se parte de nossa cultura, mas isso não faz de sua arte mais fácil de entender. Há uma estranheza em sua visão que a leva além da ilustração para o reino do mistério. Vejamos “The Golden Stairs”, de 1880, por exemplo, uma pintura que está em exposição quase permanente desde que entrou na Tate Gallery, em 1924. Aqui, um grupo de donzelas quase idênticas, vestidas de branco e segurando uma variedade de instrumentos musicais, pisam em forma de transe descendo uma escada em espiral até um pátio, o propósito e significado de seus movimentos desconhecidos.

Escadas de ouro, 1980

“Há uma estranheza em sua visão que a leva além da ilustração para o reino do mistério”

O mesmo pode ser dito de “The Mill”, de 1870-1882, em que três mulheres dançam ao som de um músico enquanto os banhistas nus masculinos posam misteriosamente ao fundo. Em uma das composições mais célebres do artista, “Love among the Ruins”, 1870-1873, uma mulher olha fixamente para o horizonte enquanto se agarra a seu companheiro na concha de uma ruína coberta de arbustos. Em todas essas imagens, figuras são mostradas girando e virando, sem outro propósito senão destacar um clima de quietude e inércia, a suspensão da ação ressaltando a ambiguidade essencial que tornou a arte de Burne-Jones tão desconcertante para seus contemporâneos, e que continua a nos assombrar ainda hoje.

A cabeça sinistra, 1885

Parte do mistério é o próprio artista. Ele começou a vida como simples Edward Jones de Birmingham, tornando-se Sir Edward Coley Burne-Jones, Baronete, elogiado em toda a Europa como o maior artista que já emanou da Grã-Bretanha. Apesar de sua fama e celebridade, Burne-Jones se sentiu desconfortável aos olhos do público. Em vez disso, ele mergulhou em suas obras no estúdio em sua casa de família, o Grange, em Fulham (demolido na década de 1950), periodicamente dando lugar aos surtos de depressão e solipsismo que o atormentaram durante toda a vida. Mesmo aqui ele estava inquieto e procurava uma saída para suas frustrações e emoções nas amizades íntimas que desenvolveu com várias mulheres da alta sociedade, às vezes escrevendo até cinco cartas por dia para uma alma gêmea especial, expressando seus sentimentos. Em muitas dessas cartas ele fazia caricaturas, que eram invariavelmente autodepreciativas, e muitas vezes cruéis em seu humor (ele tinha uma preocupação particular com mulheres grandes, que tanto o assustavam quanto o intrigavam).

A desgraça cumprida, 1888.

“O enigma de Burne-Jones explicaria por que ele tem sido objeto de fascínio por uma série de biógrafos”

O enigma de Burne-Jones explicaria por que ele tem sido objeto de fascínio por uma série de biógrafos que foram atraídos pelos extremos e pelas contradições de sua personalidade. Até a esposa do artista, a fiel e sofredora Georgiana, teve dificuldade em revelar em que seu marido realmente acreditava, além de sua arte. Os “Memoriais”, de 1904, escritos por ela pouco depois da morte do artista, pintam a imagem de um homem profundamente versado na Bíblia e na Teologia, mas perdeu o interesse pelo cristianismo formalizado. Embora tivesse fortes pontos de vista éticos – ele se sentia indignado com o tratamento dado pela Grã-Bretanha a outras raças e culturas, e simpatizava com o oprimido – ele se recusou a se tornar politicamente engajado.

Perseu e as ninfas do mar (O arme de Perseu), 1877

Em desencontro aos métodos ensinados nas escolas de arte sobre a forma adequada para utilizar materiais, Burne-Jones desenvolveu sua própria prática idiossincrática negligenciando as propriedades intrínsecas de um meio e a seguir seus instintos. Todas as suas obras, quer executadas em aquarela, pastel a óleo ou giz, parecem pesadas, parecidas com pedras preciosas e opacas e, em termos de peso e textura, eram frequentemente comparadas à escultura em relevo ou tapeçaria. Nesse sentido, seu objetivo era criar algo sólido e permanente que fizesse parte de um ambiente fixo, em vez de existir como uma mercadoria flutuante a ser vendida no mercado de arte, que ele professava desprezar. Embora não tenha seguido na política, era comum ele querer criar uma arte que servisse a todos, em vez de uma elite privilegiada. Como ele disse uma vez: “Eu quero grandes coisas para fazer e vastos espaços, e para pessoas comuns para vê-los e dizer Oh! – só Oh!”

Retrato de Amy Gaskell, 1893

Seguiu-se que Burne-Jones valorizou as artes aplicadas (ou as “artes menores” como eram denominadas) e as artes plásticas igualmente, e acreditou que as formas decorativas, como vitrais e mosaicos, eram mais democráticas com seu alcance e apelo. Na busca de abraçar um público amplo, retratou histórias e lendas que poderiam ressoar na imaginação popular, sendo belas e misteriosas de se ver. Sua arte pública exigia um nível profundo e pessoal de envolvimento.

A rocha da desgraça, 1885-88

Embora o tema da arte de Burne-Jones tenha remontado ao passado, devendo-se em grande parte à Bíblia, à mitologia e à cultura renascentista, o tratamento dele em relação a esses temas foi surpreendentemente moderno em virtude de sua perturbadora psicologia e intenso humor de introspecção.

A morte de Medusa II, 1881-82

Burne-Jones não era realista, preferindo, como ele dizia, “esquecer o mundo e viver dentro de uma imagem”. Ao criar os ambientes imaginários de suas imagens, ele trabalhou em um afastamento do mundo existente, projetando os objetos que deveriam aparecer em suas obras e, em seguida, fabricando-os como modelos tridimensionais, de modo que, uma vez pintados, eles existiam como “um reflexo de uma análise de algo puramente imaginário”. Esse tipo de prática não só encontra eco no design assistido por computador que dá à ficção científica e ao filme de fantasia sua própria realidade, mas inacreditável, nos métodos adotados por alguns artistas conceituais.

O artista e designer morreu em Londres, em 1898, aos 64 anos.

O jardim tribunal, 1874-84

Edward Burne-Jones
24/10/2018 a 24/02/2019

Alison Smith é curadora chefe da National Portrait Gallery. Anteriormente, foi curadora principal de Arte Britânica do Século 19 no Tate Britain, de 2000 a 2017.

Compartilhar:

Confira outras matérias

Destaque

Jean-Michel Basquiat na Fundação Louis Vuitton

Inquebrável

Parece que palavras “tour de force” foram criadas para a exposição épica de Jean-Michel Basquiat na Louis Vuitton Foundation. A …

Matéria de capa

Andy Warhol: de A para B e vice-versa

“Eles não queriam meu produto. Ficavam dizendo ‘queremos sua aura’. Nunca entendi o que queriam.” – Andy Warhol
Esse trecho tirado …

Flashback

Constantin Brancusi

Constantin Brancusi (1876-1957) exibiu pela primeira vez sua escultura em Nova York, no Armory Show de 1913, ao lado de …

Do mundo

Jaume Plensa

“A escultura é a melhor maneira de fazer uma pergunta.” Jaume Plensa

“Firenze II”, de 1992, é um enorme ponto de interrogação …

Destaque

A vizinhança de Lucia Laguna

As pinturas de Lucia Laguna são inseparáveis do local onde foram feitas: o ateliê-casa da artista e os arredores do …

Garimpo

Gunga Guerra

Nascido em Moçambique e radicado no Rio de Janeiro, Gunga Guerra é a escolha do conselho editorial da Dasartes para …

Resenhas

Resenhas

Amsterdam Art Week
Museus e Galerias • Amsterdã • Países Baixos • 22 a 25/11/2018
POR SYLVIA CAROLINNE

Diversas foram as aberturas ao …

Matéria de capa

Os contos cruéis de Paula Rego

 

“Os contos cruéis”, de Paula Rego, exposição inaugurada em outubro no Museu  L’Orangerie, em Paris, marca um momento importante na …

Flashback

Pieter Bruegel, o velho

Bruegel é um moralista ou fatalista? Otimista ou cínico? Humorista ou um filósofo? Camponês ou habitante da cidade? Folclorista ou …

Reflexo

Hugo França

Cadeira Canoa

A “Cadeira Canoa” remete ao começo de tudo e também a um marco da minha carreira. Meu contato com …

Destaque

Sonia Gomes: ainda assim me levanto

“Ainda assim me levanto” apresenta a extraordinária contribuição da artista Sonia Gomes para a linguagem da escultura contemporânea. As obras …

Outras notas

Laércio Redondo: Relance

A pesquisa do artista brasileiro Laércio Redondo, que vive entre a Suécia e o Brasil, envolve a memória coletiva e …

Destaque, materia, yves klein

Yves Klein - Cronologia

CRONOLOGIA

1928 – Nasce em Nice, filho de um casal de artistas.
1947 – Inicia seus estudos do Judô e, no Clube …

Destaque, materias

57ª Bienal de Veneza

Viva Arte Viva

A 57ª Bienal de Arte de Veneza intitulada “Viva Arte Viva” inaugurou no início do mês de maio, …

Piti Tomé

O trabalho de Piti Tomé gira em torno da fotografia e da experimentação com a imagem. Sua pesquisa tangencia questões da psicanálise e trata …