No final da década de 1980 e início da de 1990, Albano Afonso trabalhou em um banco, nos correios e até em uma imobiliária. “Naquela época, a arte não era profissão. Tinha-se uma visão mais romântica”, lembra o artista, hoje com 45 anos. Se há tempos atrás era difícil para uma família entender que um filho queria ser artista plástico, hoje a situação não é ainda muito diferente. “Fazer arte é muito abstrato. A vida de artista é sempre instável, financeira e emocionalmente”, continua Albano, que coordena há dez anos, ao lado da artista Sandra Cinto, o Ateliê Fidalga. Ambos, criadores de renome no Brasil e no exterior, conciliam suas produções com as atividades do espaço paulistano de estudo e encontro de novos artistas.

“Percebo que hoje, no sistema da arte, há uma grande profissionalização em todos os níveis. O acesso e uma maior democratização da informação, graças à internet, tornaram tudo mais rápido”, diz Sandra, 41 anos. Albano vê algo positivo nesse processo: “Agora há mais instituições e galerias e por isso os jovens de hoje, quando precisam de um emprego, podem trabalhar no próprio meio de arte como monitores ou assistentes de um artista mais experiente. Assim eles já vão conhecendo a realidade da profissão”.

O carioca Rafael Alonso, de 26 anos, é assistente da pintora Lucia Laguna. Formado em 2005 na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele acredita que tem aprendido muito mais trabalhando no ateliê de outros artistas do que no curso de graduação. Desenvolvendo uma obra híbrida entre a pintura e o objeto, Alonso utiliza elásticos e fitas adesivas em cores industrializadas para construir campos geometrizados que se transformam em “paisagens ideais, como as de descanso de tela de computador”. “Falta uma discussão sobre arte contemporânea na graduação. A grade curricular precisa ser revisada. O sistema de arte mudou, as necessidades mudaram, a produção mudou”, diz o artista. “Mais estimulante do que a faculdade é a conversa com artistas, amigos e as visitas aos ateliês”, concorda o artista paulistano Lucas Arruda, de 26 anos. Atualmente se dedicando à pintura, Arruda acabou de se formar na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. Ele já foi assistente do artista Claudio Cretti, e cita como importante para a sua formação seus diálogos com artistas como Sergio Sister e Rodrigo Andrade, além de cursos livres com Paulo Pasta e Rodrigo Naves.

“A formação do artista não é algo imutável. A reflexão sobre a questão da arte está presente hoje, mesmo naqueles que não buscam a formação acadêmica. Pensar sobre a instabilidade do conceito de arte faz parte do cenário atual”, aponta Glória Ferreira, crítica responsável pela coordenação do colóquio “Formação e estatuto do artista”, realizado no início de dezembro no Parque Lage, no Rio de Janeiro, com a presença de criadores e críticos de diferentes gerações. Essa formação que alia o estudo, formal e informal, e a prática com a atuação no próprio meio de arte é o primeiro passo na carreira. “Uma série de artistas se forma na pós-graduação, sem que isso seja um contraponto ao trabalho de ateliê, mais reservado. Muitas possibilidades se relacionam, e a pós-graduação está longe de ser a única opção para a formação dos artistas”, completa Glória.

Apesar do crescimento no número de galerias e instituições nos últimos dez anos, as premiações voltadas aos jovens artistas ainda não conseguiram alcançar uma regularidade. Raras iniciativas, como a Bolsa da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, e a Bolsa Pampulha, promovida pelo Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, passam da primeira edição. “Quando você é novo, acha que tudo deve acontecer agora em sua carreira. Como nos anos 1990 não existiam tantas opções quanto hoje, a gente pensava para frente e nossa salvação como artista era pensar em um processo de acumulação. Hoje, com tantas possibilidades, o importante é perceber que a formação de um artista deve se dar em longo prazo e isso inclui se conhecer à medida que se expõe o próprio trabalho e a si mesmo”, diz o artista Albano Afonso. A preocupação em conhecer a si próprio e ao próprio trabalho está presente na maioria dos jovens entrevistados. Eles contam que esperaram que o trabalho atingisse certa maturidade inicial para então se inscrever em bolsas, prêmios e salões. Em sua quarta edição, realizada entre 2008 e 2009, o programa Rumos Artes Visuais Itaú Cultural registrou 1.617 inscrições, um recorde para o projeto que selecionou 45 artistas e coletivos. Já o tradicional Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, que em 2010 completa 20 anos, recebeu para a edição de 2009 cerca de 540 inscrições, das quais 21 foram selecionadas.

“Não tenho uma estratégia, mas uma vontade de levar meu trabalho a sério. No início, tinha dificuldade e receio de mandar meu portfolio para os salões”, conta a artista Ana Sário, 25 anos. Formada pela Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, em 2007, ela também se dedica à realização de uma pintura interessada na investigação do espaço a sua volta e que tem na fotografia um ponto de partida. “Sistematicamente mando material para salão desde 2005. É uma maneira de começar a mostrar minha produção, já que a comissão julgadora vê o trabalho mesmo que ele não seja aprovado, mas já vi jovens artistas perdidos, tentando moldar seu trabalho ao que acreditam ser o perfil de interesse de cada salão. Isso fere o compromisso do artista com a obra”, aponta Rafael Alonso. A artista Marina Weffort, nascida em 1978 e formada em 2001 na Faculdade Armando Alvares Penteado, em São Paulo, conta que só em 2008 começou a se inscrever em salões. Com uma produção que envolve desenho, fotografia e objetos, ela fez sua primeira exposição individual em 2009, dentro do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo. “Não queria que uma exigência externa interferisse na minha produção. Resolvi esperar que o trabalho tivesse corpo para responder a essa demanda”.

Criados ainda no século 19, os salões são até hoje um importante meio de exibição do trabalho de jovens artistas. “Por mais que sejam acusados de desatualizados em seu formato de inscrição ou na apresentação do artista, os salões cumprem ainda um importante papel em algumas regiões. Eles passam a ser a forma mais democrática de um artista mostrar o seu trabalho. Muitos permitem que curadores, críticos de arte e outros artistas tenham contato com uma produção jovem e desconhecida”, afirma Ricardo Resende, responsável pelo Centro de Artes Visuais da Funarte. “O formato de salão é questionável, sob muitos aspectos, mas ao mesmo tempo é evidente que ainda se constitui como importante estratégia de inserção utilizada por muitos jovens artistas, até mesmo por ser reconhecida pelo meio de arte. Ter participado de um salão ainda é um dado importante no currículo. No ano que vem, estamos planejando organizar um ciclo de debates sobre a relação entre salões e a arte contemporânea. O importante não é substituir o salão por outro formato problemático, e sim debater a questão, ouvindo os pontos de vista, sobretudo, dos artistas que estão em início de carreira”, concorda Ivair Reinaldim, membro da comissão curatorial da Galeria de Arte Ibeu, que realiza anualmente desde 1962 no Rio de Janeiro a exposição Novíssimos.

Essa visibilidade oferecida pelos salões e projetos institucionais também pode ser uma porta de entrada de jovens artistas para o mercado de galerias. “Os galeristas tomam conhecimento do trabalho de jovens artistas por vários caminhos. Mas os principais são visitas a exposições e mostras, recomendações de artistas e curadores e análise de portfolios que recebemos aos montes na galeria”, explica Alexandre Roesler, coordenador da recém-criada Galeria Motor, plataforma virtual de comercialização de obras, em grande parte de jovens artistas como Mariana Serri, Ana Sario, Estela Sokol e Renata Ursaia. A iniciativa é resultado da parceria entre quinze galerias e coletivos, e coloca à venda trabalhos com preços que variam de R$ 500 a R$ 5 mil.

Galerias por vezes também promovem trabalhos considerados a princípio não comerciais. É o caso d’A Gentil Carioca, galeria localizada no Centro do Rio e gerida pelos artistas Marcio Botner, Laura Lima e Ernesto Neto. O programa Parede Gentil conta com apoio de colecionadores para dar visibilidade a novos criadores. Em sua 10a edição, os irmãos Tiago e Gabriel Primo, de 27 e 21 anos, fizeram um trabalho performático, morando durante três meses no exterior da galeria, utilizando o mobiliário especialmente adaptado à parede. “Não tenho ainda uma galeria. Minha preocupação é fazer meus trabalhos”, diz Tiago Primo, publicitário que buscou a Escola de Belas Artes da UFRJ, a princípio, para poder trabalhar com direção de arte em publicidade.

“Está na moda ser jovem artista, mas a procura das galerias e dos curadores pelo novo tem um aspecto saudável, já que bons artistas jovens precisam de espaço”, afirma Rafael Alonso. “O mercado de arte nacional e internacional pede com muita sede a renovação dos nomes, nessa lógica do ‘novo pelo novo’. Quanto mais jovens, melhor. O artista no meio de carreira, depois de ter passado pela mesma trajetória e em alguns casos ter sobrevivido, é o maior penalizado”, pondera Ricardo Resende. “O artista precisa correr riscos, e é um problema quando ele se rende à sedução mercadológica. Ele acabará por se limitar no seu processo criativo. Não poderá correr riscos, ou melhor, não poderá mudar sua trajetória ou ‘estilo’ para não desagradar os colecionadores”, completa. “A pior fase é depois dos três ou quatro primeiros anos de carreira. Há muita expectativa hoje em dia e, se você não consegue responder a isso, contando com uma boa base emocional, seu trabalho desaba”, diz Albano.

Essa procura pelo novo, tanto em mostras institucionais quanto pelo mercado, pode ser perversa. “É preocupante que esse ciclo seja muito rápido. Às vezes, artistas inserem no circuito muitos jovens, que acabam saindo dele também muito jovens. É preciso aparecer e se manter”, afirma Ana Luisa Flores, de 26 anos. Graduanda do curso de Gravura da Escola de Belas Artes da UFRJ, a artista, que cria uma obra gráfica de registros do cotidiano usando como suporte uma série de cadernos, ficou com o segundo lugar do prêmio Energias na Arte, realizado esse ano pelo Instituto EDP em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. “É difícil olhar para um jovem artista e já saber se ele é bom. O jovem desperta curiosidade e tem um preço mais acessível. Há um fetiche pelo novo no mercado”, concorda Marina Weffort.

“Essa é uma época em que tudo parece válido e livre, e eu não concordo com isso. É preciso ter um filtro”, diz Lucas Arruda, que entre setembro e outubro apresentou sua primeira exposição individual em uma galeria comercial de São Paulo. O tempo lento fundamental na formação de um artista é matéria do fazer pictórico de suas telas, que em tamanho reduzido revelam uma figuração não explícita entre a representação de lugares e formas geométricas. “O mercado de arte é uma coisa e Arte é outra. Às vezes, essas duas coisas caminham juntas, outras não. Se temos isso bem claro na cabeça, fica tudo mais simples”, conclui Sandra Cinto.

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