Tosa Mitsuoki, Murasaki Shikibu compondo o conto de Genji. Japão, período Edo (1615–1868), século 17. Foto: Ishiyamadera.

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O Conto de Genji: um clássico japonês iluminado

Obra clássica da literatura mundial, O CONTO DE GENJI é tema de exposição no Museu Metropolitan, que reúne pérolas da arte japonesa ao longo de vários séculos.

O conto ou Romance de Genji é considerado por muitos o primeiro grande romance da literatura mundial. Escrito no início do século 11 pela fidalga e dama de companhia da corte Murasaki Shikibu, centra sua narrativa principal na vida do “radiante Genji” (hikaru Genji), filho de um imperador. O romance acompanha sua ascensão e queda política, após ser rebaixado ao status de cidadão comum, e seu lento galgar de volta à corte, entremeado com inúmeros romances em vários contextos e regiões do país. Após a morte de Genji, o conto segue sua saga através de dois de seus descendentes.

Dividido em 54 capítulos, O conto de Genji é não apenas um relato divertido das relações românticas de Genji e um deslumbrante retrato do esplendor da corte do período Heian (794-1185). É também uma crônica social e política, um tratado que versa sobre teoria estética e filosofia budista, um guia comportamental e uma fonte de insight sobre a natureza humana. Oferecendo muito mais do que romance, O conto de Genji conheceu sucesso em sua época, não apenas entre homens e mulheres da aristocracia, mas também para instituições budistas e seu adeptos, líderes militares e suas famílias, comerciantes e burgueses.

Sata
Yoshiro, Ukifune
Screen, Japão, período
Showa (1926-1989), 1966.

Sua importância para a cultura japonesa é reconhecida nas inúmeras versões ilustradas e adaptações para o teatro, cinema e ópera, além de sua influência sobre a literatura e arte contemporâneas. A exposição do Metropolitan reúne um amplo espectro de pinturas e gravuras relacionadas a Genji, criadas para diversos patronos pelos artistas japoneses mais bem sucedidos do milênio passado, além de obras de arte atuais que seguem bebendo do tema. Também lança nova luz sobre a autora do conto e suas personagens femininas, e sobre as mulheres leitoras, artistas, calígrafas e comentaristas que desempenharam um papel crucial para garantir a relevância continuada deste texto clássico.

Matsuoka Eikyu, As princesas em Uji. Japão, período Taisho (1912-26). Foto: Himeji City Museum of Art.

O CONTO À MÃO: CALIGRAFIA E GENJI

Através dos séculos, versões manuscritas iluminadas do conto em formato de pergaminho, livreto e álbum foram apreciadas por suas pinturas meticulosas e transcrições elegantes dos textos, especialmente da poesia, por calígrafos famosos. De fato, a caligrafia era considerada uma das artes supremas na Ásia Oriental pré-moderna, e esperava-se que toda pessoa educada escrevesse fluentemente com um pincel de ponta flexível. A aparência da caligrafia era um sinal de boa educação e refinamento estético. Durante o período Heian (794-1185), surgiram estilos caligráficos corteses para kanji, ou caracteres chineses, e a forma japonesa distinta de escrita fonética chamada kana, ou onna-de, a “mão das mulheres”. A caligrafia kana da corte Heian é tipificada por vertentes graciosas e suavemente fluidas de caracteres japoneses. O conto de Genji foi escrito em caligrafia kana, uma vez que pertencia ao gênero de ficção chamado monogatari (literalmente, “falando de coisas”), enraizado em uma tradição narrativa oral e firmemente associado à escrita feminina.

Kyo-Kano School, Anteriormente atribuído a Tosa Mitsunari, 1648–1710. Detalhe de cena do conto
de Genji (Genji monogatari e-maki). Japão, período Edo (1615–1868), meados do século 17.

VENERAÇÃO DE MURASAKI SHIKIBU

Uma bela lenda descreve como a nobre Murasaki Shikibu começou a escrever O conto de Genji durante uma visita a Ishiyamadera, um templo budista a sudeste de Kyoto, onde ela foi inspirada pelo reflexo brilhante da lua cheia no lago Biwa e pelos poderes divinos do iluminado Kannon. Pinturas da autora por artistas de praticamente todas as escolas reinventaram esse momento crucial na gênese do conto.

O templo da montanha continua a ser um local popular de peregrinação budista até hoje. No século 14, o salão principal do templo apresentava a chamada Sala Genji. A relação do conto com o budismo aparece em seu conteúdo narrativo, mas também em rituais destinados a santificar o conto, orações pela salvação de Murasaki Shikibu e até mesmo a adoração dela como uma manifestação de Kannon.

Matsuoka Eikyu, As princesas em Uji. Japão, período Taisho (1912-26).

PREVENDO A HISTÓRIA: A ARTE NARRATIVA DE GENJI

Artistas começaram a ilustrar O conto de Genji logo depois de ter sido escrito no início do século 11. Para representar o complexo, longo conto e seus numerosos poemas waka, muitos artistas e seus patronos adotaram uma abordagem modular, criando conjuntos de pinturas Genji que incluíam uma imagem e um texto como emblemáticos de cada um dos 54 capítulos do conto. Uma iconografia foi logo estabelecida, permitindo que os espectadores reconhecessem cenas importantes. Estas ilustrações incluem o primeiro vislumbre do protagonista Genji e da personagem Murasaki, que se torna sua companheira para toda a vida, ou a impressionante performance de dança de Genji com seu cunhado e rival, Tō no Chūjō, sob as folhas de outono, ou, perto do final do conto, a jovem Ukifune cruzando o rio Uji de barco com seu amante, o príncipe Niou, neto de Genji.

Apesar dessa linguagem visual comum, no entanto, as pinturas Genji demonstraram uma enorme variedade ao longo do último milênio, encantando os espectadores com variações inesperadas que refletem a variedade de visões artísticas, funções e mudanças em como o conto foi lido durante diferentes épocas.

GENJI NO COTIDIANO

O conto de Genji moldou o modo como membros de classes de elite se engajaram com o mundo e conduziram suas vidas. O período Edo (1615-1868) é considerado a idade de ouro para objetos laqueados, tecidos e trabalhos em metal com a decoração de Genji, refletindo o importante papel que o conto desempenhou nos enxovais de noiva dos casamentos daimyo e os significados auspiciosos associados às suas cenas. Temas de Genji apareceram em roupas para aristocratas e mulheres de classes mais abastadas, em figurinos para o teatro Noh e utensílios do cotidiano como jogos e instrumentos musicais.

GRANDES TELAS

Pinturas em tela de grande formato retratando cenas de O conto de Genji eram encomendadas para transformar aposentos de suas residências em salas Genji. Tais obras ofereciam vistas panorâmicas, retratando apenas uma ou duas cenas em todos os 12 painéis de uma tela dobrável, para criar um ambiente imersivo. As cenas eram selecionadas com muito cuidado pelos patronos, com frequência refletindo suas condições ou momentos de suas vidas. Visões de harmonia doméstica eram encomendadas para enxoval de noiva e cenas de Genji no exílio da costa de Suma eram as preferidas por homens com experiências de exílio político em seus próprios passados.

Kyo-Kano School, Detalhe de vassoura Cypress (Hahakigi) do conto de Genji. Japão, período Edo (1615–1868), meados do século 17. Foto: The New York Public Library.

PINTURAS MONOCROMÁTICAS

Ainda que as pinturas de Genji estejam associadas a cores vivas e ouro reluzente, pinturas em tinta monocromática representam algumas das obras mais atraentes. As pinturas narrativas no modo linha de tinta (hakubyō) evitam a cor em favor de composições lineares que destacam a qualidade rítmica da linha à medida que esta se dilui e espessa, pontuada por manchas de tinta escura, e que usam o fundo branco não pintado do papel como um elemento positivo da composição. Esse modo de representação foi associado desde cedo a artistas amadores e salões para mulheres. Muitas dessas pinturas sobreviveram desde o século 16 em pequenos pergaminhos que se encaixam confortavelmente na mão. Provavelmente executadas por e para mulheres, representam cenas e motivos únicos que oferecem uma visão sobre como os leitores medievais entendiam e compartilhavam a história

Tawaraya Sotatsu, Miotsukushi e Sekiya. Japão, período Edo (1615-1868), 1631. Foto: Seikado Bunko Art Museum

GENJI SE MODERNIZA

A linguagem arcaica em que O conto de Genji foi originalmente escrita se tornou cada vez mais inacessível para os leitores no final do século 19 e início do século 20, que passaram a confiar nas traduções para as línguas modernas japonesas e ocidentais. No entanto, os artistas continuaram a usar a imagística tradicional do conto como tema de novas interpretações pictóricas. Na década de 1880 e início da década de 1890, Tsukioka Yoshitoshi traduziu a iconografia antiga para um estilo ukiyo-e (“imagens do mundo flutuante” em tradução literal, estilo tradicional de gravura e pintura que se tornou conhecido pelas obras de mestres como Hokusai e Hiroshige). No início do século 20, Tanaka Shinbi criou cópias notavelmente fiéis de pinturas e seções de texto de um pergaminho de O conto de Genji do século 12, com desejo de inspirar artistas contemporâneos a olhar a arte antiga através de novos olhos.

Artistas que trabalham no idioma da pintura em estilo japonês moderno, ou Nihonga, recriaram cenas icônicas usando uma surpreendente nova paleta e escala para atender às tendências de cada época. Genji continuou a funcionar como um critério na era moderna para artistas que combinavam técnicas e assuntos tradicionais com abordagens da arte ocidental, ao mesmo tempo em que refletia as novas formas de leitura e politização do conto no século 20.

GENJI EM MANGÁ

Um dos mais notáveis ​​desenvolvimentos da imagem de Genji na contemporaneidade é o surgimento de numerosas versões de mangá do conto. Sonhos ao amanhecer, uma interpretação de múltiplos volumes da artista feminina Yamato Waki, superou os demais na arte e atenção aos detalhes históricos e características literárias do original. A tradução do mangá de Yamato tornou o conto antigo acessível a uma nova geração de leitores. A artista usou o idioma visual das histórias em quadrinhos de garotas (shōjo manga), com figuras caracterizadas por corpos esbeltos, feições agudas e olhos grandes, bem como toda a gama de estratégias narrativas de forma cômica. Em termos de conteúdo narrativo, shōjo mangá enfatiza relacionamentos românticos e intensifica emoções em histórias contadas a partir da perspectiva de uma mulher.

Yamato Waki, Genji se aproxima da morte, da série “O Conto de Genji: Sonhos ao Amanhecer” Japão, ca. 1989. Foto: ©Yamato Waki

 

O conto de Genji • MET Museum • Nova York • 5/3/2019 a 16/6/2019

 

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