Novos prêmios: todos saem ganhando

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Espera-se de um artista que ele passe, em sua carreira, por diferentes momentos profissionais. Não falo de fases de criação, mas de diversos níveis e patamares alcançados dentro do próprio panorama artístico. Ao menos visando à saúde mental, é desejável que o reconhecimento seja fruto da qualidade exponencial de sua obra e que o crescimento profissional venha com o tempo, pois só assim se pode esperar acumular experiência. Nascer grande tem as suas complicações; crescer tem suas delícias. Isso se aplica a criadores e também a curadores, projetos culturais, galerias e instituições. Da mesma forma que os artistas transitam entre distintos níveis, também o podem fazer os prêmios, consolidando-se e definindo-se ao longo de sua trajetória e, dessa forma, gerando outra visibilidade à instituição e aos premiados.

No Brasil há vários prêmios considerados jovens por terem surgido em anos recentes. Outros assim se definem por contemplar jovens artistas. Eles se diferenciam nas maneiras de premiar e se unem na empreitada de promover a arte nacional, seja em termos de criação ou de pesquisa. Para citar alguns, a produção audiovisual desfruta de incentivos do Instituto Brasileiro de Museus-Ibram (Prêmio Roteiros Audiovisuais) e da Fundação Joaquim Nabuco (Concurso de Videoarte), além do recente Prêmio Registros, lançado pelo Canal Contemporâneo, que seleciona vídeos sobre arte. Dentro da ArtRio, o Ibram premia artistas com a compra de obras que passarão a integrar acervos de coleções públicas. Os projetos estatais ganharam este ano o prêmio Muros: Territórios Compartilhados, oferecido pela prefeitura de Belo Horizonte. Já o Arte.mov contempla projetos em mídias móveis, este ano em colaboração com a instituição holandesa NIMk.

Os prêmios acima mencionados são recentes, têm abrangência nacional e contemplam os artistas com dinheiro. São um breve recorte do panorama artístico do país, e como estão vinculados a instituições (tanto públicas quanto privadas) seu ciclo de vida muitas vezes independe de seu sucesso ou de sua visibilidade. Fatores como mudanças políticas ou de mercado exercem sua força; por conta disso, podemos extrapolar que dentro de cinco anos o panorama atual será bem diferente.

Nesse sentido, a Semana de Arte do Recife, mais conhecida como SPA das Artes, é um belo modelo de crescimento e resistência. O projeto, que acaba de completar dez anos, provou-se forte o bastante para ficar e flexível o suficiente para melhorar. Nos último cinco anos, apostou não apenas na realização de exposições, mas também no incentivo à produção de obras e em oficinas de formação. Agora, somando três prêmios com mais de vinte selecionados, a SPA é um dos momentos mais atraentes e disputados da arte nacional

Outro formato que deu certo e parece inabalável é o dos salões de arte, que oferecem, alem dos prêmios, a oportunidade de participação em uma exposição coletiva. O componente novo, aqui, é representado pelos próprios artistas, geralmente emergentes, já que muitos dos salões acumulam décadas de história. O mais antigo deles, o Salão Paranaense, tem 63 anos ininterruptos de carreira, seguido de perto pelo cearense Salão de Abril, com 62 edições. No estado de São Paulo há os salões de Piracicaba e Ribeirão Preto, respectivamente com 43 e 36 anos de trajetória. Apesar de antigo, o formato não é engessado, e propostas como o Rumos, do Itaú Cultural, e o recente Salão dos Artistas Sem Galeria, promovido pelo Mapa das Artes, renovam o roteiro.

Numa conjuntura onde o circuito comercial começou há pouco a se expandir para além das grandes galerias, a simples possibilidade de exposição já é um prêmio. É, muitas vezes, a primeira chance fora da academia, e a visibilidade proporcionada por um museu ou espaço institucional pode ser tão interessante quanto o prêmio em dinheiro. Outros importantes projetos cujo foco é impulsionar artistas em início de carreira são o Novíssimos, da Galeria da Arte Ibeu, e o Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo.

Para um jovem artista, a importância de figurar numa lista de selecionados é imensa. Mas há certo risco: da mesma forma como alguns prêmios se consolidam, outros têm o efeito oposto ao desejado e podem, na pior das hipóteses, definir de maneira errônea nosso fazer artístico. Nesse caso é preferível apagá-lo do currículo, mas não vale não arriscar-se. Por mais que diante de grandes prêmios e de gigantes institucionais algumas iniciativas pareçam pequenas, em poucos anos elas podem ganhar força e representatividade. Por isso há de se apostar, e isso vale para artistas e investidores.

Entre as premiações não há competição: é um jogo no qual todos são bem-vindos, e todos saem ganhando.

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