© Rômulo Fialdini

DASARTES 10 /

No vento e na terra

Ricardo Boechat ainda sonha com o quadro que já adornou sua sala.

Ricardo Boechat, qual a é a obra de arte dos seus sonhos?

“É uma peça dos últimos anos de Iberê Camargo, No vento e na terra. O quadro me incomoda, me perturba, me fascina.”

Atualmente, o jornalista Ricardo Boechat apresenta um programa de rádio diário todas as manhãs, das 7h às 9h, na BandNewsFM e, também, o Jornal da Band. Além disso, semanalmente assina uma coluna na revista Isto é. Em sua trajetória, deu expediente nos mais importantes veículos da mídia impressa e televisiva como os jornais O Globo, O Estado de S. Paulo, o Jornal do Brasil e O Dia, no SBT ( na sucursal carioca), e ocupou o cargo de diretor de jornalismo na TV Bandeirantes. Considerado um dos mais renomados jornalistas brasileiros, foi ganhador de três prêmios Esso.

Logo no começo da entrevista, este operário da informação vai logo se desculpando pela falta de originalidade, lembrando que outro participante desta seção na Dasartes #4 também apostou no artista gaúcho Iberê Camargo como autor da obra de seus sonhos: “Vi que o Paulinho escolheu o último quadro do Iberê, fantasmagórico, inacabado, como sua obra predileta. Não ficarei muito longe.”

Sem problemas, Boechat!

Gaúcho de Restinga Seca (1914), Iberê Camargo veio para o Rio de Janeiro, em 1943, e chegou a iniciar estudos na Escola de Belas Artes, mas se desligou por condenar o excesso de academismo vigorante na Escola. Pelo que se sabe, Iberê não integrou oficialmente especificamente nenhum movimento ou corrente artística, mas sua arte é, de fato, expressionista. Como os representantes deste grupo, Iberê pintava de dentro para fora de si. Usava o que tinha dentro de si para se expressar. Prova disso são pensamentos como “As coisas estão enterradas no fundo do Rio da vida” ou “Não pinto o que vejo, mas o que sinto”, ditas por ele. Teve Goeldi e Guignard como mestres e estudou com diversos professores tanto no Brasil quanto na Europa.

Sua extensa obra (algo em torno de 7 mil obras, incluindo mais de 3 mil desenhos e guaches, 1570 gravuras e 215 pinturas) hoje integra o Arquivo Artístico da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Dentre seus trabalhos, destacam-se os carretéis, os ciclistas e idiotas que dariam maior reconhecimento a Iberê Camargo e o tornariam um nome reverenciado nacional e internacional. Sobre os carretéis, declarou serem reminiscências de sua infância no Rio Grande. “Eles estão impregnados de lembranças”, disse em depoimento a Flávio de Aquino. Já sobre os ciclistas, que iniciou em 1984 e finalizou dez anos depois, já no fim da vida, disse Iberê: “Entendo que a vida é uma caminhada. Os ciclistas de meus quadros são caminhantes, no fundo sem meta. (…) No andar do tempo, vão ficando as lembranças: os guardados vão se acomodando em nossas gavetas interiores. Me parece que minha pintura sempre parece resgatar o passado, reencontra as coisas que foram soterradas e ficaram perdidas no pátio (…).”

No vento e na terra (1991) é a obra dos sonhos idealizada por Iberê Camargo que povoa os sonhos de Ricardo Boechat e que ele interpreta e reflete assim: “Trata-se de peça também de seus últimos anos, da qual fez duas ou três versões, em tamanhos monumentais. Mostra um homem (um corpo) de bruços (morto?), numa paisagem desolada, ouvido colado ao chão, com sua bicicleta a separá-lo do horizonte distante. Me pergunto se esse homem teria sido atropelado e agonizava, esperando por socorro que não virá; ou se apenas interrompeu viagem a caminho do nada, deitou-se em silêncio e se entregou (sei lá a quê…)”. Em sua opinião, aquela é sua mais contundente criação. Ele conta que já o teve em casa por alguns meses, enquanto seu guardião (“ninguém pode ser dono definitivo da arte”) concluía uma reforma na galeria que o abriga no acervo. “Claro que precisei ‘detonar’ minha sala para acomodá-lo. E enfrentar os compreensíveis protestos de minha amada mulher. Enfim, Iberê é o nome”.

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