© Bianca Cutait

Numa manhã ensolarada de inverno, encontrei-me com o autor da obra que me fez sorrir ao passar meus olhos sobre o delicado traçado. Ao chegar, esperava-me Nazareno e, ali, num mundo quase alternativo, a arte encontrara um sentido. Logo começamos um longo papo sobre a vida, sobre arte e, principalmente, sobre a vida de quem vive da arte.

Nazareno Rodrigues mora na grandiosidade de São Paulo, em seu ponto mais alto. De lá, pode ver a cidade acontecendo, e, na companhia de dois gatos, cria formas e desformas. Assim que começamos a conversar, explica-se: “Sempre desenhei, porque também sempre comi”. Arte por instinto, pensei. E ele passa isso, seja nas obras quase hipnóticas, ou quando mexe nas incontáveis gavetas de acumulações, como descreve. Por ter sido criado pela avó, que por sua vez foi criada pela avó, ele se lembra de histórias da tataravó. A forma de se expressar por saber tais histórias é um bastante peculiar, faz Nazareno usar palavras em suas obras. Somos seres que se comunicam de palavra em palavra, e isso passa então, a ser arte.

Mas as palavras que me surpreenderam não foram apenas aquelas calcadas em suas artes, mas aquelas que narrou o profissionalismo com quem está ao seu redor no processo. Ao me mostrar suas obras, acabei adquirindo uma, quando me explicou que repassaria a parte da galeria. Perante meu contentamento pela postura, disse: “Se não, você não se profissionaliza”. Nazareno possui apenas acordos com as galerias com as quais trabalha. “Artista tem que confiar no dealer, é o seu parceiro comercial”. Ao falarmos de documentação, explicou o rigor que mantêm com a sua própria, narrando um trecho de sua vida onde o professor sugeriu que ficasse sem comer, mas que tivesse um bom fotógrafo pra registrar sua obra.

É rígido também com as canetas que utiliza. Para obter resultados, chegou a usar seis novas num mesmo desenho. Dentro das muitas gavetas acumulativas, os papéis são diferentes pela qualidade. “Uso os melhores materiais porque tenho interesse que meu trabalho dure”, pontuou. Nazareno é exímio desenhista, preza pela sua liberdade de atuação e acredita que os colecionadores mudaram sua forma de escolher as obras, hoje querem conhecer o artista.

Sou uma colecionadora que gosta de muitas obras, mas se apaixona por poucas, amor à primeira vista é raro. Assim foi quando conquistei minha mais recente peça, uma gravura singela e significativa. Para mim, jovem colecionadora, foi um prazer ter conhecido Nazareno, autor da última obra que adquiri antes de conhecê-lo e da última obra que eu adquiri depois de conhecê-lo. Hoje tenho orgulho de possuir obras do artista sábio com seu trabalho, profissional com seus semelhantes, e gentil com seus gatos. Segundo suas palavras calcadas em forma de arte, somos assim. O que podemos fazer?

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