Muitas vezes, as obras de Nara Amélia parecem ter sido arrancadas diretamente de livros de fábulas ou literatura fantástica. Suas gravuras – técnica que por si só já remete à ilustração de livros – parecem surgidas de clássicos de La Fontaine ou dos Irmãos Grimm, oscilando entre o aspecto mais leve com os quais chegaram aos dias atuais e aquele teor sombrio que sabemos possuírem seus originais. Apesar de afirmar que a maior parte de suas referências vem da literatura e não das artes visuais, Nara percebe suas imagens “mais como?alegorias do que como histórias com início, meio e fim. Parecem mais cristalizar um pensamento, uma emoção, do que uma história”. Impregnados de suas referências literárias (Jorge Luis Borges, João Guimarães Rosa, Franz Kafka, etc.), os pensamentos e as emoções que Nara nos apresenta estão ali mesmo, na superfície de suas gravuras, que muitas vezes recebem inserções, colagens, bordados, dotando-as de tridimensionalidade e tornando cada uma delas uma obra única. Os diversos enredos das obras são tecidos pela artista gaúcha – doutora em Poéticas Visuais pela UFRGS, Porto Alegre – não pelo suporte da palavra, mas pelo traço delicado e preciso de suas gravações. O tom onírico e muitas vezes melancólico aos quais tais gravuras nos conduzem se situam num campo entre a obra ao encontro e as próprias referências do espectador. Se, por um lado, esse universo de sonho é evocado, como em Goya, por vezes “o sonho da razão produz monstros”, ficando impossível ignorar a conversão em pesadelo que o tom satírico e transgressor imprime às suas composições com personagens grotescos, mais comuns e cotidianos do que gostaríamos de assumir.?Figuras antropomorfas, animais humanizados, fragmentos de texto, títulos sugestivos, tons amarelados (oriundos de técnicas de tratamento do papel e da apropriação de livros e cadernos antigos)… Tudo contribui para a percepção de que há algo além do que encontramos puramente na visualidade apresentada. Embrenhando-nos na floresta de linhas, figuras e cores proposta pela artista, deparamo-nos com personagens, ideias e composições que deslizam por caminhos distintos, abrem janelas e atravessam portais para, ao fim, pairar em um universo difuso e efêmero, sem jamais encontrar repouso em uma única narrativa que os defina completamente.

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