DASARTES 30 /

Nara Amelia

Muitas vezes as obras de Nara Amélia parecem ter sido arrancadas diretamente de livros de fábulas ou literatura fantástica.

Muitas vezes, as obras de Nara Amélia parecem ter sido arrancadas diretamente de livros de fábulas ou literatura fantástica. Suas gravuras – técnica que por si só já remete à ilustração de livros – parecem surgidas de clássicos de La Fontaine ou dos Irmãos Grimm, oscilando entre o aspecto mais leve com os quais chegaram aos dias atuais e aquele teor sombrio que sabemos possuírem seus originais. Apesar de afirmar que a maior parte de suas referências vem da literatura e não das artes visuais, Nara percebe suas imagens “mais como?alegorias do que como histórias com início, meio e fim. Parecem mais cristalizar um pensamento, uma emoção, do que uma história”. Impregnados de suas referências literárias (Jorge Luis Borges, João Guimarães Rosa, Franz Kafka, etc.), os pensamentos e as emoções que Nara nos apresenta estão ali mesmo, na superfície de suas gravuras, que muitas vezes recebem inserções, colagens, bordados, dotando-as de tridimensionalidade e tornando cada uma delas uma obra única. Os diversos enredos das obras são tecidos pela artista gaúcha – doutora em Poéticas Visuais pela UFRGS, Porto Alegre – não pelo suporte da palavra, mas pelo traço delicado e preciso de suas gravações. O tom onírico e muitas vezes melancólico aos quais tais gravuras nos conduzem se situam num campo entre a obra ao encontro e as próprias referências do espectador. Se, por um lado, esse universo de sonho é evocado, como em Goya, por vezes “o sonho da razão produz monstros”, ficando impossível ignorar a conversão em pesadelo que o tom satírico e transgressor imprime às suas composições com personagens grotescos, mais comuns e cotidianos do que gostaríamos de assumir.?Figuras antropomorfas, animais humanizados, fragmentos de texto, títulos sugestivos, tons amarelados (oriundos de técnicas de tratamento do papel e da apropriação de livros e cadernos antigos)… Tudo contribui para a percepção de que há algo além do que encontramos puramente na visualidade apresentada. Embrenhando-nos na floresta de linhas, figuras e cores proposta pela artista, deparamo-nos com personagens, ideias e composições que deslizam por caminhos distintos, abrem janelas e atravessam portais para, ao fim, pairar em um universo difuso e efêmero, sem jamais encontrar repouso em uma única narrativa que os defina completamente.

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