© ©2001-2006 Takashi Murakami /Kaikai Kiki Co., Ltd. Todos os direitos reservados Foto: Cedric Delsaux - The Hall of Mirrors / Château de Versailles

DASARTES 13 /

Murakami no Versalhes.

Murakami no Palácio de Versalhes.

A arte contemporânea é escândalo no palácio de Versalhes. Após Jeff Koons (2008) e Xavier Veilhan (2009), o japonês Takashi Murakami é o artista convidado para intervir nos aposentos, galerias, salões, escadarias e jardins de Luís XIV até o mês de dezembro. Trata-se da primeira grande retrospectiva de Murakami na França, em que ele apresenta 29 obras, sendo onze delas concebidas especialmente para o evento.

Há algumas décadas, as políticas culturais francesas buscam incentivar diretores de museus e de instituições de cunho artístico, dedicados às artes antiga e clássica, a se abrirem à criação atual. Assim, mostras contemporâneas acontecem em instituições de renome como o Louvre, mas também tomam espaços como catedrais e outros monumentos históricos. Além de ampliar as possibilidades de funcionamento dessas instituições, a estratégia também visa a diversificação do público.

O projeto de ocupação de Versalhes por artistas contemporâneos segue critérios precisos. Privilegia-se obras de grande dimensão, capazes de rivalizar com a decoração do próprio palácio. Esculturas são mais apropriadas que pinturas, uma vez que as paredes não podem ser ocupadas. Até agora, o impacto foi garantido – positiva e negativamente. Se, por um lado, crítica e parte do público aplaudem, por outro lado, manifestações de opositores ao projeto não tardaram a surgir, e duas associações já criaram petições contra a mostra.

A visita do palácio acontece, com frequência, e em qualquer época do ano, em meio a centenas de pessoas que disputam um ângulo de onde se possa observar e apreciar cada espaço, com seus móveis, tapeçarias, pinturas e objetos diversos. A fila de espera (apesar dos ingressos à venda no site de Versalhes) e a visita por vezes tumultuada não intimidam o público. Estima-se que, anualmente, cerca de 12 milhões de pessoas visitem o palácio – fato que o situa entre os cinco lugares mais visitados da França.

Sabe-se que, de início, Versalhes foi um modesto castelo construído por Luís XIII para a prática de caça. Mais tarde, o local foi escolhido por seu filho, Luís XIV, para a construção do palácio que conhecemos hoje, que é símbolo do poder e do absolutismo real, lugar de encarnação da arte clássica francesa. Sua decoração deveria evocar a alegria, a felicidade e a festa, sendo todos esses símbolos dos anseios e das fantasias do rei.

Ao percorrermos a mostra Murakami Versailles – que obedece ao sentido da visita do palácio –, percebemos expressões de espanto, de curiosidade, de apreciação, seguidas de alguns poucos suspiros, de risos e de muitos comentários causados pelos trabalhos. Na verdade, apenas uma pequena parcela do público vai ao palácio com o objetivo de ver a mostra de Murakami. Muitos são pegos de surpresa.

Festivos, extravagantes e cheios de humor, personagens pop de Murakami destoam do fundo barroco, mas encontram nele alguns elementos afins: o excesso, o dinamismo, a força das cores, o refinamento, o acabamento das peças (algumas cobertas por folhas de ouro, elemento fundamental da estética do palácio). No Salão de Apolo, encontra-se Yume Lion, uma escultura coberta de folhas de ouro que ganha sentido na sala mais importante dos apartamentos do rei, antes de tornar-se sala do trono. O leão dourado de Murakami é rei dos animais e dialoga com a pintura de Rigaud em que se encontra representado Luís XIV, o Rei Sol.

Há 30 anos, o domínio de Versalhes foi tombado como patrimônio mundial da humanidade e atrai turistas do mundo inteiro (70% do público é constituído por turistas). Mas Murakami conheceu o palácio de Luís XIV ao assistir a uma novela da televisão japonesa, inspirada no mangá The Rose of Versailles (1972), cujo tema é Revolução Francesa. De fato, a percepção do artista é enriquecida por esse novo detalhe: Versalhes é mangá. A partir daí, o universo do mangá – que sempre foi matéria-prima para o artista –, com seu colorido, suas flores sorridentes, seus personagens, instala-se bem à vontade no ambiente luxuosamente concebido pelo rei francês.

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